Doentes cujo tratamento do cancro é atrasado um mês podem ter um aumento do risco de morte entre 6 a 13%, revela um estudo publicado esta quarta-feira na revista científica The BMJ. Que este aumento do risco exista não é surpresa, mas a análise de vários estudos permitiu à equipa liderada pela Queen’s University (Canadá) perceber a dimensão desse impacto que acontece para vários tipos de tratamento e de cancros e que será tanto maior quanto maior for o atraso.

“Um atraso de quatro semanas no tratamento está associado a um aumento na mortalidade em todas as formas comuns de tratamento do cancros, com atrasos mais longos a serem mais prejudiciais”, disse Timothy Hanna, primeiro autor do estudo, em comunicado de imprensa. Mas mais do que avaliar o risco individual, o que a equipa de investigadores pretende é que as estimativas apresentadas sejam usadas para desenhar melhores políticas públicas em saúde.

Os resultados desta análise tornam-se ainda mais relevantes no contexto da pandemia de Covid-19 — ou de outras que obriguem à suspensão de várias atividades em saúde. Se os diagnósticos tardios e os longos tempos de espera já eram um problema, agora tornaram-se ainda piores, com os serviços de saúde a terem muita dificuldade em retomarem e recuperarem a atividade suspensa ou cancelada.

“Um atraso de 12 semanas para a cirurgia de todos os doentes que tenham cancro da mama há um ano (por exemplo, durante o confinamento e reabertura por causa da Covid-19) levaria a 1.400 mortes em excesso no Reino Unido, 6.100 nos Estados Unidos, 700 no Canadá e 500 na Austrália, presumindo que a cirurgia é o primeiro tratamento em 83% dos casos e que a mortalidade é de 12% quando não há atrasos”, exemplificam os autores.

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A suspensão de serviços médicos e de atividades programadas para concentrar recursos no combate à pandemia está a “gerar uma montanha de doenças [nomeadamente, causadas por cancros hereditários] que seriam curáveis ou evitáveis”, alertou, esta quarta-feira, a Associação de Apoio a Portadores de Alterações dos Genes relacionadas com o Cancro Hereditário.

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Os autores destacam a importância dos resultados para ajudar a definir determinadas políticas de saúde, não só para reduzir o risco de morte dos doentes de forma geral, mas para que as decisões em tempos de pandemia sejam bem fundamentadas. Para isso usam um exemplo no Reino Unido que, no início da pandemia, considerou que era seguro adiar 10 a 12 semanas alguns tipos de tratamentos, incluindo a cirurgia ao cancro coloretal. Os investigadores, no entanto, verificaram que “aumentar o tempo de espera para a cirurgia de seis para 12 semanas pode aumentar o risco de morte em 9%”.

A equipa canadiana e britânica defende que “podem alcançar-se ganhos na sobrevivência dando prioridade aos esforços para minimizar o tempo desde o diagnóstico do cancro até ao início dos tratamentos”, ou seja, reduzir de semanas para dias. E usam como exemplo a cirurgia para o cancro da mama: um atraso de duas semanas é suficiente para aumentar o risco de morte em 4%.

Sete cancros, três tratamentos e 1,2 milhões de doentes estudados

O plano da equipa liderada por Timothy Hanna, investigador no Instituto de Investigação em Cancro da Queen’s University, era avaliar o impacto do atraso no início dos tratamentos (ou terapia adjuvante), fosse este desde o diagnóstico até ao primeiro tratamento ou entre o último tratamento e o seguinte. Para isso consideraram os três principais tipos de tratamento (cirurgia, radioterapia e quimioterapia) e sete tipos de cancro, que representam 44% da incidência a nível mundial: cancro da bexiga, da mama, do cólon, cancro retal, do pulmão, cancro cervical e cancro da cabeça e pescoço.

Depois, analisaram os artigos científicos que já tinham sido publicados sobre o assunto, selecionaram os melhores e o resultado foi 34 estudos selecionados desde o ano 2000, que incluíam 17 indicações (tipo de tratamento por cancro) e mais de 1,2 milhões de doentes. Os investigadores verificaram que havia uma associação significativa entre o atraso nos tratamentos e o aumento do risco de morte em 13 das 17 indicações analisadas.

Isto também quer dizer que para alguns cancros o atraso num determinado tipo de tratamento pode não aumentar o risco de morte ou os dados existentes não permitiram aos investigadores encontrar essa relação. Outra hipótese levantada pelos autores é que alguns tipos de cancro, nomeadamente em populações mais vulneráveis, só são detetados numa fase avançada o que obriga a um intervenção de emergência — logo, sem atrasos.

No caso da cirurgia, há um aumento de 6 a 8% no risco de morte por cada atraso de quatro semanas. O impacto é ainda mais acentuado para a radioterapia e indicações sistémicas (como quimioterapia), com um aumento de 9% no risco de morte para radioterapia no cancro da cabeça e pescoço e 13% no tratamento sistémico adjuvante (depois do tratamento principal) para cancro colorretal, escrevem os autores. No caso do cancro da mama, o atraso de oito ou 12 semanas na cirurgia aumenta o risco de morte em 17 e 26%, respetivamente.

Os investigadores também não incluíram prejuízos adicionais como perda de algumas capacidades físicas e da qualidade de vida ou perda de produtividade devido à doença, entre outros fatores, o que pode significar que “o impacto do atraso nos tratamentos é, provavelmente, muito maior para os doentes e para a sociedade do que o que foi refletido nos resultados”.

Os dados têm, no entanto, limitações, como reconhecem os autores, a começar pelo facto de os dados serem observacionais — ou seja, olham para trás, não são ensaios clínicos —, o que não permite tirar conclusões sobre causalidade. Quer isto dizer que não se pode afirmar com certeza que os atrasos no tratamento agravam o risco de morte, mas que se encontrou uma relação entre os dois eventos.