Aníbal Cavaco Silva doou à Presidência da República o seu acervo como primeiro-ministro através de um contrato assinado pelo ex-primeiro-ministro no passado dia 3 de março no Convento do Sacramento, o seu local de trabalho como ex-Chefe de Estado.

Cavaco Silva quer que o seu acervo seja depositado no arquivo do Palácio de Belém e aberto a investigadores e outros interessados em estudar a história de Portugal nos anos 80 e 90. O acervo abrange dez anos, entre 1985 e 1995, e inclui milhares de documentos, mais de 19.000 fotografias pessoais e institucionais e material videográfico.

O Observador teve acesso a alguns dos documentos doados, nomeadamente a cartas trocadas com Mário Soares, Francisco Sá Carneiro, Freitas do Amaral, Agustina Bessa Luís e Jonas Savimbi que pode consultar na fotogaleria que faz parte deste artigo.

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Destaca-se no material doado as 100 cartas que Cavaco Silva trocou com Mário Soares, ex-Presidente da República entre 1986 e 1996, sendo que uma parte diz respeito ao período conturbado das relações entre os dois estadistas que corresponde ao segundo governo de maioria absoluta cavaquista.

Uma boa parte das missivas, nomeadamente as trocadas com Sá Carneiro, Soares e Freitas do Amaral, têm a particularidade de serem escritas à mão e dizem respeito a diferentes fases da carreira política de Cavaco Silva. Num tempo em que não havia telemóveis nem computadores, os líderes políticos escreviam à mão para oferecer um cunho mais pessoal às mensagens que queriam transmitir.

A primeira imagem da fotogaleria, uma carta de Francisco Sá Carneiro, diz respeito ao período em que Cavaco foi ministro das Finanças do Governo da Aliança Democrática. A segunda missiva, de Freitas do Amaral, tem as eleições presidenciais de 1986 — que Freitas viria a perder na segunda volta com Mário Soares — como pano de fundo e foi enviada de um hotel de Macedo de Cavaleiros, onde o então candidato descansava.

Jonas Savimbi, presidente da UNITA, é o protagonista da terceira carta, datada de 11 de setembro de 1989 — dois anos antes dos acordos de Bicesse que estabeleceram a paz em Angola e que foram apadrinhados pelo Governo Cavaco. As restantes missivas foram trocadas com o então Presidente Mário Soares e António Guterres, então secretário-geral do PS e líder da oposição.

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Entre a documentação doada, encontra-se também cartas trocadas com Agustina Bessa Luís, enquanto diretora do Teatro Nacional D. Maria II, e documentação histórica relativa às comemorações dos 600 do Tratado de Windsor — a mais antiga aliança diplomática do mundo assinada em 9 de maio de 1386, após a ajuda britânica na batalha de Aljubarrota em que a Coroa portuguesa derrotou Castela.

Do acervo documental doado também fazem parte, entre outros, os dossiês das reuniões do Conselho de Ministros, do Conselho de Estado, do Conselho Superior de Defesa Nacional, do Conselho Superior de Informações e do Conselho Superior de Segurança Interna entre 1985 e 1995. Inclui-se ainda no acervo a correspondência trocada com o Presidente da República, a Assembleia da República e outros órgãos de soberania, ministros, partidos políticos, clero e diversas personalidades. A esta documentação acrescem 27 pastas respeitantes à atividade diplomática que em 2016 tinham sido depositados na Presidência da República, tendo sido fornecida uma cópia de todos os documentos ao Ministério dos Negócios Estrangeiros.

“É intenção do ex-Presidente Cavaco Silva que toda a documentação seja tratada arquivisticamente para que possa ser consultada por quem o solicitar”, lê-se no comunicado oficial publicado pela sua assessoria de imprensa.

O contrato assinado com a Presidência da República inclui, por último, a doação das condecorações recebidas por Cavaco Silva enquanto primeiro-ministro que já se encontravam em depósito no Museu da Presidência da República.

Artigo corrigido às 19h05