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“O dia de hoje foi um bocadinho desastroso, para ser honesto. A pista está uma merda e uma merda com um M maiúsculo. Os pneus não estão a funcionar, é como uma pista de gelo ali dentro, por isso nem sequer dá para tirar o gozo que normalmente se tira de Istambul. E não vejo como é que isso pode mudar”. Ainda era sexta-feira e Lewis Hamilton já estava desiludido, desgostoso e pouco otimista com o Grande Prémio da Turquia, principalmente devido à fraca aderência do solo — que, aliada à chuva que caiu nos últimos dias na cidade, torna a pista muito escorregadia. O dia de sábado só trouxe mais críticas.

No fim de uma qualificação surpreendente, Lance Stroll foi o mais rápido e conquistou a primeira pole-position da carreira — seguido por Max Verstappen, que deixou escapar o primeiro lugar depois de ter sido o mais rápido desde que a Fórmula 1 aterrou em Istambul, e pelo colega de equipa Sergio Pérez. A Racing Point segurava dois degraus do pódio da grelha de partida, a Red Bull alcançava o segundo e o quarto lugares, os Renault saíam de quinto e sétimo. Lewis Hamilton, com 97 poles na carreira e com o pior resultado dos últimos dois anos numa qualificação, era apenas sexto. Valtteri Bottas, o outro Mercedes, arrancava de nono.

“Foi definitivamente das qualificações menos agradáveis, se não a mais desagradável, que já tive. Esta pista tem um traçado tão bom mas a aderência é tão pobre que não se consegue andar como gostaríamos. Mas, por outro lado, foi um desafio e os desafios são sempre bons. A aderência desta pista é a pior que já experimentei em qualquer anos de corridas. Tendo em conta a força descendente que temos hoje em dia nestes carros, a pista molhada de hoje tornou tudo ainda mais difícil. Mas estou bastante contente com o trabalho que fiz”, disse Hamilton no final da qualificação, mostrando-se até satisfeito com um sexto lugar que parecia acreditar ser o melhor dos males.

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E até aqui, até na forma como encarou este Grande Prémio da Turquia e como não escondeu o desagrado com uma qualificação menos conseguida, Lewis Hamilton mostrou que é um dos maiores nomes do desporto neste início de século XXI. É que este domingo, em Istambul, o piloto inglês tinha a possibilidade de se sagrar campeão do mundo pelo quarto ano consecutivo e pela sétima vez na carreira, igualando um recorde impressionante de títulos que era de Michael Schumacher desde 2004. Para isso, só precisava basicamente de garantir que Bottas não lhe roubava oito pontos — ou seja, e numa explicação simples, só precisava de garantir que ficava à frente de Bottas e, mesmo se não ficasse, tinha várias conjugações que o tornavam campeão já este domingo.

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Com três corridas ainda por disputar em 2020 (duas no Bahrain, uma em Abu Dhabi), o piloto da Mercedes podia então entrar já para a história em Istambul — ainda que a qualificação e o início do fim de semana não lhe tivessem propriamente facilitado a tarefa. Mas se Hamilton não ficou contente com o lugar na grelha, pior ficou Verstappen, que foi então o mais rápido durante praticamente toda a qualificação e acabou por perder a pole-position para Stroll. O holandês da Red Bull falou e disse que estava “desiludido”: mas a grande imagem da tristeza do piloto apareceu depois, através de uma fotografia onde Verstappen aparecia sentado no chão das garagens, consolado por um elemento da equipa.

No arranque, com a chuva a cair em Istambul, Pierre Gasly foi penalizado e saiu do último lugar da grelha enquanto que os Williams partiram do pit lane. Numa primeira curva algo caótica, Verstappen ficou fechado e não conseguiu atacar a liderança, enquanto que Bottas e Ocon chocaram e originaram a primeira bandeira amarela da corrida — o piloto da Mercedes, que tinha de ficar à frente de Hamilton para adiar a luta pelo título por mais um fim de semana, caiu para a cauda do pelotão e entrou aí o sétimo Mundial da carreira do inglês. À frente, com Stroll segurou o primeiro lugar e eram os Racing Point a impor o ritmo da corrida.

A partir da décima volta, a maioria dos pilotos parou para trocar os pneus de chuva por intermédios, à medida que deixou de chover e a pista começou a secar. No sexto lugar, Hamilton começou a escalada pela classificação com uma disputa com Vettel que lembrou outros tempos; Verstappen, apesar de um erro a alta velocidade, era o Red Bull com mais andamento e começava a intrometer-se novamente na luta pelo pódio. Lewis Hamilton, de forma natural, aproveitou a quebra de rendimento dos Racing Point para subir à liderança do Grande Prémio.

Mais atrás, Carlos Sainz estava empenhado numa recuperação assinalável e deixou para trás os dois Red Bull — Verstappen parou e perdeu o andamento dos homens da frente. Os Ferrari confirmaram na corrida as boas indicações que tinham deixado nos treinos e na qualificação e Vettel conseguiu assegurar o segundo lugar na última volta, com o pódio de Sergio Pérez a ser a grande silver lining da Racing Point depois do trambolhão de Stroll na classificação. Leclerc acabou em quarto e Bottas, o único que podia evitar que o colega de equipa fosse campeão, cruzou a meta em 14.º.

16 anos depois de Michael Schumacher, Lewis Hamilton conquistou o sétimo Mundial de Fórmula 1 da carreira e igualou um recorde que todos pensámos ir durar e resistir durante décadas. O piloto da Mercedes, com 35 anos — curiosamente, a mesma idade que Schumacher tinha quando ganhou o sétimo título –, alcançou o quarto Mundial consecutivo e juntou 2020 a 2008, 2014, 2015, 2017, 2018 e 2019. Chegou a hora H.