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Sucessor espiritual do McLaren F1 da década de 1990, também o T.50 tem por detrás Gordon Murray, um dos projectistas mais reputados entre os que já passaram pela F1. O designer sul-africano prepara-se para apresentar no próximo mês o T.50, um superdesportivo que leva ao extremo a máxima de que o peso é inimigo da eficácia e que, por isso mesmo, foi despojado do supérfluo para se concentrar no essencial: acusar sobre a balança apenas 980 kg. Uma pluma, portanto, considerando que ficar na fasquia dos 1400 kg já é obra para Ferrari e congéneres.

No “superdesportivo mais leve de sempre” todos os gramas dispensáveis são banidos, pelo que o motor também tem de dar o seu contributo. E, tal como acontecia no F1, Murray volta a não abrir mão de um V12, que podemos ver agora em “acção”.

“O motor é responsável por mais da metade de qualquer experiência de condução realmente excelente. Por isso, coloquei desde o início a fasquia lá em cima, com o objectivo de criar o melhor V12 naturalmente aspirado do mundo”, explicou o projectista que desenhou o inovador Brabham BT46B de 1978 (o “carro ventoinha”), e também os McLaren entre 1987 e 1991, na época áurea de Senna na F1. Segundo Murray, “para ser impressionante, um motor precisa de ter o carácter certo: ser altamente responsivo, ter um som incrível, uma entrega de torque envolvente, capaz de atingir regimes muito elevados e ser naturalmente aspirado. Por todas essas razões, o motor do T.50 não poderia ser outra coisa que não um V12”.

Génio projectista fez um desportivo tipo “top model”

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Se há quase 30 anos Gordon Murray recorreu ao amigo Paul Rosche (BMW) para lhe fazer o V12 do McLaren F1, agora a obra foi entregue à Cosworth, fabricante inglês que encara os motores como uma espécie de obra de arte da engenharia. E tanto assim é que o designer acrescentou ao caderno de encargos um requisito estético: “queria que o motor parecesse uma interpretação moderna de um V12 dos anos 60”, algo equiparável a “uma fabulosa instalação escultural de arte moderna”.

O resultado é insano. Não lhe basta o facto de ser mais de 60 kg mais leve que o McLaren F1, o V12 atmosférico de 3,9 litros a 65º do T.50 pesa somente 178 kg, pois foi “limpo” de tudo o que são coberturas no exterior, para se dar a ver na essência, mal se abre o capot. Murray descreve-o como “o antídoto para o superdesportivo moderno”, por escapar à tirania do carbono e dos plásticos que escondem a alma mecânica nos supercarros actuais.

Mas, mais impressionante do que o que se vê, é o cartão de apresentação deste V12 que vai equipar o T.50, deitando mão a uma hibridização leve (é um mild hybrid de 48 V) em que o gerador de arranque também contribui para a festa da velocidade, fornecendo 37kW (50 cv). A potência máxima, de 664 cv (488 kW), é alcançada às 11.500 rpm, ou seja, quando ainda faltam 600 rotações para atingir o redline. E se o impressionante binário máximo de 12.100 rpm já é notável, a agilidade com que o motor sobe de regime é qualquer coisa de extraordinário, na medida em que lhe bastam 0,3 segundos para ir do ralenti à rotação máxima – uma façanha que o coloca particamente ao nível dos motores eléctricos. O pico de torque (467 Nm) chega às 9000 rpm, mas 71% (331 Nm) está disponível logo às 2500 rpm. E quando muitos vaticinam o fim dos V12 e das caixas manuais, Murray dá precisamente o sinal contrário. Nada de automatismos para a transmissão do T.50, que vai ter acoplada ao V12 uma caixa manual de seis relações em “H” da Xtrac, a pesar 80,5 kg (menos 10 kg do que no McLaren F1).

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Recorde-se que a Cosworth também foi o fornecedor a que a Aston Martin recorreu para conceber o V12 atmosférico de 6,5 litros que anima o Valkyrie. Também ele uma referência em leveza (206 kg), atinge 11.000 rpm e debita 1014 cv. São “só” 156 cv/l, relação que o V12 do T.50 trata de “puxar” para cima, conquistando um brutal rácio de 170 cv/l. É obra, ainda mais tendo presente que a Gordon Murray Automotive anunciou que só fará uma centena de unidades e não centena e meia como a Aston Martin. Com a vantagem de que, embora mais exclusivo que o Valkyrie, cada exemplar do T.50 arranca nos 2,2 milhões de euros, isto é, cerca de 300 mil euros mais barato que o Aston Martin. Será música para os ouvidos dos compradores. Literalmente, isto porque o V12 de Murray aspira ar das entradas de ar em fibra de carbono, de diferentes espessuras, que se encontram acima da cabeça do condutor, o que potencia uma experiência sonora única no habitáculo, qual sinfonia orquestral onde os 12 cilindros têm pauta própria.