As crianças têm um papel mais importante na propagação comunitária da Covid-19 do que se julgava, com cargas virais superiores às dos adultos doentes, mas permanecendo assintomáticas, indica um estudo esta quinta-feira divulgado.

O estudo, da responsabilidade de investigadores do Hospital Pediátrico e do Hospital Geral de Massachusetts, nos Estados Unidos da América, é o mais abrangente com crianças com Covid-19 feito até agora, tendo envolvido 192 crianças e jovens dos zero aos 22 anos. Dessas, 49 testaram positivo à Covid-19 e mais 18 tiveram uma doença relacionada com o novo coronavírus.

Os resultados da investigação demonstraram que as crianças infetadas têm um nível significativamente mais elevado de vírus nas vias respiratórias do que os adultos hospitalizados nas Unidades de Cuidados Intensivos (UCI) para tratamento de Covid-19. “Fiquei surpreendido com os elevados níveis de vírus que encontramos em crianças de todas as idades, especialmente nos dois primeiros dias de infeção”, disse Lael Yonker, autor principal do estudo.

“Não estava à espera de que a carga viral fosse tão elevada. Pensa-se num hospital, e em todas as precauções tomadas para tratar adultos gravemente doentes, mas as cargas virais destes doentes hospitalizados são significativamente inferiores às de uma ‘criança saudável’ que anda por aí com uma elevada carga viral SARS-CoV-2”, o coronavírus que provoca a Covid-19, acrescentou.

Jorge Amil Dias, presidente do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos, pelo contrário, disse à Rádio Observador que já se sabia que as crianças podiam apresentar cargas virais tão altas ou maiores que os adultos.

Crianças e a covid-19. Estudo traz “muito pouco” de novo

O investigador lembrou que a transmissibilidade ou risco de contágio é maior quando há uma elevada carga viral, e que mesmo quando as crianças apresentam sintomas típicos de Covid-19, como febre, tosse ou corrimento nasal, nem sempre é fácil um diagnóstico preciso porque são sintomas comuns das doenças infantis. A investigação examinou também a resposta à doença de crianças infetadas, tendo-se concluído que as crianças não estão imunes à infeção.

“Durante esta pandemia da Covid-19 examinámos principalmente pessoas sintomáticas, pelo que chegámos à conclusão errada de que a grande maioria das pessoas infetadas são adultos. No entanto, os nossos resultados mostram que as crianças não estão protegidas contra este vírus. Não devemos descurar as crianças como potenciais propagadores do vírus”, advertiu Alessio Fasano, outro dos autores do estudo.

Os investigadores notam que embora as crianças com Covid-19 não sejam tão suscetíveis de ficar gravemente doentes como os adultos, como portadores assintomáticos, ou portadores com poucos sintomas, ao frequentarem a escola podem espalhar a infeção e levar o vírus para as suas casas. E é especialmente preocupante em famílias com idosos em casa.

O estudo analisou a questão de as crianças terem um menor número de recetores imunitários, o que as tornaria mais suscetíveis à infeção ou gravemente doentes e defendem que as crianças podem transportar uma carga viral elevada, o que as torna mais contagiosas, independentemente da sua suscetibilidade ao desenvolvimento da Covid-19.

Presidente do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos ressalva que maior carga viral não é sinónimo de contágio

Jorge Amil Dias, presidente do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos, explicou à Rádio Observador que o facto de as crianças terem uma carga viral superior não significa que sejam mais contagiosas. Amil Dias lembrou ainda que nenhum estudo é definitivo, e que o do do Hospital Pediátrico e do Hospital Geral de Massachusetts “é apenas mais uma peça no puzzle”.

Artigo atualizado às 9h48 com as declarações de Jorge Amil Dias à Rádio Observador