É a primeira vez que Adolfo Mesquita Nunes fala publica e abertamente sobre a vida interna do CDS desde o congresso de janeiro que elegeu Francisco Rodrigues dos Santos como líder do partido. Num artigo de opinião publicado no Observador, o antigo vice-presidente de Assunção Cristas critica o acordo desenhado com o Chega nos Açores e diz mesmo que essa aliança compromete a “identidade e a sobrevivência” do partido.

“Deixar a alternativa [reformista] nas nas mãos do Chega compromete a possibilidade de um projeto reformista que resolva os problemas de todos os que perderam já a esperança e compromete a sobrevivência e a identidade do meu partido. É por isso que o erro cometido nos Açores não deve repetir-se“, escreve Adolfo.

O democrata-cristão, um dos rostos da ala mais liberal do CDS, foi uma das 54 personalidades que lançaram a carta aberta divulgada pelo jornal Público onde se pedia um cordão sanitário em torno dos extremismos. O movimento — até pelo timing — foi entendido como uma crítica implícita ao acordo conseguido nos Açores, mesmo que não fosse esse o objetivo inicial do documento ou, pelo menos, de todos os signatários.

Quem não se ficou foi Francisco Rodrigues dos Santos. “O que eu vejo na opinião publicada é que há muita gente à direita que prefere os salões do Bairro Alto e do Príncipe Real em vez de querer corresponder a uma vocação de mudança de uma direita real que existe no nosso país”, criticou o líder do CDS.

No artigo agora publicado no Observador, Adolfo Mesquita Nunes responde à crítica sugerindo que Francisco Rodrigues dos Santos está a lutar contra moinhos de vento: o inimigo não está dentro do CDS; mas fora.

“Permitam-me que diga algo sobre o CDS, não só porque os órgãos do partido não reúnem, mas também porque fui acusado pelo presidente do meu partido de ser da ‘direita que prefere os salões do Bairro Alto e do Príncipe Real’, um daqueles comentários próprios de quem não percebe que a ameaça ao CDS não está nos críticos de um acordo com o Chega (primeiro negado, agora sussurrado – uma mentira que parece não ter comovido ninguém mas que dá bem conta do embaraço), mas nos falsos amigos que nunca votaram CDS e insistem que o CDS tem tudo a ganhar em deixar Ventura entrar no arco da governabilidade”, escreve.

O tema não é unânime na direita e, naturalmente, no CDS. Francisco Mendes da Silva ou Diogo Feio, por exemplo, manifestaram ao Observador o desagrado com a decisão tomada pela atual direção do partido. Em entrevista, João Gonçalves Pereira, deputado, vereador e líder da distrital do CDS/Lisboa, alinhou pela mesma tese: o CDS comete um erro ao aparecer ao lado do Chega na mesma fotografia. Nuno Melo e Manuel Monteiro, em contrapartida, defenderam Francisco Rodrigues dos Santos e disseram que o acordo era inevitável e terá vantagens para a direita.

Unida e mais partida do que nunca. O momento andaluz da direita portuguesa?

O tema deverá marcar o próximo Conselho Nacional do CDS, órgão máximo entre congressos, ainda sem data marcada. Sobretudo depois de Francisco Rodrigues dos Santos ter dito publicamente que o partido não tinha assinado qualquer acordo de governo com o Chega, o que, não sendo falso, é pelo menos enganador, como explicava aqui o Observador: na verdade, Artur Lima, líder do CDS/Açores, acabou por assinar um acordo de incidência parlamentar com PSD e PPM, parceiros de governo, mas também com Chega. No partido há quem entende, como sugeriram Adolfo Mesquita Nunes e João Gonçalves Pereira, que Francisco Rodrigues dos Santos faltou à verdade.

Fact Check. O CDS não assinou acordo com o Chega, como disse Francisco Rodrigues dos Santos?