Num dos dias da segunda semana de janeiro, uma ambulância que estava a responder a urgências em plena terceira vaga da pandemia de Covid-19 foi desmobilizada para se deslocar ao Conselho de Saúde de Múrcia, uma espécie de ministério da saúde municipal. Lá chegados, os profissionais de saúde administraram a vacina contra a Covid-19 a Manuel Villegas, o conselheiro de saúde da comunidade autónoma espanhola. Depois, outros altos cargos e funcionários, alguns não ligados ao Conselho de Saúde, foram também vacinados — bem como, segundo o jornal Vozpópuli, a mulher do conselheiro.

O caso, revelado esta quarta-feira pelo jornal La Verdad, tem contornos semelhantes ao do presidente de Reguengos de Monsaraz, no distrito de Évora, que tomou a vacina contra a Covid-19, mesmo não pertencendo a nenhum dos grupos prioritários. José Calixto terá tido acesso à vacina por ser o presidente da fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva, que gere o lar com o mesmo nome, onde em agosto morreram 18 pessoas, segundo o Expresso. Só que, nas prioridades da vacinação estão incluídas residentes em lares e funcionários, mas não há qualquer indicação para as administrações das residências de idosos.

A “teia” do Alentejo. A direção do lar que só tem socialistas, o Zé das Festas e uma fundação familiar

O conselheiro de Saúde de Múrcia admitiu que recebeu a primeira dose da vacina, sublinhando que é médico de saúde pública e justificando-se com o facto de a sua profissão ser essencial no combate à pandemia da Covid-19. Poucas horas depois do escândalo ter rebentado em Espanha, Villegas convocou uma conferência de imprensa para pedir desculpa a todos os cidadãos que se sentiram “dececionados e ofendidos”. Garantiu que os profissionais de saúde na linha da frente e todos os trabalhadores e utentes de lares já tinham sido vacinados e, só por isso, foi “ampliada a capacidade de vacinação”, começando “paralelamente a vacinar os restantes profissionais de saúde que solicitaram” a vacina.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Mas, embora esta primeira fase de vacinação em Espanha inclua “outros profissionais de saúde”, o protocolo do Ministério da Saúde especifica que os profissionais incluídos no grupo prioritário devem trabalhar “em centros e estabelecimentos de saúde e sociais” — o que não é o caso. Também não é o caso da mulher do conselheiro de Saúde. María Teresa Martínez Ros, médica que faz parte do departamento do marido como diretora-geral do Planeamento, Investigação, Farmácia e Atendimento ao Cidadão, recebeu a vacina contra a Covid-19, como noticiou o Vozpópuli.

Questionado pelo Vozpópuli, o Conselho recusou revelar os nomes dos altos funcionários que receberam a vacina contra a Covid-19, alegando que se tratam de “informações pessoais e confidenciais”.

No total, foram vacinados cerca de 400 profissionais do Conselho de Saúde e inscritos 618 profissionais dos serviços centrais do Serviço de Saúde de Múrcia, dos quais 466 já foram vacinados”, disse apenas em resposta oficial ao jornal.

Nessa mesma conferência, quando questionado sobre uma possível demissão, Villegas afastou essa hipótese, dizendo que não era “hora de fugir, mas de avançar”. Mas nem seis horas, o presidente de Múrcia, Fernando López Miras, viria a anunciar a sua demissão, sem, no entanto, admitir que tivesse violado as prioridades de vacinação. O argumento oficial para explicar a demissão foi que se pretendia evitar a instabilidade política, num momento em que a região está “em risco extremo” devido ao aumento das infeções por Covid-19.

Presidente da Câmara de Reguengos de Monsaraz tomou vacina para a Covid-19 sem pertencer a qualquer grupo prioritário

O porta-voz do Ministério da Saúde espanhol confirmou ao El País que o Conselho de Saúde de Múrcia não perguntou ao executivo se Villegas e outros 400 trabalhadores (incluindo a sua mulher) poderiam ser vacinados nos primeiros grupos prioritários. E que não tem conhecimento de um caso deste género em nenhum outro Conselho de qualquer outra comunidade espanhola. Fontes do Governo de Madrid, por exemplo, garantiram ao mesmo jornal que o seu conselheiro de Saúde, também médico, não foi vacinado. “Seguimos o protocolo estabelecido: lares de idosos e profissionais de saúde”. Na comunidade de Castela e Leão, o mesmo: asseguram que o seu conselheiro, que também é médico, não foi vacinado.