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É novidade sobre novidade. Em plena pandemia de Covid-19, a moda afasta-se dos trâmites de outros tempos. Em meados de janeiro, Miguel Vieira e David Catalán ainda voaram para Milão para, a partir de lá, apresentarem as suas propostas para a próxima estação fria, em dois desfiles gravados e à porta fechada. Para Gonçalo Peixoto, designer português de 23 anos que esta terça-feira foi um dos nomes a figurar no calendário de apresentações da semana da moda, a estreia aconteceu a partir de Portugal.

“Foi tudo feito cá”, começa por explicar o designer ao Observador. A notícia chegou no início do ano, a pouco mais de um mês da fashion week. Os interiores de um casarão degradado foram o cenário escolhido para gravar o desfile. Dez manequins percorreram as salas e corredores sem público. A imagem multiplica-se um pouco por todas as semanas da moda internacionais, que substituem as apresentações ao vivo por eventos a porta fechada, oram em cenários concebidos para o efeito, ora em locais meticulosamente escolhidos.

A equipa do designer juntou-se para fazer o desfile acontecer. No line up, estiveram rostos familiares como Margarita Pugovka e Isilda Moreira, também elas guiadas pelo ritmo de “Galanteio”, tema dos Três Tristes Tigres. No final, as imagens foram de uma pista de dança improvisada, evocação das noites e festas que tardam em voltar. O guarda-roupa, pelo menos, já está pronto.

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“Esta coleção nasce num momento de isolamento social e de uma necessidade enorme de voltar a sentir o toque e aquela proximidade entre os corpos. Basicamente, é sobre essa nostalgia”, contextualiza Gonçalo Peixoto. Perante as limitações ditadas pela pandemia, o designer provoca as mais saudosas com um cortejo de vestidos arrojados. Os brilhos, os ombros pronunciados, os decotes assimétricos e as transparências surgem como protagonistas de uma realidade paralela, ou como a cápsula do tempo que vamos desenterrar assim que o vírus der tréguas. “A coleção abre a porta da disco. Há um desejo de liberdade expresso através de uma paleta super vibrante”, completa.

Mas Gonçalo Peixoto não esquece as necessidades mais imediatas da sua clientela. Os fatos de treino que garantiram a sobrevivência da marca durante o último ano estão de volta em novas cores, uma alternativa ao look de festa traduzida num novo glamour confortável.

Para esta coleção, Gonçalo Peixoto criou alguns acessórios: malas e chapéus © Frederico Martins

Escapismo versus realidade? Peixoto não faz cedências e continua nas duas frentes, mesmo num momento tão fugaz como este — um desfile com 21 coordenados, porém partilhado na plataforma da Semana da Moda de Milão, que até à próxima segunda-feira estará sob os olhares do mundo. “Estou muito feliz. A internacionalização é algo muito importante para a minha marca. Faço feiras em Milão há já muito tempo e por isso é um consolidar desse trabalho”, remata.

A coleção outono-inverno 2021/22 de Gonçalo Peixoto volta a ser apresentada na ModaLisboa, que decorre entre os dias 10 e 14 de março, no mesmo formato digital. Mas o roteiro de promoção da moda portuguesa continua lá fora. Alexandra Moura integra o calendário oficial de desfiles de Milão e tem apresentação marcada já para o próximo domingo. Na semana seguinte, Ricardo Andrez, Constança Entrudo e Maria Carlos Baptista integram o calendário de eventos da Semana da Moda de Paris.

Na fotogaleria, veja as imagens do desfile de Gonçalo Peixoto transmitido esta terça-feira, no âmbito da Semana da Moda de Milão.