Há especialistas que recomendam a utilização de duas máscaras para conferir uma maior proteção de um contágio pelo novo coronavírus. Rui Nogueira, ex-presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, é um deles e explica que essa já é prática em alguns hospitais e centros de saúde em Portugal, sobretudo no contacto com os utentes. A ideia é acrescentar camadas de filtragem que travem uma maior quantidade das partículas que podem transmitir o SARS-CoV-2. É que “as medidas que estamos a adotar não chegam”, argumenta.

Mas esta não é uma posição unânime entre os especialistas ouvidos pelo Observador. Carla Nunes, diretora da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, admite que “qualquer barreira que aumenta o isolamento” pode ser positiva, mas que “se for necessário, seria melhor usarmos máscaras melhores”, preterindo, por exemplo, as de pano ou escolhendo as que têm três camadas (duas de tecido e um filtro entre elas) “do que acumular máscaras na cara”.

Ambos os especialistas concordam num aspeto: o mais importante continua a ser o cumprimento rigoroso das regras impostas pelas autoridades de saúde até agora: utilizar corretamente a máscara, manter o distanciamento físico e lavar regularmente as mãos. “Se houver quem continue a usar máscaras no queixo ou abaixo do nariz, podemos usar as máscaras que quisermos que nada vai resultar”, protesta Carla Nunes.

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Na Alemanha, como já acontece na Áustria, a estratégia é outra: generalizar a utilização de máscaras FFP2 em estabelecimentos comerciais e nos transportes públicos numa estratégia para conter a propagação da nova variante, mais transmissível, e controlar a incidência da proteção. A medida entra em vigor a partir de 25 de janeiro, mas, na região da Bavária, já foi implementada na última segunda-feira.

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Em Espanha, Fernando Simón, diretor do Centro de Coordenação de Alertas e Emergências Sanitárias, considerou que “pode ser razoável” tomar a mesma medida por lá e que o Ministério da Saúde não descarta “tornar obrigatório o uso de máscaras FFP2 em algumas circunstâncias concretas”.

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Enquanto as máscaras recomendadas pela Direção-Geral da Saúde (DGS) para a população em geral devem ter uma capacidade de filtragem mínima de 70% (a percentagem varia de acordo com o fabricante), as máscaras FFP2  filtram pelo menos 94% das partículas com 0,3 micrómetros de diâmetro ou maiores. E enquanto as primeiras protegem os outros das partículas expelidas pelo utilizador, as FFP2 conferem proteção nos dois sentidos.

Em Portugal, a norma da Direção-Geral da Saúde continua a reservar as máscaras FFP2 — que são mais escassas, mas mais eficazes — para os profissionais de saúde que contactem diretamente com casos de Covid-19 e para os cuidadores de pessoas diagnosticadas com uma infeção pelo SARS-CoV-2. Para a população em geral, aconselham-se as máscaras comunitárias que cumpram as indicações da ASAE e as máscaras cirúrgicas.

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Miguel Castanho, bioquímico e investigador principal do Instituto de Medicina Molecular, considera que esta medida teria “razoabilidade” em Portugal, pelo menos nos locais com maior concentração de pessoas e onde o cumprimento do distanciamento físico é mais difícil — como nos transportes públicos, por exemplo. “Se pudermos aumentar essa eficácia, melhor”, considerou o especialista.

No entanto, a medida só faria sentido sob duas condições: se houver uma maior disponibilidade no mercado destas máscaras, de modo a não comprometer a sua chegada aos profissionais de saúde na linha da frente, e se puderem estar à venda nas farmácias e supermercados a preços acessíveis. Atualmente, cada uma destas máscaras pode custar mais de 10 euros, dependendo do fabricante, e não são reutilizáveis.

Carla Nunes diz não ter conhecimento científico para avaliar a pertinência desta medida, mas, havendo condições para a implementar, poderia ser pertinente se a evidência científica demonstrar que é positiva. Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, confessou ao Observador que ainda não tem uma posição sobre o assunto, mas admite que “é uma discussão importante e que talvez faça sentido” no delineamento de medidas para travar o avanço do novo coronavírus.

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Já Miguel Castanho argumenta que também falta evidência científica sobre a eficiência da utilização de duas máscaras, embora “intuitivamente” diria que a medida “faz sentido”, mas como plano B à adoção das máscaras FFP2. No fundo, segundo especialistas ouvidos pelo Observador, qualquer uma das estratégias precisa de avaliada à luz de evidência científica que ainda não existe, mas, seguindo o princípio da precaução, ambas poderão ser pertinentes.

Máscaras novas? Depende da razão por que o vírus é mais infeccioso

Parte da resposta está na razão pela qual a nova variante é mais transmissível. A explicação mais consensual neste momento é que, à conta das mutações que o vírus sofreu, passou a haver uma maior interação com as células humanas. Mas será que a proteína S tem uma maior afinidade com os recetores ACE2 e, por isso, o contágio é mais célere? Terão as mutações aumentado a capacidade de multiplicação do vírus e, por ter maior carga viral, cada pessoa tem maior probabilidade de infetar outra? Ou as duas coisas ao mesmo tempo?

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Se o vírus se tiver tornado mais eficiente em infetar as células mas, ainda assim, não provocar cargas virais substancialmente diferentes das outras variantes, a questão da máscara torna-se menos importante: quanto maior proteção, melhor, mas isso seria válido para qualquer estirpe do SARS-CoV-2. No entanto, se a carga viral que a variante britânica provocar for maior, a quantidade de partículas virais transmitida de pessoa para pessoa também será maior.

Ao Observador, Celso Cunha, virologista do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), explicou que o mais provável é que esta nova variante consiga causar uma doença com os mesmos sintomas que a Covid-19 normal, mesmo com menos partículas virais inaladas. Já Miguel Castanho descreve que o vírus infeta mais facilmente as máscaras, multiplica-se melhor e origina cargas virais maiores.

Para o primeiro, visto que o uso de máscara não evita totalmente o contágio (porque as pessoas continuam a respirar partículas expelidas por outras pessoas nas proximidades), o melhor continua a ser usar as máscaras recomendadas pela DGS, e do modo ensinado pelas autoridades de saúde, e cumprir o distanciamento físico. Para o segundo, “se pudermos aumentar a eficácia das barreiras que utilizamos nas vias respiratórias, na incerteza sobre a razão por que o vírus é mais transmissível, é isso que devemos fazer”.

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Todos concordam num aspeto: as medidas já aconselhadas pelas autoridades de saúde não têm sido cumpridas com tanto afinco como na primeira vaga da epidemia em Portugal. Um estudo divulgado pela Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa revelou que a percentagem de inquiridos que utiliza máscara sempre que sai de casa e no contacto com terceiros desceu de 86,7% entre 28 novembro a 11 de dezembro para 76,3% para entre 26 de dezembro e 8 de janeiro.

“Se fizéssemos isso, mesmo com esta variante, estaríamos todos numa situação melhor”, acredita Celso Cunha, apelando a um regresso à pedagogia por parte das autoridades de saúde, tal como ocorreu na primeira vaga. “As máscaras e distanciamento social são as únicas armas que temos para combater o vírus, há mais de 100 anos“, prosseguiu o virologista.