Os anticorpos neutralizantes contra o SARS-CoV-2 podem ser produzidos de forma regular pelo organismo até cinco a sete meses depois do início dos sintomas, concluiu uma equipa da Faculdade de Medicina na Universidade do Arizona. Os resultados foram publicados na revista científica Immunity, do grupo Cell, e estão de acordo com os resultados que a equipa de Marc Veldhoen, investigador no Instituto de Medicina Molecular (IMM), em Lisboa, conseguiu alcançar.

Em setembro, a equipa do IMM divulgou uma pré-publicação (não revista por cientistas independentes) na plataforma medRxiv onde confirmava que tinha encontrado anticorpos neutralizantes (aqueles que têm capacidade de destruir o vírus) ao fim de cinco meses em grande parte das pessoas que tinham testado positivo para o SARS-CoV-2. Marc Veldhoen confirma agora, ao Observador, que têm um artigo científico pronto e já aceite para publicação (com revisão por cientistas independentes) que mostra que os anticorpos foram detetados ao fim de seis meses.

Estes cinco, seis ou sete meses reportados não significam que os anticorpos não se possam manter mais tempo, apenas que foi o tempo que os investigadores de uma e outra equipa tiveram para avaliá-los. Mas também não significa que estas pessoas estejam completamente imunes ao vírus, ou seja, que não voltem a adoecer. “Estão ‘imunes’ no sentido em que o sistema imunitário vai responder mais rápido e é provável que a pessoa não fique tão doente”, esclarece Marc Veldhoen.

Por outro lado, diz o investigador, não ter anticorpos detetáveis “não significa que a proteção [contra o vírus] esteja ausente, porque as células T também podem desempenhar um papel importante e as células B que produzem anticorpos podem ser reativadas”.

“Está em linha com o que se sabia para o SARS e MERS, onde também se podiam detetar anticorpos durante muito tempo”, diz Marc Veldhoen.

Na próxima etapa do projeto do IMM será uma análise a nível nacional, para o qual foram recrutadas 12 mil pessoas para realizarem testes serológicos. O interesse da equipa seria poder seguir, ao longo de 12 meses, as cujos testes derem positivo, ou seja, as que têm anticorpos porque já tiveram contacto com o vírus. Esta fase do projeto ainda carece de aprovação.

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Sobre o artigo da equipa da Universidade do Arizona, Marc Veldhoen diz que os resultados estão em linha com artigos anteriores também noutro aspeto: “Não há relação entre a produção de anticorpos e a idade, mas sim com a gravidade da doença”. Ou seja, quanto mais grave a doença, mais anticorpos são detetados numa fase inicial da resposta imunitária, diz o investigador. Mas não é claro como é que isso vai afetar a quantidade de anticorpos numa fase mais tardia. São precisos mais dados.

O grande interesse na imunidade desencadeada pelo contacto com o vírus é muito mais do que a possibilidade da imunidade de grupo por deixar o vírus circular livremente na comunidade, que vários cientistas classificam de perigosa, mas a capacidade de resposta às vacinas. Não ter uma proteção total, mas apenas uma redução na gravidade da doença, pode muito bem ser o melhor dos resultados nas primeiras vacinas, diz Marc Veldhoen. “Podemos ter de esperar pela segunda ou terceira versão para alcançar esta proteção na maior parte da população — por um tempo ainda desconhecido — e pode ser que tenhamos de tomar duas ou três doses para alcançar estes resultados.” Por enquanto, ainda é uma incógnita.

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O que os resultados da equipa da Universidade do Arizona deixaram entender é que analisar anticorpos contra partes da proteína spike — a proteína da coroa responsável por fazer o vírus entrar dentro da célula — parece ser mais consistente do que analisar anticorpos contra uma proteína do invólucro do vírus (nucleocápside), que desapareceram muito mais depressa.

Atualizado às 14h20: o projeto de seguimento ao longo de 12 meses ainda não foi aprovado.