A garantia foi dada por António Costa ao Presidente da República, na altura em que o “informou” da nomeação de António Costa Silva, o independente escolhido para assessorar o Governo na elaboração de um plano de recuperação da economia. “O que me foi comunicado pelo primeiro-ministro foi que não se tratava de um novo membro do Governo, era uma escolha por despacho do primeiro-ministro para exercer uma função de aconselhamento e conjugação de esforços, mas não se tratava propriamente de uma remodelação do Governo”, garantiu Marcelo Rebelo de Sousa aos jornalistas, dando conta da garantia que lhe tinha sido dada pelo primeiro-ministro.

O Presidente da República falava aos jornalistas no final de uma visita a duas creches e pré-escolar na Santa Casa da Misericórida da Amadora, no dia em que se assinala simultaneamente o dia da criança e o primeiro dia da terceira fase de desconfinamento, com a reabertura das creches e do ensino pré-escolar em todo o país. Questionado sobre se António Costa Silva podia ser entendido como uma espécie de “paraministro”, Marcelo Rebelo de Sousa deixou claro que o Presidente da República não se pronuncia sobre escolhas de colaboradores do governo para determinadas missões específicas, limitando-se a “respeitá-las”. Foi o que aconteceu, por exemplo, quando o Governo escolheu um consultor independente para a área das Florestas, e é o que acontece agora com a escolha do presidente executivo da Partex, escolhido pelo primeiro-ministro para o assessorar no Plano de Recuperação Económica pós-pandemia.

“O senhor primeiro-ministro entendeu designar para essa tarefa de estudo e posterior coordenação de elementos de reflexão para aquilo que vai ser o plano de recuperação económico-social do país, que é muito importante, e como tal essa é uma matéria que o primeiro-ministro informou ao Presidente da República, mas não há propriamente uma nomeação ou intervenção do Presidente”, limitou-se a dizer Marcelo Rebelo de Sousa, não querendo desta forma reagir às críticas feitas pelos partidos, como o BE ou o CDS, que consideram tratar-se de uma espécie de “paraministro”, que está acima dos restantes ministros, e com quem rejeitaram sentar-se à mesa para conversar.

Independente Costa Silva, escolhido por Costa, traçou em dois dias linhas gerais de um plano de dez anos

Se Marcelo escrevesse um livro de memórias… este seria o “capítulo mais difícil”

A visita de Marcelo Rebelo de Sousa, na tarde desta segunda-feira, a dois complexos sociais da Santa Casa da Misericórdia da Amadora tem “história”. No início de maio, o Presidente da República recebeu em Belém vários responsáveis pelas Misericórdias do país e, com o da Amadora, foi feita uma espécie de promessa ali à mesa da sala do Conselho de Estado: “Vou ter de visitar e até me ocorre já uma data: 1 de junho, dia da criança e dia da reabertura das creches”. Assim foi. “Naquela altura, parecia uma data longínqua porque, nesta pandemia, cada dia pareciam anos“, comentou o Presidente, falando no final da visita.

Mas a data chegou rapidamente e lá estava o Presidente da República conforme o combinado. Nos dois polos que visitou, idosos da Misericórdia conviviam quase lado a lado com as crianças da creche. No chão, no recreio, junto ao espaço de brincadeira das crianças, umas peças de lego serviam de marca no chão numa tentativa de delimitar o espaço e manter o distanciamento social. Mas numa visita do Presidente, com uma ampla comitiva, nem sempre é fácil manter as regras na ponta da língua. Munido de máscara e luvas, que calçou assim que se aproximou das crianças, Marcelo perguntou o nome e a idade a todos, deu conselhos ao pequeno Mário sobre como pintar com aguarelas e fez uma corrida de carros com a Madalena.

O distanciamento social, já se sabe, é difícil de manter junto de crianças. Algumas delas, como é o caso do Afonso, até nem eram para estar ali, mas quiseram ir especificamente para cumprimentar o Presidente. Foi das mãos desta criança que Marcelo recebeu um presente: uma representação, feita à mão, de São Francisco de Assis, o santo que dá nome aquele polo de pré-escolar do Complexo Social da Sagrada Família.

PR visitou dois complexos da Misericórdia da Amadora no dia da Criança e no primeiro dia de reabertura total das creches

Apesar da reabertura das portas, os tempos ainda são difíceis. “O vírus não desapareceu miraculosamente, a pandemia não terminou. Estamos convictos de que a parte mais complicada, do choque inicial, já passou, mas temos de estar sempre atentos, a dar pequenos passos, calmamente, para conquistarmos a confiança necessária e para estarmos preparados para novos desafios que surjam no presente e no futuro próximos”, disse no final da visita, sublinhado que nos últimos meses a noção de tempo tem sido diferente: “Vivemos cada dia como se fosse o primeiro e o último, depois logo se via como ia ser no dia seguinte”. “Era uma aventura olhar para o dia seguinte e não saber o que ia acontecer”, desabafou ainda o Presidente da República, num discurso que pareceu de fim de ciclo.

E quando os ciclos se acabam, há sempre a parte dos agradecimentos. Neste caso, Marcelo dedicou especial agradecimento às misericórdias e aos autarcas, que, durante a pandemia, tinham de ter uma capacidade de resposta muito rápida para resolverem os problemas na hora. “Em tempos de pandemia, as misericórdias agigantaram-se. Foram apanhadas de surpresa, fomos todos, e tiveram de responder dia a dia, no meio do imprevisto, a desafios impensáveis. Tiveram o apoio dos autarcas, e eu falei com todos eles e sei que foi uma aventura responder às necessidades dos portugueses na hora”, disse ainda, anunciando que, depois de ter visitado o concelho de Ovar, que foi alvo de uma cerca sanitária, também está nos seus planos visitar outros territórios, nas ilhas, que foram também alvo de cercas do mesmo género.

É certo e sabido que Marcelo Rebelo de Sousa, ao contrário de Cavaco Silva, não vai escrever nenhum livro de memórias quando deixar as funções públicas que ocupa — já o disse várias vezes e hoje voltou a repetir. Mas se escrevesse, Marcelo não tem dúvidas de que este capítulo iria ser “o mais longo e o mais difícil” de contar. “Todas as histórias que eu ouvi, sobre testes, sobre proteção sanitária, sobre máscaras, sobre reações tomadas em cima da hora, sobre iniciativas dos autarcas para resolver problemas na hora… todos os telefonemas feitos para mim, para o primeiro-ministro, a ministra da Saúde, os secretários de Estado, os diretores-gerais…”. Marcelo não vai escrever um livro de memórias, nem que Cristo desça à Terra, mas material não lhe falta.