Baixou para 37% a percentagem de portugueses que não quereriam ser governados por um líder autocrático, que não tivesse de se submeter ao parlamento ou a eleições. Esta é a conclusão de um estudo da Gulbenkian, noticiado esta sexta-feira pelo jornal Expresso. Em outros países europeus, como Noruega e Áustria, essa percentagem é superior a 80%.

O estudo, chamado “Os valores dos portugueses”, revela que só 3,7 em cada 10 portugueses dizem que seria algo “mau” ou “muito mau” ser governado por um déspota, ao passo que em 1998 a percentagem de portugueses avessos a um regime dessa natureza era de 41%. Ou seja, a evolução nestes mais de 20 anos sugere que os portugueses estão hoje mais disponíveis para líderes autoritários.

O trabalho foi conduzido pelos investigadores Alice Ramos e Pedro Magalhães, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, e indica, também, que a larga maioria dos portugueses não vê com bons tomada de decisões por especialistas, que não são eleitos, em vez de por governantes – em 1999 eram 40% e agora são 28%. Por outro lado, em 2020 eram 66% os que rejeitavam um regime militar, face aos 75% de 1999.

Não é apenas em Portugal que se verifica esta tendência para uma cada vez menor rejeição de formas não democráticas, mas o estudo coloca Portugal mais próximo das democracias do leste europeu, onde se incluem alguns regimes autoritários. Portugal está na 10ª posição entre os países analisados, depois da Macedónia, Azerbaijão ou Arménia – e têm maior tolerância a autocracias do que países como a Lituânia, a Bósnia-Herzegovina ou a Croácia.

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Em países como Islândia, Noruega, Finlândia e Áustria são mais de 80% os cidadãos que não querem líderes autoritários a governar os seus países.

Ao Expresso, Pedro Magalhães, um dos investigadores, diz que Portugal não é “a única democracia ocidental onde isto está a acontecer. O caso mais evidente e estudado em todo o mundo é o americano”, onde o fenómeno estará relacionado com “o aumento da polarização ideológica” e um número crescente de pessoas que “trocam a democracia pela defesa de posições muito extremas”. Mas os EUA têm um sistema político muito diferente do que existe em Portugal, sublinha.