O bastonário da Ordem dos Médicos considera que as medidas do Governo de resposta à segunda vaga da pandemia de Covid-19 foram “tardias” em “duas, três, quatro semanas”. Em entrevista ao Observador, Miguel Guimarães afirmou que é necessário travar o mais cedo possível o aumento de contágios e não excluiu a necessidade de “confinamentos mais agressivos”, caso o número de infeções não diminua.

Sobre as novas medidas que o Governo implementou, Miguel Guimarães destaca que “entre esta terça e quinta-feira vamos perceber se as medidas tiveram ou não eficácia”. O bastonário considera que o Executivo de António Costa está a tomar as medidas “que entende que são as melhores”, mas avisa que os número de contaminações pelo novo coronavírus tem de descer o mais rapidamente possível: “Temos de impedir que se continue a ter os números das últimas semanas”.

É assim “vital” que se “minimize” o número de infeções. Em causa, estão os números de internados. Segundo os dados apontados por Miguel Guimarães, a taxa de ocupação da Covid-19 ultrapassou os 95% em alguns hospitais. Há, por isso, uma “uma margem de manobra curta”.

Em relação aos cuidados intensivos, o número máximo de camas que o SNS consegue atingir é 900, segundo o bastonário, mas isso implica a transformação de outros serviços (como cuidados intermédios) em camas de UCI. Segundo os dados da DGS, há 498 doentes Covid em cuidados intensivos, mas Miguel Guimarães lembra os doentes não Covid: “Os outros doentes não deixaram de existir, não conseguimos de repente congelar, parar todos. Continuamos a ter outros doentes em cuidados intensivos e estamos numa situação complexa”.

O bastonário garante, no entanto, que “todos os doentes estão a ter o tratamento que precisam de ter”. E Miguel Guimarães considera que a Covid-19 veio pôr a nu as fragilidades do SNS, que está “subdimensiado” para a atividade que lhe é requerida.

Imagine-se que não há doença Covid. Nesta altura, os nossos internamentos estavam cheios. Operávamos doentes, as camas de cuidados intensivos estavam cheios, etc., É preciso ter a noção de que o SNS está dimensionado para a atividade. Melhor dizendo, está subdimensionado, devido à falta de capital médico, assistentes operacionais, enfermeiros…”, aponta o bastonário.

“Nós vamos ter de travar os contágios”

Miguel Guimarães considera que, se o número de contaminações diários não diminuir com um confinamento parcial, é necessário “confinamentos mais agressivos”. “As pessoas não têm ideia dos efeitos diretos e indiretos da Covid-19. Cada pessoa que morre é uma perda irreparável”.

E o bastonário aborda ainda os “impactos colaterais” do novo coronavírus, aludindo a dados de que referem que o excesso de mortalidade em 2020 não se deveu exclusivamente à Covid-19.

Para diminuir o número de casos diários, a Ordem dos Médicos deixa duas recomendações para o Governo adotar. A primeira é a “utilização generalizada de testes rápidos”, cuja eficácia é já “assinalável” e permite “quebrar as cadeias de transmissão”. A segunda passa por, nos concelhos em que a probabilidade de transmissão é excessivamente elevada, testar a totalidade da população.

A Ordem dos Médicos destaca ainda que a diminuição dos contágios se faz através dos cidadãos, apelando assim à utilização da máscara na rua e em espaços fechados, ao distanciamento físico e a lavar as mãos com frequência.