“O PSD cometeu um erro tático absoluto; o Chega, quando lhe deram um dedo mindinho, esqueceu-se de que era antissistema; e o CDS tornou-se um verbo de encher, não existe. Os Açores não são o início de coisa nenhuma para a direita”. Quem o diz ao Observador é José Miguel Júdice, com a autoridade de quem conhece por dentro a direita portuguesa. Nem todos concordam com ele, naturalmente. Ainda assim, esta leitura não deixa de ser certeira num ponto: depois de 26 anos de governação socialista numa região autónoma, a direita uniu-se e ascendeu ao poder. Mas passou os últimos dias dividida entre autojustificações, a culpa e o orgulho.

O PSD fez um acordo regional com o Chega e teve de vir a público, várias vezes e a várias vozes, jurar a pés juntos que o entendimento não é nacional — e não é — e que não há proposta de revisão constitucional conjunta — e não há. O CDS, a quem muitos tinham passado a certidão de óbito, conseguiu sobreviver e faz agora parte de um governo açoriano — mas poucos se lembram disso. André Ventura abdicou de (quase) tudo o que exigia, recuou e só evitou uma rebelião no partido à 25ª hora — os deputados eleitos pelo Chega ameaçaram bater com a porta se o líder inviabilizasse a solução. E a Iniciativa Liberal entrou na zona de poder mas nem consegue esconder os sinais de desconforto por aparecer ao lado do Chega na fotografia. Pelo meio, um grupo de personalidades ligadas à direita, e com elementos de PSD, CDS e Iniciativa Liberal, assinou uma carta aberta para traçar um cordão sanitário em torno dos extremismos — do Chega, leia-se. A família não-socialista uniu-se nos Açores; mas, ou por isso, deixou a nu todas as suas fraturas.

“O PSD cometeu um erro tático absoluto; o Chega, quando lhe deram um dedo mindinho, esqueceu-se de que era antissistema; e o CDS tornou-se um verbo de encher, não existe. Os Açores não são o início de coisa nenhuma para a direita”
José Miguel Júdice

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