“Quem vê caras não vê doença mental”, é um projeto da Janssen, companhia farmacêutica do grupo Johnson & Johnson, em parceria com o Observador, e que quer combater estigmas e mitos da doença mental e relançar um novo olhar para esta área, lembrando a necessidade desta ser uma prioridade para o país.

Para isso, desafiámos várias personalidades a dar voz e cara à história de quatro figuras bem conhecidas de todos e que sofreram de doença mental: Chester Bennington, vocalista dos Linkin Park, Robin Williams, ator, John Nash, matemático e Nobel da Economia e Vincent Van Gogh, pintor.

Falemos, neste momento, sobre Robin Williams.

“Oh Captain, my Captain!”. A luta de Robin Williams

O mundo ficou mais pobre na segunda-feira, 11 de agosto de 2014, quando morreu Robin Williams, ator e um dos maiores comediantes da sua geração. Ao longo da sua célebre carreira, fez-nos rir, sonhar e pensar a vida através das personagens que interpretou em filmes como “Clube dos Poetas Mortos”, o “Bom Rebelde” ou o “Rei Pescador”. O ator norte-americano nunca escondeu as dificuldades que tinha em lidar com os seus desafios internos, tais como a dependência e abuso de substâncias, nomeadamente de álcool e cocaína, várias crises depressivas e outros problemas associados, como o diagnóstico de Parkinson, e da doença cerebral degenerativa Corpos de Lewy.. Várias notícias dão conta de que, no momento do seu suicídio, Robin Williams estaria a lutar contra uma grave depressão.

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Segundo a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, a depressão afeta ao longo da vida 20% da população portuguesa e é considerada a principal causa de incapacidade e a segunda causa de perda de anos de vida saudáveis. Sabia que uma em cada quatro pessoas em todo o mundo sofre, sofreu ou vai sofrer de depressão?

O ator português João Reis, convidado para este episódio, explica que “o mundo das artes, nomeadamente em Hollywood, está sujeito a uma altíssima pressão e, portanto, quando as pessoas querem corresponder a determinadas expectativas e não conseguem fazê-lo por motivos de saúde, neste caso de saúde mental, deve ser altamente frustrante. E depois ter de lidar com essa incapacidade para todo o sempre, começar a pensar que se vão perdendo faculdades deve ser terrível”. Williams dizia já não saber como “ser engraçado” e em várias entrevistas falava abertamente sobre os períodos desafiantes que tentava ultrapassar.

A psicóloga Filipa Palha, presidente da Associação para a promoção da saúde mental “Encontrar+se”, refere que “a vivência de um problema de saúde mental, desde a vergonha que causa, ao medo de ficar dependente de medicação, ao medo de não conseguir ser aceite socialmente, é uma sombra, é uma nuvem negra à volta de tudo aquilo que tem a ver com problema de saúde mental”. Não se fica por aqui e alerta que “temos muito que andar para substituir e ultrapassar estes preconceitos, esta desinformação por aquilo que é a literacia em saúde mental”.

Contra o estigma, lutar com mais informação

Ainda é difícil falar sobre depressão e Filipa Palha afirma que é “surreal” que exista dificuldade em abordar o tema, na medida em que não se fala de problemas do foro mental nas empresas, no trabalho, nos mais variados contextos, tratando estas patologias como algo que deve ser mantido em segredo. “É quase como se estivéssemos a invadir a privacidade das pessoas”, acrescenta. A presidente da Encontrar+se é muito direta na forma como desconstrói a questão do estigma: “como é que nós não temos conhecimento e à vontade para falar sobre algo que afeta 25% da população?”.

Este estigma, partilha Filipa, não é algo exclusivamente português, existe também noutros países, mas “como estamos cerca de 30 anos atrasados em muitas questões, com certeza que há ainda mais dificuldade para nós e para a nossa sociedade em conseguir lidar com este tema da forma que ele merece, que é com a mesma tranquilidade que lidamos com outro problema de saúde.” Para progredirmos, é essencial aceitar que a nossa saúde é um composto de todas as partes que se relacionam com o bem estar físico, social, e mental.

No meio artístico, João Reis admite que existe não só muita apreensão em falar sobre estas patologias como pressão para escondê-las, o que aumenta o pudor em pedir ajuda. “Se se descobre de repente que um ator tem problemas de saúde mental, isso pode ser o princípio do fim da sua carreira”. O ator português refere, contudo, que “se essas pessoas tiverem a capacidade e o discernimento de pedir ajuda, é um passo muito importante para se voltarem a reencontrar e serem felizes no trabalho”.

Intervenção precoce é essencial para um melhor prognóstico

A psicóloga portuense não tem a menor dúvida de que muitos dos problemas que temos em adultos começam em crianças, acreditando que muitos desses problemas vão ser agravados pelo facto de não termos literacia que nos faça intervir precocemente – sendo a saúde mental como qualquer outra área da saúde, os princípios são os mesmos: intervenção precoce para um melhor prognóstico.

A vergonha associada às emoções que sentimos, por considerarmos que são estranhas ou um sinal de fraqueza, dificultam o pedido de ajuda, mantendo-nos sozinhos no nosso sofrimento. É essencial, explica Filipa, “saber o que é sentir desta ou daquela forma, perceber o que é que isto de ter borboletas na barriga antes de ir para um teste, ou ficar aflito porque parece que os meus amigos não o têm”. “Como é que nós não ensinamos as crianças que depois vão ser adultos a lidar com o bem estar psicológico e com a saúde mental?”, questiona Filipa Palha.

Também de acordo com a Sociedade Portugal de Psiquiatria e Saúde Mental, cerca de metade das pessoas que têm um episódio de depressão, recuperam e não voltam a ter outro episódio? No entanto, é importante saber que após três episódios, o risco de incidência aproxima-se dos 100% se não existir tratamento de prevenção.

Filipa Palha alerta que o estigma também está presente nas estruturas e “é por isso que o orçamento da saúde mental é sempre um orçamento muito limitado, e sem esse investimento nós não temos capacidade para fazer chegar às pessoas aquilo que elas precisam”.

Numa célebre cena do filme “Clube dos Poetas Mortos”, Robin Williams dirige-se aos seus alunos como professor John Keating, dizendo: “Não importa o que alguém vos diga, as palavras e as ideias podem mudar o mundo”. Agora é o momento.