Foi já há semana e meia, depois da goleada imposta ao Belenenses SAD no Dragão, que Alex Telles deixou um elogio à “família”. “Nesta reta final os jogos estão mais difíceis, temos de estar mais concentrados. O Belenenses SAD esteve muito forte na primeira parte, mas ajeitámos muita coisa no intervalo. Esta família merece o que está a acontecer”, disse o jogador brasileiro. Esta quarta-feira, depois da vitória do FC Porto na jornada anterior em Tondela, do empate do Benfica em Famalicão e da nova vitória dos dragões frente ao Sporting, Alex Telles conquistou a segunda Primeira Liga desde que chegou a Portugal e o terceiro título ao serviço dos dragões.

Danilo, a figura de uma época que foi de dispensado do estágio a super-herói (a crónica do FC Porto-Sporting)

O lateral brasileiro faz parte de um núcleo duro de jogadores — cada vez mais reduzido, cada vez mais crucial — que já fazia parte do plantel há dois anos, quando Sérgio Conceição conseguiu evitar o pentacampeonato do Benfica e os dragões foram campeões depois de quatro anos de hegemonia encarnada. A par de Telles, também Aboubakar, Marega, Corona, Danilo, Sérgio Oliveira, Otávio, Soares e Marcano continuam na equipa, sendo que este último esteve ao serviço da Roma na temporada passada e só regressou no início da atual. Um grupo, portanto, em que quase todos são atuais titulares e opções certas de Conceição. Uma família, como diz Telles, que se alargou a todos os outros que chegaram entretanto.

A mensagem na roda, a tosse e um terço, dedicados a Marega: como Alex Telles continua a fazer história

O jogador chegou ao Dragão em 2016, depois de ter estado um ano no Inter Milão a título de empréstimo do Galatasaray. Depressa se tornou indiscutível na esquerda da defesa dos dragões, primeiro ainda com Nuno Espírito Santo no comando da equipa e depois já com Sérgio Conceição, e há quatro épocas seguidas que faz mais de 40 jogos ao longo de todas as competições. Essa regularidade garantiu-lhe a entrada no lote de vice-capitães de equipa, depois de Pepe e na ajuda a Danilo, e Alex Telles é agora um elemento instrumental no grupo que recuperou na desilusão da temporada passada e conseguiu reverter uma desvantagem que chegou a ser de sete pontos para o Benfica.

Mas o papel do lateral não é apenas empírico, não é apenas motivacional e não é apenas defensivo. Com 12 golos esta temporada em todas as competições e 10 apenas na Primeira Liga, Alex Telles é o melhor marcador dos dragões no Campeonato e está lado a lado com os defesas mais goleadores da história do FC Porto. Nesse capítulo muito particular, o antigo central Geraldão é o líder incontestado desde que entre 1987 e 1991 marcou 20 golos — logo a seguir está Telles, com 18 desde que chegou ao Dragão. Sendo que os números do brasileiro têm ainda uma alínea importante. Dos 10 que marcou esta época, sete foram de grande penalidade, já que o lateral de 27 anos é o eleito indiscutível de Sérgio Conceição para cobrar penáltis.

Há 15 anos que um defesa não marcava tantos golos no FC Porto: o nome dele é Telles, Alex Telles

Associado a uma saída desde o verão passado, resistiu a essa janela de mercado e à do mês de janeiro, sendo agora o jogador do FC Porto mais cobiçado pelos gigantes do futebol europeu. O Chelsea é um dos crónicos destinos adiados, o PSG parecia ter tudo encaminhado até a pandemia chegar e tornar os 25 milhões de euros pedidos pelos dragões um valor demasiado exigente e, até ver, Alex Telles vai continuando de azul e branco. O lateral termina contrato no final da próxima temporada, o que significa que em cenário de ficar no Dragão no final do verão abrem-se duas hipóteses: ou sai a custo zero no próximo ano, assim como Herrera e Brahimi saíram no ano passado, ou renova a ligação e prolonga a estadia em Portugal.

Mas especulações à parte, uma coisa é certa: a presença de Alex Telles em campo traduz-se, normalmente, em vitórias e resultados positivos. Em contas feitas até à 28.ª jornada da Liga, e num total de 24 jogos em que o lateral esteve presente, o FC Porto venceu em 19 ocasiões, num aproveitamento de 79%. A importância e proeminência de Telles torna-se ainda mais evidente se olharmos para os jogos da retoma, desde o início de junho. Desde que o Campeonato recomeçou, a equipa de Sérgio Conceição só perdeu pontos em duas jornadas, com a derrota com o Famalicão e o empate sem golos com o Desp. Aves — precisamente os dois jogos que o brasileiro falhou, ambos por castigo.

FC Porto v Belenenses SAD - Liga NOS

O lateral esquerdo mostrou uma grande cumplicidade com Fábio Vieira no jogo contra o Belenenses SAD, principalmente quando abdicou da marcação de um livre a favor do jovem médio

Por ser, novamente, um dos elementos do plantel do FC Porto que está há mais tempo no Dragão, o lateral esquerdo funciona nesta altura como uma ponte entre a geração mais jovem que tem merecido a aposta de Sérgio Conceição e a franja mais experiente da equipa. Algo que ficou patente também na receção ao Belenenses SAD, quando Telles ofereceu a Fábio Vieira a marcação do livre direto que acabou por originar o primeiro golo do médio de 20 anos ao serviço da equipa principal dos dragões. O brasileiro aproximou-se do jovem jogador, disse-lhe algo que deixou ambos a sorrir e deu-lhe um calduço paternal. No fim, era o segundo mais feliz pelo golo — logo depois do próprio Fábio.

“É o que eu falo, temos de colocar a equipa em primeiro lugar, estou aqui e sou mais um para ajudar. Fiz o meu golo, o Fábio Vieira — não só ele como outros miúdos — está trabalhando de forma incrível. Eu falei para estar confiante para bater, disse: ‘Podes bater’. Fiquei feliz, todos trabalharam bem, a equipa está sempre em primeiro lugar e o importante foi a vitória”, explicou no final da partida, antes de Sérgio Conceição também elogiar a decisão do lateral esquerdo de abdicar do livre a favor do jovem médio.

Esta quarta-feira, contra o Sporting, Alex Telles foi substituído já na segunda parte e não conseguiu conter as lágrimas. Pode ter sido a dor que sentiu na perna, pode ter sido a emoção pela conquista de mais um título, pode ter sido a noção de que está a realizar os últimos minutos do FC Porto: independentemente da opção correta, a certeza é que as lágrimas do lateral brasileiro mostram que o clube tem em Alex Telles muito mais do que um simples jogador.