Depois de uma recuperação sem precedentes, Christa Pike, a norte-americana que conseguiu contra todas as expectativas sobreviver a uma execução por via de uma injeção letal, já veio fazer as primeiras declarações públicas, revelando que tem estado com dores desde que acordou.

“Não houve um momento desde aquela noite em que não tenha estado em sofrimento. O meu corpo dói. Os meus braços doem. As minhas mãos doem. A minha garganta dói. Ainda tenho dificuldades em falar”, disse num comunicado escrito, que foi ditado aos seus advogados e citado pela CNN.

Apesar de ter protagonizado uma estranha — e inédita — recuperação, depois de há cerca de um mês ter recebido a injeção letal, a mulher diz que “curar não é o mesmo que estar bem”: “A dor não é só física. Há dor na minha mente e na minha alma“.

Christa Pike, que tem 50 anos, foi hospitalizada depois de receber duas doses da substância letal pentobarbital, no dia 30 de setembro. Foi colocada num ventilador, sem expectativas de que sobrevivesse. Mas acabou por acordar e voltar a falar. No comunicado, diz que estava preparada para ser executada e morrer, mas em vez disso acordou “sozinha num hospital, confusa e em sofrimento”.

Como recorda a CNN, Pike regressou entretanto à prisão, depois de dez dias no hospital, e os seus advogados vão tentar que não possa voltar a ser sujeita a uma execução. No comunicado, Pike fala do que tem sido a sua experiência desde a tentativa de execução falhada: “Desde essa noite tenho estado praticamente isolada na ala médica da prisão, longe de outras pessoas e das conexões humanas que significam tanto para mim. O isolamento traz o seu tipo específico de dor. Passei 28 anos em confinamento solitário e muito do que estou a viver hoje é uma repetição disso”.

O governador do Tennessee, Bill Lee, pediu uma investigação sobre o que falhou na execução de Christa Pike. Também a família de Colleen Summer, a mulher por cujo homicídio Pike tinha sido condenada, nos anos 1990, veio reclamar um “grande pedido de desculpas” do estado, argumentando que o falhanço está a desviar a atenção de onde interessa — a vítima.

Dias depois de ter acordado, os advogados de Christa Pike já a classificavam como “uma sobrevivente“, que fez uma “recuperação medicamente sem precentes” e “contra todas as expectativas está consciente, a falar e continua a receber cuidados médicos críticos”.

Christa Pike foi condenada à pena de morte por injeção letal, depois de mais de 30 anos passados no corredor da morte no Tennessee, estado onde foi a única mulher a ser condenada à pena de morte em mais de 200 anos. A mulher norte-americana foi condenada em 1996 pelo homicídio, no ano anterior, de Colleen Summer, uma jovem de 19 anos. Pike e o namorado, Tadaryl Shipp, de 17 anos, torturaram e mataram Summer quando frequentavam juntos um programa de formação profissional. Por ser menor de idade, Shipp foi condenado a uma pena de prisão perpétua.

A defesa voltou a pedir ao governador do Tennessee para rever a pena de Pike para uma pena de prisão perpétua. O pedido tem vindo a ser repetido ao longo dos anos, tendo por base o argumento de que os tribunais não consideraram os abusos sexuais de que Pike foi vítima durante a infância e que poderiam servir como atenuantes.