O estudo que afirmava que o novo coronavírus já podia andar a circular nas águas residuais em Espanha em março do ano passado está a levantar dúvidas entre especialistas. Ao El País, foram vários os que questionaram a metodologia que a equipa de investigadores utilizou.

O estudo em causa, realizado pela Universidade de Barcelona, foi divulgado esta sexta-feira. A equipa de virologistas analisou amostras de água de duas estações de tratamento da cidade recolhidas entre janeiro de 2018 e maio de 2020. De todas as recolhidas antes da pandemia, apenas em uma, recolhida em março de 2019, foi detetado o SARS-CoV-2 — o que sugeria que o vírus da Covid-19 já estava em Espanha há mais de um ano.

Esta descoberta surpreendente indica que o vírus estava a circular em Barcelona muito antes da confirmação de qualquer caso de Covid-19 no mundo”, disseram os investigadores em comunicado.

Mas vários especialistas estão céticos em relação a este estudo — que está ainda em fase de pré-publicação. Pilar Domingo, virologista da Universidade de Valência, defende que “faltam dados científicos para avaliar corretamente o resultado”. “Não digo que [os investigadores] estejam incorretos, mas os valores que eles apresentam estão muito próximos do limite, muito próximos do limiar negativo. Noutro tipo de estudo, [o resultado] seria negativo “, explicou.

Damià Barceló, investigadora no ICRA, um instituto catalão que desenvolve estudos relacionados com a água, alertou que ainda não se sabe se o vírus pode ser encontrado em amostras tão antigas e questiona a metodologia que a equipa seguiu.

Não existe uma metodologia padronizada e uma análise da água residual pode dar muitos erros. Não é como testar sangue. Existem muitos protocolos de amostragem da Covid-19 nas águas residuais e cada um dá resultados diferentes”, explica.

Fernando González, professor de genética da Universidade de Valência, lembrou que “outras cidades com mais visitantes internacionais que Barcelona não detetaram o vírus nas análises que fizeram às águas residuais”.

Na mesma linha, Luca Cozzuto, coordenadora de análise de dados no Centro de Regulação Genómica de Barcelona, questiona a razão pela qual o vírus não foi encontrado em amostras recolhidas depois de março de 2019. Lembrando que “uma pessoa infetada não seria suficiente para detetar o vírus nas águas residuais”, a especialista esclarece que seria necessário “um número maior de estrangeiros de férias em Barcelona” para “deixar partículas de vírus na água, sem infetar mais ninguém”. “Ou houve um surto oculto antes de setembro“, aponta ainda.