Mary Hanna é uma representação palpável do espírito olímpico. Aos 66 anos, é a atleta mais velha a participar nos Jogos Olímpicos de Tóquio e compete no dressage, uma das competições equestres da olimpíada. Com a sexta participação olímpica a acontecer no Japão, Mary tornou-se ainda a segunda mulher mais velha de sempre a participar em Jogos. Apenas Lorna Johnstone, também nas modalidades equestres, a ultrapassa na idade competitiva, participando nas olimpíadas de 1972 com 70 anos. Mas Hanna quer empatar essa contenda.

No passado sábado, na competição de dressage, a pontuação de 67.981 não chegou para a qualificação, mas mesmo que isso seja, obviamente, relevante, a participação olímpica já enche o espírito da australiana.

Os Jogos Olímpicos são muito sobre participação também. Então, apenas estar aqui é ótimo. Penso que está a ficar um pouco tarde para pensar numa medalha de ouro, mas não desisto. Sonhas sempre com o próximo cavalo, a próxima competição, que vais ser melhor. Batalhas para dares o melhor que consegues“, afirmou após a sua prestação.

Curiosamente, Mary Hanna sente falta do… nervosismo. Afinal, ter bancadas vazias é mesmo estranho para os atletas e para a competição, como explicou: “Não estava nervosa o suficiente. Preciso de público para me ‘levantar’ e para me pôr mais nervosa, penso eu”.

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Ainda sobre a pressão, mas agora acerca dos adversários — mais novos, com outro ranking e que conseguem melhores competições —, a australiana de 66 anos admite que a única coisa a fazer é dar o melhor, como uns Jogos Olímpicos bem pedem e representam. “Tenho pensado nessa pressão vários meses, semanas e dias. Mas cheguei à conclusão de que não posso fazer mais nada a não ser dar o meu melhor“, confessou a atleta que tem 54 anos de diferença para a competidora mais jovem dos Jogos, a mesatenista síria Hend Zaza.

E pode-se pensar que, aos 66 anos, Mary Hanna está pronta para andar de cavalo fora das competições. Mas, curiosamente, só não vai tentar ir a Paris 2024 se não puder, o que igualaria o recorde de idade já referido. “Não sei o que fazer mais de mim. Faço isto há tanto tempo. Olhem, andar a cavalo é um daqueles desportos extraordinários que podemos fazer independentemente da idade ou do género. Sim [tentar ir a Paris], absolutamente. É apenas daqui a três anos. A menos que o meu corpo quebre realmente, vou tentar Paris certamente”, garantiu. Se isto não é espírito olímpico…

E, olhando para trás, Mary Hanna estava destinada a “passear” com os seus cavalos, que começou a montar logo aos quatro anos. A sua família era muito ligada a estes animais e desde muito cedo que a atleta começou em eventos de saltos e outras modalidades, até encontrar no dressage a sua paixão.

A minha família era muito ligada aos cavalos. Se não andavam, não comiam, praticamente. Era parte da vida. Eu não entrei para o dressage até conhecer o meu primeiro marido, que era dinamarquês. Ele levou-me para a Europa e apresentou-me ao verdadeiro dressage competitivo”, disse numa entrevista em 2012.

O primeiro marido de Mary Hanna, Gert Donvig, foi também atleta de dressage ao mais alto nível. O dinamarquês morreu num acidente de viação em 1988 e também fez parte de um livro como que autobiográfico, escrito pela australiana. “A Long Rein” fala não só do fatídico acidente mas, também, de como Hanna salvou cavalos de um fogo, por exemplo. “O tema unificador do livro é um olhar sobre as pessoas que influenciaram a minha vida, que me ajudaram durante tempos difíceis. Quando decidi escrever o livro, pretendia que fosse uma história de amor sobre a minha mãe, mas durante o desenrolar da história, e enquanto eu pesquisava, cheguei à conclusão de que existiam algumas falhas. Ao tentar completá-las, aprendi mais sobre a minha mãe e isso fez com que me compreendesse“, afirmou em 2013.

Sobre a vida de Hanna, e num contexto menos dramático, importa dizer que a competição corre-lhe mesmo no sangue. Se não, veja-se: em 2012, participou no campeonato do mundo de Etchells, uma competição de vela.

Mary e o marido, Rob, que já liderou equipas australianas nos Jogos Olímpicos de 2008 e 2012, vivem atualmente em Bellarine, na Austrália, onde treinam cavaleiros e cavalos para dressage. Mas, até há poucos anos, a australiana vivia na Alemanha, sendo que em 2018, por treinar lá, começou a transportar os seus cavalos para terras germânicas. Isto até que um acidente da filha, quando andava a cavalo, a catapultou novamente para o seu país natal. “Em outubro de 2019 a minha filha Gitte sofreu uma lesão na cabeça, depois de um cavalo cair com ela. Tomei a decisão de trazer os meus cavalos para casa, para a Austrália, para poder estar perto dela e da família durante a sua recuperação”, contou em 2020, também numa entrevista.

A torcer para que Mary Hanna consiga chegar aos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, importa dizer que também quebra recordes no seu país, visto que, com 61 anos e 258 dias, tornou-se a atleta australiana (de qualquer género) mais velha (de qualquer desporto) a competir nuns Jogos Olímpicos, neste caso no Rio de Janeiro, em 2016.

Mais uma vez, se isto não é espírito olímpico…