Na Rússia, as portas do Parlamento foram-lhe fechadas, os meios de comunicação social não lhe podem dar voz e sempre que a faz soar nas ruas de Moscovo ou São Petersburgo é detido pela polícia durante semanas. Mas tem nome e uma missão: Alexei Navalny é a principal voz da oposição a Vladimir Putin e o homem que mais nervosismo causa no Kremlin.

O ativista voltou aos jornais internacionais esta quinta-feira por estar em coma, com um quadro clínico grave, após ter-se sentido mal numa viagem de avião. Desconfia-se de envenenamento, através de um chá que terá bebido esta manhã, mas os contornos do que atirou Alexei Navalny para os cuidados intensivos ainda estão por apurar. Certo é que, mesmo sem a televisão russa, Alexei Navalny fez-se político. Como? Sendo youtuber. Esta é a sua vida.

Os dois “ataques Zelyonka” e a suposta “alergia”

Um vídeo captado no interior do avião onde Alexei Navalny se sentiu mal, partilhado na página de Instagram de um dos tripulantes, revela como o principal opositor de Vladimir Putin gritava de agonia enquanto era socorrido por uma equipa médica. Pode assistir ao vídeo do momento aqui.

Mas esta não é a primeira vez que Alexei Navalny é atacado pelas forças opositoras à luta contra a corrupção e apoiantes de Vladimir Putin. Há três anos, a 27 de abril, à saída da Fundação Anti-Corrupção, o ativista foi vítima de um ataque Zelyonka — uma forma violenta de protesto que se tornou famosa na década passada na Rússia e Ucrânia e em que os apoiantes do governo atacavam os opositores.

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Nesse dia, o rosto de Alexei Navalny foi pulverizado com uma mistura de desinfetante e verde brilhante, um corante tóxico se for ingerido e normalmente usado em laboratório para o estudo das bactérias ou na coloração de tecidos. A substância provocou-lhe uma queimadura química no olho e demorou uma semana a ser completamente eliminada.

Alexei Navalny no ataque de abril de 2017. Créditos: Evgeny Feldman/Wikimedia Commons

Já antes tinha sofrido um ataque desta natureza. A 19 de março desse ano, Alexei Navalny também tinha sido pulverizado com esta mistura de corante e antisséptico à saída da sede de campanha em Barnaul, na Sibéria. Mas, em última instância, a cor “verde brilhante” tornou-se um símbolo dos movimentos anti-regime.

Mais tarde, em julho de 2019. Alexei Navalny — que estava preso por ter participado numa onda de grandes manifestações contra a decisão governamental de impedir uma série de políticos independentes de se candidatarem às eleições — foi levado para o hospital com ferimentos graves na pele e nos olhos.

A versão oficial dizia que a origem dos danos seria uma alergia, mas a oftamologista que tratou o ativista nos ataques de 2017 veio a público com outra versão: os ferimentos de Alexei Navalny pareciam ter origem no contacto com uma substância química. Mesmo assim, o político recebeu alta e voltou para a cadeia no dia seguinte. À porta da prisão, vários jornalistas e apoiantes de Alexei Navalny foram detidos.

O youtuber que comprou ações para desmascarar as próprias empresas

Nascido em 1976 numa zona rural próxima a Moscovo, filho de pai ucraniano e mãe russa, Alexei Navalny é advogado de formação, mas entrou no universo político através do blogue que dirigia na plataforma LiveJournal. Mais tarde, o blogue transformou-se num canal no YouTube com perto de quatro milhões de subscritores e numa conta Twitter com dois milhões de seguidores.

Esses são os palcos que Alexei Navalny utiliza para dar visibilidade às ações de campanha que protagoniza e para organizar manifestações contra o governo de Putin. Mas no coração da persona política de Alexei Navalny está um ativista anti-corrupção que adotou os poderes das redes sociais para desmascarar as fraudes do sistema — uma estratégia transformada num documentário, “Don’t Call Him Dimon”, sobre o ex-primeiro ministro Dmitry Medvedev.

O documentário estreou em 2017, mas nove anos antes, em 2008, já Alexei Navalny tinha engendrado outro plano: comprou 300 mil rublos (cerca de 3,4 mil euros) em ações de cinco empresas de petróleo e gás — Rosneft, Gazprom, Gazprom Neft, Lukoil e Surgutneftegaz — e assumiu a missão de torná-las financeiramente transparentes.

O amigo que morreu a travar a mesma luta

Alexei Navalny era próximo de Boris Nemtsov, um dos mais importantes políticos na reestruturação económica na era pós-União Soviética e ex-vice-primeiro-ministro da Rússia. Depois de ter participado no governo russo, Nemtsov tornou-se um crítico proeminente de Vladimir Putin.

A 27 de fevereiro de 2015, dois dias antes de uma manifestação pacífica contra o envolvimento da Rússia na guerra da Ucrânia (e três semanas depois de ter partilhado com os jornalistas que a própria mãe temia que Putin o viesse a matar) Boris Nemtsov foi baleado e morreu perto do Kremlin.

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Alexei Navalny numa homenagem a Boris Nemtsov. Créditos: Getty Images

Alexei Navalny sabe que pode vir a ter o mesmo destino. Numa entrevista ao Politico em 2016, o ativista assumiu: “Como qualquer pessoa envolvida na política de oposição na Rússia, sei que o governo de Putin não tem limites e não vai parar por nada. Eu sei disso, mas não estou com medo”. Medo deve ter o líder russo, sugeriu quatro anos antes o The Wall Street Journal. Numa entrevista, o jornal norte-americano descreveu Alexei Navalny como “o homem que Putin mais teme”.

Mesmo depois dos ataques que sofreu, das mortes a que assistiu e da detenção do próprio irmão, na prisão há quatro anos, Alexei Navalny não desiste. O partido a que pertence, o Partido do Progresso, está impedido de participar nas eleições. Tanto ele como o irmão não se podem candidatar a cargos públicos até 2028 por terem sido acusados de peculato e desvio de fundos — acusações vindas do Kremlin, mas cuja sustentação está por provar.

Ainda assim, Alexei Navalny continua a ser o rosto da oposição a Vladimir Putin. E assim continuará a ser enquanto puder, prometeu: “Faço política há muito tempo, sou frequentemente detido. Faz parte da vida. Faço o trabalho de que gosto mais, as pessoas apoiam-me. O que é que pode fazer um homem mais feliz?”.