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Paraskevi Papahristou já tinha deixado de ser ameaça por não ter superado a marca que tinha, Ana Peleteiro teve o melhor salto do concurso (e da época) mas ficou a um centímetro da liderança, Neele Eckhardt era uma incógnita. Por um lado, a vitória parecia garantida; por outro, a alemã tinha melhorado o seu registo máximo do ano em 40 centímetros. Arriscou tanto que fez o terceiro nulo seguido. Patrícia Mamona era campeã mas manteve a cara fechada. Concentrou-se e tentou subir mais ainda o recorde nacional, não conseguiu, “explodiu”. Primeiro num grito bem audível na Arena de Torun, depois numa corrida para a zona da bancada onde se encontrava o seu treinador, José Uva. A seguir, as lágrimas. Ali e durante o hino, já de máscara. E se a final do triplo salto foi a mais emocionante dos Europeus de Pista Coberta de 2021, havia outras razões para aquele estado de espírito.

Um voo para a história: Patrícia Mamona bate recorde nacional e sagra-se campeã europeia de Pista Coberta no triplo salto

“Estes Campeonatos foram uma alegria mas acima de tudo foram uma lição de vida a nível pessoal. Digo isto porque chegar até aqui foi extremamente complicado, foi tudo à última. Etapa após etapa consegui ir ultrapassando os obstáculos. Estou extremamente feliz, muito, muito emocionada. Estar aqui a representar o meu país e ouvir A Portuguesa foi das melhores sensações do mundo. Estou extremamente feliz”, começou por contar a atleta à Rádio Observador, a propósito da infeção por Covid-19 que teve há cinco semanas e que manteve num ciclo fechado.

“Nem nós sabíamos o que ia acontecer. Infelizmente, [a Covid-19] atacou-me o sistema muscular, estive de cama e depois quando voltei era ver o que é que dava. Ainda estivemos para desistir. Fui de olhos fechados para os Campeonatos de Portugal, já sem fazer triplo salto há algum tempo, e consegui estar perto da marca de referência para vir a Torum. Isso foi de certa forma uma luz. Depois fui a Madrid, consegui qualificar-me mesmo à última, na última prova [marca de 14,21]. E já que estava aqui em Torum era desfrutar, dar o meu melhor e ver o que é que saía. Até eu estou extremamente surpreendida com o que aconteceu mas para mim foi uma lição de vida em que o importante é tentar até ao fim e não desistir”, contou, antes de explicar o que mudou na preparação.

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[Ouça aqui as declarações de Patrícia Mamona à Rádio Observador depois do título europeu]

Patrícia Mamona, campeã europeia, esteve infetada com Covid-19 antes dos Europeus. “Pensei que a minha época tinha acabado”

“Fui apalpando terreno porque não sabia dos efeitos. Tive sintomas bastante fortes. Quando percebi que conseguia, que ainda tinha força e velocidade, fui para os Campeonatos de Portugal arriscar e ver o que acontecia. A minha preparação foi com os olhos fechados e aos poucos fui percebendo que ainda dava. Estive basicamente a dormir porque tinha muitas dores. Tomava medicação e só pensava que a minha época tinha acabado. Estava com medo que a situação piorasse, porque foi piorando dia-a-dia. Foram oito dias assim. Mas a partir do momento em que percebi que a nível respiratório estava bem só pensava em regressar. Estar bem de saúde era o mais importante. Aliás, na minha primeira semana pós-Covid, cada coisa que fazia, quando corria um minuto a mais, fazer um pouco mais de musculação, era descobrir se dava ou não dava. Mas deu! Já passou e estou bem de saúde”, destacou, entre uma conquista histórica na carreira e a projeção dos Jogos Olímpicos de Tóquio.

“A medalha olímpica é nos Jogos. Cada competição é uma competição. O sonho continua lá, estou ainda mais confiante porque aqui tive de sair da minha zona de conforto, e é isso que procuro para melhorar. É assim, melhoramos, competimos e estou na luta nos Jogos. Prognósticos não se pode fazer antes do jogo, por isso vou focar-me no que posso fazer, que é a preparação. Mas para já vou desfrutar deste momento e quando começar a época de verão é com o objetivo de fazer a minha melhor performance da época nos Jogos”, concluiu.

“O caminho que começámos há 20 anos valeu a pena”, recorda José Uva

As expectativas eram boas, os resultados foram ainda melhores: naquela que foi a melhor participação de sempre de Portugal em Europeus de Pista Coberta, com um total de três medalhas de ouro e outros resultados de grande mérito mesmo não tendo pódio como Francisco Belo, Carlos Nascimento, Mariana Machado ou Samuel Barata, Patrícia Mamona fechou com chave de ouro a competição que decorreu na cidade polaca de Torun, ganhando por um centímetro (com recorde nacional) a final do triplo salto, e recebeu os parabéns dos mais variados quadrantes, incluindo o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que deixou uma mensagem aos vencedores.

Histórico: Portugal consegue melhor participação de sempre e foi segundo com mais ouros nos Europeus de Pista Coberta

“O Presidente da República felicita os três atletas portugueses que se sagraram campeões da Europa em Pista Coberta no campeonato que decorre em Torun, na Polónia. Na sexta-feira, Auriol Dongmo, na sua primeira internacionalização a representar Portugal, lançou o peso consistentemente acima dos 19 metros e conquistou a medalha de ouro. Este domingo, Pedro Pichardo, com um triplo salto de 17,30m, deixou a concorrência a uma apreciável distância e ficou em primeiro lugar, alcançando a medalha de ouro. Por sua vez, Patrícia Mamona, com uma extraordinária prova, também no Triplo Salto, na qual bateu o recorde nacional de pista coberta, conquistou o primeiro lugar e a terceira medalha de ouro para Portugal neste campeonato”, começou por destacar.

“O Presidente da República felicita os atletas medalhados, mas também todos os atletas que representaram Portugal e deixa uma palavra especial de reconhecimento aos treinadores, às estruturas técnicas, às famílias dos atletas, aos clubes e à Federação Portuguesa de Atletismo. São uma parte menos visível, mas muito importante para os resultados alcançados”, acrescentou Marcelo Rebelo de Sousa na nota publicada no site da Presidência. Também António Costa, primeiro-ministro, deu os parabéns a Patrícia Mamona pela terceira medalha portuguesa nos Europeus, à semelhança de João Paulo Rebelo, secretário de Estado da Juventude e do Desporto.

O Sporting, clube de Patrícia Mamona há mais de uma década, destacou o feito com a frase “Leoa de Ouro” mas o mais emocionado de todos foi mesmo José Uva, treinador da atleta que explicou a explosão de emoções da atleta no final da prova do triplo salto. “Significado? Perceber que o caminho que começámos há quase 20 anos valeu a pena, sobretudo num ano como este com todas as condições e dificuldades por causa da pandemia. Desabou, teve aquele desabafo e soltou as lágrimas por isso, por ser campeã. Tivemos uma preparação muito atribulada, a Patrícia teve Covid-19 há um mês e uma semana, ganhar por centímetro também é um aperto no coração. Foi um misto de várias razões”, destacou José Uva, em declarações à Rádio Observador.

[Ouça aqui o comentário do treinador de Patrícia Mamona, José Uva, à Rádio Observador]

Da infeção por covid-19 ao título europeu. Treinador de Patrícia Mamona está confiante e já pensa na “medalha olímpica”