Em condições normais, e como aconteceu durante vários atos eleitorais, Pinto da Costa devia passar pelo Dragão Arena (ou pelo estádio, ou por onde se realizasse o sufrágio), votar, passar algum tempo por ali e voltar a casa. Era quase aquele sentimento de “mais um dia” porque a única dúvida era se ganhava com mais ou menos votantes e se tenha mais ou menos brancos ou nulos. Este fim de semana, tudo foi diferente. E o próprio comportamento do líder portista indiciou isso mesmo, a começar pela presença quase constante no local entre sábado e domingo.

Oficial: Pinto da Costa reeleito para o 15.º mandato como presidente do FC Porto com 68,65%

Chegado por volta das 11h no sábado ao Dragão Arena, onde se encontraram depois Adelino Caldeira ou Alípio Jorge, Pinto da Costa fez um longo compasso de espera e acabou por encaminhar-se para a Mesa 1 já depois do meio dia e meio, altura em que José Fernando Rio, aquele que todos perceberam sempre que seria o adversário na prática, já tinha exercido o direito de voto. Votou depois, falou depois, foi embora depois. Muito depois. Porque entretanto ainda foi tirando mais umas fotografias com os adeptos, ainda esteve à conversa com os associados e saiu depois para um almoço onde se cruzou com um sócio de 70 anos que lhe disse que nunca tinha ido votar mas que, ao ver algumas capas a tenderem contra o líder, decidiu também participar no sufrágio.

Este domingo, mesmo já tendo votado, Pinto da Costa regressou ao Dragão Caixa. Enquanto alguns dos nomes mais sonantes da lista A (ou simples apoiantes) iam aparecendo em diferentes espaços ao longo dos dois dias quase como se fosse algo combinado (André Villas-Boas, Vítor Hugo, Reinaldo Teles, Vítor Baía, Rui Barros, Fernando Gomes e Rui Moreira, entre outros), o presidente dos azuis e brancos voltou a falar à comunicação social depois do líder da Câmara Municipal para defender a sua presença na lista do Conselho Superior, voltou a falar da ausência de público nos estádios e da Assembleia Geral da Liga de Clubes e regressou ao Dragão Arena. Aí, foi continuando a confraternizar com sócios e recebeu até uma nova máscara, a mesma com que viria a fazer o discurso de vitória e que em vez de ser azul escura já tinha o símbolo do clube. Eram capítulos de um fim previsível.

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Apenas duas horas depois do final do segundo maior sufrágio de sempre na era Pinto da Costa, com os 8.480 sócios que passaram pelo recinto dos azuis e brancos só superado pelos 10.780 de 1988, o Porto Canal já anunciava a reeleição do líder nos últimos 38 anos para o 15.º mandato e o Jogo dava as percentagens das três primeiras mesas de voto que estavam contadas, e que variavam entre os quase 59,6% e os 70,7%. Ao Observador, apontavam para 70% a 75%. Foi ligeiramente menos, talvez porque, por exemplo, Rio tenha conseguido mais nas mesas 1 e 4 do que na mesa 8 – o que não deixou de ser uma surpresa. O triunfo, esse, era claro. E ainda Matos Fernandes não tinha anunciado os resultados finais já Pinto da Costa fazia o discurso da vitória aos jornalistas presentes.

Pinto da Costa começou com uma máscara azul escura e acabou com uma com o símbolo do FC Porto entre muitas solicitações

Em relação ao que foi dito sobre o FC Porto, tirando outros comentários sobre a atualidade como a ausência de público nos estádios e a Assembleia Geral da Liga de Clubes desta segunda-feira (mais uma vez), ficaram três grandes notas sobre as declarações do presidente azul e branco: 1) apesar do desgaste que os anos na vigência no clube agora sem tantos sucessos podia ter provocado, sentiu que teve uma vitória conclusiva e dedicou-a aos sócios, tecendo mesmo um rasgado elogio à vitalidade da claque Super Dragões; 2) das dúvidas levantadas sobre a seriedade do ato à ideia de que os portistas não podiam ficar agarrados a uma dívida de gratidão com o atual líder, Pinto da Costa lançou “farpas” a alguém que ganhou o seu espaço no universo azuis e branco: José Fernando Rio; 3) da Cidade FC Porto à renovação dos estatutos, passando pelas melhorias no futebol de formação e pelo saneamento financeiro, Pinto da Costa é prático: quer voltar a ganhar mais vezes e que os adeptos o mais unido possível à sua volta numa fase em que todos os clubes entrarão num contexto mais complicado.

Assim, e contas feitas, Pinto da Costa venceu com 68,85%, contra 26,44% de José Fernando Rio e 4,91% de Nuno Lobo. Mas existem mais vencedores e vencidos num fim de semana histórico para o FC Porto.

Vencedores: Pinto da Costa, Brás da Cunha, Rio e os sócios

  • Sócios do FC Porto. A adesão em massa ao longo do fim de semana, que acabou até por ser superior no domingo (quando costuma ser ao contrário) mostrou uma vitalidade associativa que estava escondida num clube que não tinha eleições com mais do que um candidato há quase 30 anos. Os 8.480 associados que foram ao Dragão Arena, longe dos mais de 20 mil que participaram nos últimos sufrágios com pelo menos dois candidatos de Sporting (2018) e Benfica (2012), são um sinal sobretudo para um futuro que deverá contar com cada vez mais afluência não só nas AG eleitorais mas também nas reuniões magnas no clube;
  • Pinto da Costa. O passado de quase quatro décadas que colocou um clube de currículo curto na formação nacional de longe com mais títulos europeus no futebol (sendo que já chegou a ser o clube em Portugal com mais títulos, sendo depois novamente ultrapassado pelo Benfica) pesou na continuidade manifestada pelos sócios num contexto que nem era agora favorável em termos desportivos e financeiros. Em paralelo, houve outro “triunfo”: ao contrário do que aconteceu noutros clubes, onde não funciona o regime de “um sócio, um voto” e existem hierarquias, Pinto da Costa nunca teve a tentação de alterar esse regime nos estatutos acreditando em todas as eleições que podia ganhar pelo mérito. Mais uma vez, conseguiu;

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  • Miguel Brás da Cunha. O líder da lista D, que se apresentou apenas ao Conselho Superior, foi outro dos grandes vencedores das eleições. Com menos espaço mediático, passando ao lado da grande discussão que passava pela liderança do clube, conseguiu passar a mensagem pró-FC Porto de criar discussão positiva no órgão consultivo e de colocar os associados acima de tudo. O facto de ter sido a segunda lista mais votada para o órgão, criando espaço no eleitorado de José Fernando Rio (onde “roubou” quase 11,5%) mas também de Pinto da Costa (onde foi buscar quase 4%), acabou por ser uma das surpresas da noite;
  • José Fernando Rio. Com uma campanha onde foi evitando muitos ataques diretos a Pinto da Costa, dizendo mesmo que vem de uma geração que é filha do líder azul e branco, criou um espaço interessante em termos eleitorais que pode agora gerir até ao próximo sufrágio eleitoral em 2024. Queria ganhar mas perdeu, o que não deixa de ser uma derrota, mas quer o facto de ter chegado a quase 26,5% do eleitorado, quer o facto de ter tido percentagens mais altas até em algumas mesas de sócios com maior antiguidade do que na mesa 8, por exemplo, provou sobretudo que há uma franja que pede uma mudança de paradigma na SAD que possa dar outra sustentabilidade financeira ao clube depois da queda nos últimos anos.

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Vencidos: Nuno Lobo e Martins Soares

  • Nuno Lobo. O candidato da lista C foi até o que teve mais ações junto de Casas do FC Porto pelo país mas a mensagem claramente não passou e não foi além de um resultado abaixo dos 5%. Ideias como a criação do futsal ou o regresso do voleibol masculino seriam bem aceites pela larga maioria dos associados, sobretudo os que acompanham mais as modalidades de alto rendimento no pavilhão, mas a visão mais abrangente para o futuro do clube não pegou. Com isso, o discurso de ataque ao rival Benfica tornou-se curto;

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  • Martins Soares. Foi o maior derrotado deste sufrágio eleitoral, sendo o mais “conhecido” entre os que tinham alguma coisa em jogo por já ter desafiado Pinto da Costa em duas ocasiões com um resultado de cerca de 20% em 1991. A associação como cabeça de lista ao Conselho Superior à lista de Nuno Lobo, de longe a menos escolhida entre os associados, não ajudou a que conseguisse pelo menos a sua eleição; o discurso que teve após votar, falando em 22 empresários que iriam investir no clube e que pagariam a criação do futsal, além da necessidade de a Direção fazer passar as grandes decisões pelo Conselho Superior, também não contribuíram em nada para chegar pelo menos aos 5% que lhe valeriam a entrada no órgão.

O discurso de vitória de Pinto da Costa, com umas “farpas” à mistura

Matos Fernandes, líder da Mesa da Assembleia Geral, anunciou os resultados oficiais pouco antes das 23h. Antes das 22h15, Pinto da Costa já se apresentava aos jornalistas perto da entrada na zona VIP dos camarotes do Dragão Arena, saudando em paralelo as dezenas e dezenas de adeptos, sobretudo pertencentes à claque dos Super Dragões, que quiseram ir saudade o presidente dos azuis e brancos logo após a reeleição.

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“Estou muito contente com a forma como decorreu este ato eleitoral. Para quem pôs em dúvida como poderia correr, para quem levantou suspeitas da seriedade que iria ter, foi uma resposta que a massa associativa deu de uma maneira extraordinária. Queria congratular-me com este exemplo de vitalidade, de ordem, de respeito e de interesse na vida do FC Porto. Votaram 8.480 associados, o que é realmente notável, porque há muita gente que teve de receio com as especulações feitas, como viram não houve o mínimo perigo de contágio e essa é a primeira mensagem que tenho de dar, a agradecer a todos os que ajudaram neste ato, em particular ao presidente da Mesa da Assembleia Geral”, começou por referir na primeira resposta, antes de confirmar a reeleição.

“Depois, tenho de agradecer aos 8.480 sócios que vieram votar, sinal de que sentem e vivem diariamente o FC Porto. De maneira especial, àqueles que confiaram em mim num momento em que não é fácil para ninguém, vieram dar um voto de confiança, um sinal de estímulo que é muito importante para as batalhas que se seguem. Estou feliz por eles, queriam que continuasse, é isso que vai acontecer. Farei tudo pelo FC Porto. Desta campanha eleitoral, guardarei as minhas ilações e fico feliz porque houve órgãos que quiseram prejudicar a minha candidatura, sinal de que ainda sou útil ao FC Porto”, assumiu, sem saber ainda a percentagem conseguida.

Pinto da Costa no momento em que votou, no sábado à hora de almoço (Foto: Global Imagens)

“Tenho muitas prioridades, o Centro de Estágio, manter a competitividade que as nossas equipas têm, fazer crescer a massa associativa, é ter a massa associativa o mais unida possível porque todos somos necessários para os combates que nos esperam e poder como até hoje, ao fim de 38 anos, deitar-me de consciência tranquila ciente de que fiz o máximo e o melhor pelo FC Porto. Tenho mais de metade da minha vida dedicada ao FC Porto mas naturalmente que, se abracei e assumi esta paixão, vou continuar enquanto os sócios quiserem com o mesmo entusiasmo, o mesmo sentido de responsabilidade e a mesma vontade de fazer o FC Porto maior e melhor. Último mandato? Só faço previsões a três anos, daqui a quatro não lhe posso dizer nada”, destacou, dizendo mais à frente que outro dos pontos que irá avançar é a criação de uma comissão para rever os estatutos.

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“É sempre um motivo de felicidade sentir isto e há aqui muita juventude e ainda na quarta-feira deram um grande exemplo do que é ser uma claque. O comportamento dos Super Dragões foi exemplar, mesmo depois da derrota, a apoiar já para o próximo jogo podendo nós ter perdido a liderança, que não aconteceu. Deve fazer inveja a muitos clubes e a muitas claques e eu tenho muito orgulho nos Super Dragões”, elogiou, colocando o principal enfoque no futuro: “Tive o cuidado de dizer que não me recandidatava pelo que foi feito no passado. Não me compete a mim avaliar, não sou historiador. Se não sentisse certeza, capacidade de que podemos fazer um futuro bom e vitorioso não me candidatava. Houve alguns que disseram que os sócios deviam ter rompido aquele sentimento de amor que há com o presidente. Não, não rompi isso porque tive sempre os sócios no coração. Vou romper é com aqueles que pensam dessa maneira”, completou, em mais uma “farpa” para José Fernando Rio.