“Já tenho colegas a dizer que vão fazer greve de fome à porta da Assembleia.” Andreia Meireles, do bar Bairrus Bodega, no Bairro Alto, e responsável pelo Grupo de Bares e Comerciantes da Junta de Freguesia da Misericórdia, em Lisboa, traduz assim a “ansiedade” sentida pelos trabalhadores do sector.

O bar ao lado do seu, na Rua da Barroca, outrora uma das mais movimentadas do bairro, não resistiu à pandemia. “Já está para alugar”, conta Andreia. “A vizinha nem sequer ponderou usufruir da cedência de espaço, não vale a pena. Estamos a falar de rendas acima dos 2500 euros, não são 2500 tostões do antigamente.”

Como responsável pelo grupo de comerciantes da zona de Lisboa com fama mundial pela movida noturna (Bairro Alto, Bica, Cais do Sodré e Príncipe Real) já enviou várias cartas ao governo que ainda não obtiveram resposta. “Escrevemos uma carta ao Presidente da República, ao primeiro-ministro, ao ministro da Economia, ao presidente da câmara… Nem sabemos se as leram.”

“Uma resposta” sobre a reabertura dos espaços, é tudo o que querem, para saberem o que fazer num futuro próximo. “Não podemos continuar a viver nesta dúvida. Nem temos oportunidade de arranjar um plano B”, continua Andreia.

“O lay-off não é um apoio para quem tem empregados, as linhas de crédito têm taxas de juro altíssimas e o que nós menos precisamos é de mais dívidas, que é o que estamos a acumular neste momento.”

A 18 de maio, os restaurantes puderam reabrir em todo o país seguindo as normas de segurança da DGS. Alguns espaços que funcionavam maioritariamente como bares, aproveitando o facto de terem CAE (Classificação de Atividade Económica) de restauração e cafetaria, conseguiram também abrir portas nessa altura, mas com horário reduzido, até às 23h00, e alguns tiveram de se reinventar, com petiscos. Os bares e discotecas continuam sem data para reabertura.

Para Andreia, isso está a criar uma “hostilidade entre comerciantes”, diz. “Temos restaurantes a funcionarem como bares, bares a servirem comida e mercearias a venderem muitas bebidas alcoólicas.”

Vanessa Vargas, da Alfaiataria, bar na Rua de São Paulo, no Cais do Sodré, já poderia estar a funcionar. Além de ter CAE de cafetaria, o espaço, com um balcão de nove metros, conseguiria assegurar a distância de segurança entre clientes, mas abrir portas agora não compensaria. “Tenho uma renda altíssima e os horários e as condições que a DGS impõe não são rentáveis”, explica a dona do bar. “Não tenho esplanada e as pessoas hoje optam por lugares ao ar-livre.”

Maria João Pinto Coelho, do bar Procópio, em Lisboa, estima que “cada bar tem pelo menos oito agregados familiares que dependem em parte ou totalmente dos ordenados que recebem”

Andreia, que tem licença de restauração e por isso o seu Bairrus Bodega pode funcionar até às 23h00, confirma que o horário imposto não é favorável ao negócio. “Por experiência própria, é puro prejuízo. Estou a pagar para trabalhar.”

“A lei não está do nosso lado”, continua Vanessa Vargas. “Para nós só resultaria se houvesse uma isenção dos impostos [para manter o bar a funcionar], a obrigação de acordo com os senhorios e que se levantasse a possibilidade de despejo. De outro modo, essa será a realidade de muita gente.”

Em maio, em entrevista à TSF, e questionado sobre a reabertura dos bares, o primeiro-ministro referiu que “se for necessário, iremos passar um verão sem bares e discotecas.”

A afirmação, e a falta de desenvolvimentos quase um mês depois, fez com que vários movimentos pedissem a abertura imediata destes espaços de lazer noturno.

No Porto, a Associação de Bares da Zona Histórica tem sido das mais ativas, com manifestações que se alastraram também a Lisboa e que exigiam uma abertura já nesta segunda-feira. “A culpa não vai ser dos bares se surgir uma segunda vaga”, afirmava o presidente da associação a semana passada, criticando a multiplicação de festas ilegais e o “fenómeno do botellón”.

Bares do Porto: “Estamos vivos. Mas precisamos de saber qual é o nosso futuro”

Na sexta-feira, o novo MAB – Movimento Pela Abertura dos Bares, com Maria João Pinto-Coelho, do histórico bar Procópio, como porta-voz, enviava uma carta ao primeiro-ministro depois daquilo que chamavam de “um cumprimento exemplar da lei seca social”. Com mais de 200 assinaturas, entre elas a de responsáveis por 50 bares do país e de artistas como o músico Manuel João Vieira, a atriz Soraia Chaves, o embaixador Francisco Seixas da Costa, ou o escritor João Tordo, o movimento pede a “reabertura imediata dos bares tradicionais”. “Não são mais do que pastelarias e cafés com diferentes horários”, lê-se na carta.

“Os donos destes bares estão dispostos a draconianas medidas, a bem dos seus clientes e da saúde pública. A lei seca começa a fazer fechar contas bancárias, a atrasar rendas, a dificultar a vida com os razoáveis fornecedores.

Ex.mo Senhor primeiro-ministro O bar é o lugar, como V.Ex.a sabe, que contribui para o são debate de ideias, para a essencial sobrevivência da democracia enquanto ideia e realidade. É também nos bares que se conversa, que se escreve, que se compõe, que se faz a catarse dos dias maus. No fundo, para o equilíbrio da saúde mental coletiva.”

Maria João Pinto-Coelho, jurista e filha do fundador do Procópio, reforça a ideia de que “o silêncio não faz sentido”. “Está tudo a assobiar para o lado”, continua a responsável pela comunicação do bar. “Agora abriram os bares dos hotéis, os bares do casino, qual é o critério?”

Enquanto isso, milhares de pessoas do setor continuam sem trabalhar. Maria João estima que “cada bar tem pelo menos oito agregados familiares que dependem em parte ou totalmente dos ordenados que recebem”. “Falo pelo meu [bar] e por outros que conheço.”

“A nova normalidade não é o que existia antes. Será impossível ter espaços sobrelotados e a discoteca vazia vai passar a ser a nova realidade. Temos de gerir as expectativas, a dos clientes e a nossa”, afirma o gerente do Trumps

Deejay Kamala, responsável por três espaços noturnos em Lisboa (Rive-Rouge, Bosq e Radio Hotel), diz que a situação está tão má para os profissionais da noite que há pessoas que não tiveram outra hipótese a não ser voltar a “viver com os pais”, conta. “E estou a falar de adultos com filhos.”

O DJ e empresário criou recentemente o streaming solidário MAD – Make A Difference, para ajudar DJs menos conhecidos com donativos via MBWay (e com o patrocínio de uma marca de bebidas) enquanto as discotecas continuam fechadas. “Têm sido vários os DJs de cidades do país que nos mandam mensagem a querer participar e que nos mandam os feedbacks mais desoladores, que não têm 1€ de apoio do governo, que não têm uma palavra para saber quando vão começar a trabalhar.”

Marco Mercier, coreógrafo e gerente do Trumps, a discoteca LGBT+ no Príncipe Real, relembra que muito do que acontece dentro de uma discoteca “é cultura”.

“Pequenos concertos, live-acts, DJs, bailarinos,… Muita gente se esquece que isso não deixa de ser cultura, que neste momento está estagnada, com milhares de pessoas sem trabalho. Essa é a parte mais preocupante de estarmos encerrados.”

O gerente do Trumps não prevê uma reabertura para breve, mas acredita que em Portugal a solução para o setor pode ser semelhante à implementada na fase 3 do desconfinamento em Espanha. “[Discotecas e bares a funcionar] sem pista de dança, de forma a manter o distanciamento.” Isso será uma maneira de repensar o negócio, considera. “A nova normalidade não é o que existia antes. Será impossível ter espaços sobrelotados e a discoteca vazia vai passar a ser a nova realidade. Temos de gerir as expectativas, a dos clientes e a nossa.”