Chegou ao fim mais uma edição da Semana da Moda de Milão. Durante sete dias, os grandes, mas também os emergentes, da moda italiana apresentaram as suas coleções para a próxima estação fria. Houve celebrações — a Max Mara não deixou que o seu aniversário redondo passasse em claro –, surpresas e um carimbo português. Gonçalo Peixoto estreou-se no calendário de apresentação com um desfile gravado em Portugal. Alexandra Moura mostrou um formato bem mais conceptual, reiterando o posto conquistado ao lado das principais marcas italianas. Entre essas, eis os destaques da última semana.

Missoni: uma coleção para 2021

O desejo de posicionar a marca acima das estações do ano e do próprio tempo, cuja perceção (sobretudo na sua relação com a moda) mudou radicalmente com a pandemia, levou Angela Missoni a revelar, numa única apresentação, as propostas da marca para esta primavera-verão, mas também para o próximo outono-inverno. Os separadores caíram em prol de uma adaptação às reais necessidades das suas clientes e aos diferentes cenários em que vivem — trabalho, lazer, festas e viagens (assim que o vírus voltar a permiti-lo). O exercício traduz-se numa curta-metragem que privilegia a autenticidade e as situações reais e que exibe um guarda-roupa versátil, todos vestidos tubulares com glitter às camisolas com capuz e cardigans.

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A Fendi de Kim Jones

No seu primeiro desfile de pronto-a-vestir para a histórica casa italiana (fundada em 1926), Kim Jones revisitou o arquivo, recuperando malas icónicas, detalhes e cortes que marcaram o curso da Fendi e até o monograma desenhado por Karl Lagerfeld em 1981. Ainda assim, é evidente que o designer britânico (também responsável pelas coleções masculinas da Dior) está a modernizar a marca, mundialmente conhecida por trabalhar peles artesanalmente. Um slip dress, ombros e barrigas a descoberto, transparências e peças oversized — a Fendi está em pleno rejuvenescimento.

70 anos de Max Mara

No desfile que assinalou os 70 anos da Max Mara, a estrela foram os casacos, precisamente a mesma peça com que Achille Maramotti penetrou no mercado italiano, em 1951. Do robusto sobretudo ao efeito acolchoado, toque britânico dado pelo designer Ian Griffiths, a silhueta celebrativa assumiu várias formas, passando ainda pelo bomber e pela parca. Também a paleta foi fiel ao cânone da marca — o camel predominou, o verde tropa e o preto completaram a antevisão do próximo inverno.

Prada: uma dupla otimista

“O otimismo está a aumentar”. Miuccia Prada declarou-o durante uma ronda de perguntas após o desfile da última semana. Juntamente com o seu codiretor criativo, Raf Simons, deu a entender que a dupla não está indiferente à tendência. As lantejoulas e os sobretudos garridos denunciaram a ansiedade em ver o mundo recuperar a sua paleta original, ao mesmo tempo que as malhas e os fatos de duas peças mostram que a marca continua atenta às necessidades de uma sociedade ainda confinada pela ameaça do vírus.

As vedetas Moschino

O imaginário fantasioso de Jeremy Scott voltou a tirar partido das atuais limitações. Em vez de um desfile convencional, o designer da Moschino montou uma pequena curta-metragem inspirada nos desfiles de outros tempos e o elenco é de luxo — Hailey Bieber, Miranda Kerr, Karen Elson, Taylor Hill, Amber Valletta, Lily Aldridge, Winnie Harlow, Stella Maxwell, Precious Lee, Joan Smalls e Dita Von Teese, no line-up mais estrelado na temporada, pelo menos até agora. O mesmo imaginário mantém Scott longe de uma eventual viragem no registo da marca (aproximando-a de um guarda-roupa mais ajustado a realidade pandémica). A recusa surge na forma de uma coleção teatral dividida em temas, da alfaiataria de Wall Street às divas de Hollywood, do safari na selva à galeria de arte.

Giorgio Armani e o melhor de dois mundos

Aos 86 anos, Armani é o mais velho designer de moda no ativo e um mestre para quem adicionar elegância e conforto à mesma receita é algo que acontece naturalmente. A coleção apresentada na última semana — feminina e masculina em separado, embora no mesmo cenário — volta a confirmá-lo. A calças fluidas e cómodas, os casacos de corte casual e as saias longas e leves coexistiram na passerelle com propostas bem mais sofisticadas, incluindo volumes plissados, cristais, bordados e folhos. O criador oferece o melhor de dois mundos, sem no entanto esconder a esperança de que o próximo outono-inverno possa ser de regresso aos encontros sociais.

O futurismo de Ferragamo

Gattaca, o clássico de 1997, foi a referência visual de Paul Andrew para conceber a apresentação da sua última coleção para a Salvatore Ferragamo. Mas o túnel luminoso seria apenas um apontamento cenográfico ao lado das silhuetas com que o designer projetou a marca italiana para o futuro. Clássicos depurados, cores fortes e uniformes foram os elementos que ressaltaram no desfile, uma estética futurista que o britânico complementou com alguns passos rumo à sustentabilidade — usou peles tingidas sem recurso a crómio e ainda sugeriu peças em PVC biodegradável. Mas Andrew não esquece a ambição comercial. A missão de refrescar a Ferragamo tem como objetivo aproximar a marca de um público mais jovem.

Philosophy, o regresso às aulas

A óbvia referência aos uniformes colegiais chega com um duplo sentido. Se por um lado, Lorenzo Serafini quis refletir sobre milhares de alunos que, no último ano, se viram privados do ensino e da escola, com ênfase da importância dessa experiência social na formação de identidades, o designer revisitou a sua própria experiência enquanto estudante. Uma nostalgia que o levou aos blusões da equipa de futebol, às minissaias com pregas, riscas e emblemas a fazer lembrar as casas de Hogwarts.

Valentino, uma visão a preto e branco

A marca italiana apenas adicionou uma pitada de dourado à coleção apresentada na última segunda-feira. Tudo o resto se manteve dentro de um esquema rígido de preto versus branco. Um romantismo punk que Pierpaolo Piccioli quis que partilhasse dos requintes da alta-costura, coleção que apresentou no final de janeiro, no calendário parisiense. As rendas, as caxemiras entrecortadas e as transparências delicadamente bordadas foram os extras de um desfile sóbrio, gravado num pequeno teatro milanês. Minissaias e capas foram as peças estrela.

Dolce & Gabbana e a nostalgia dos anos 90

Coube à dupla italiana encerrar o calendário e, como é seu apanágio, a ocasião envolveu um desfile megalómano, ainda que sem público. Foi entre a paleta garrida dos anos 90, a mais frenética eurodance e a parafernália digital dos nossos dias que a Dolce & Gabbana encontrou inspiração para uma coleção de exageros — de cor, volumes, de brilhos e de acabamentos plastificados (e também robôs na passerelle). Em suma, a vaga nostálgica trouxe de volta tudo o que a última década do século passado consegui aglomerar num único armário, do graffiti aos chumaços, do fato de treino a little black dress.

No mesmo dia em que Milão deu por encerrados os desfiles de outono-inverno, arrancou a Semana da Moda de Paris, que se prolonga até 10 de março.