O diretor da CIA, William J. Burns, reuniu-se presencialmente com Abdul Ghani Baradar, considerado o líder de facto dos talibãs, esta segunda-feira, na capital afegã, Cabul. A notícia foi avançada pelo The Washington Post, que cita militares norte-americanos sob anonimato que tiveram conhecimento deste encontro secreto.

O encontro entre Burns e Baradar surge numa altura em que continua o caos no aeroporto de Cabul, com milhares de afegãos a tentarem fugir do Afeganistão, temendo represálias dos talibãs. As tropas norte-americanas deverão abandonar totalmente o país a 31 de agosto, mas alguns dos aliados dos Estados Unidos, como o Reino Unido ou a França, têm pressionado para que Joe Biden prolongue a missão norte-americana no país.

Esse tópico, juntamente com a possibilidade do reconhecimento do governo talibã por parte dos países ocidentais, estará esta terça-feira em discussão na reunião virtual do G7 (que reúne os líderes de Estados Unidos, Reino Unido, França, Itália, Canadá, Japão e União Europeia) e é expectável que, depois do encontro, Joe Biden tome uma decisão definitiva sobre o assunto.

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O Presidente norte-americano descreveu a retirada de afegãos, muitos deles que colaboraram com as forças ocidentais durante os 20 anos da ocupação norte-americana e que, por isso, temem pela sua segurança, que procuram fugir como uma das “mais difíceis da história”, e prometeu que os Estados Unidos apenas abandonariam o Afeganistão quando tivesse retirado todo o seu pessoal, o que foi encarada por alguns aliados como uma abertura para prolongar a presença norte-americana em território afegão.

Os talibãs, no entanto, rejeitaram a possibilidade de os militares norte-americanos continuarem no país após o final de agosto, e prometerem consequências caso tal acontecesse. Nesse sentido, o tema deverá ter sido abordado no encontro entre William J. Burns e Abdul Ghani Baradar na segunda-feira, embora a CIA tenha rejeitado comentar e não terem sido adiantados mais detalhes sobre os temas discutidos por Burns e Baradar.

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Conforme nota o Washington Post, a reunião entre o diretor da CIA, um veterano da política externa norte-americana, que serviu cinco Presidente e tem uma vasta experiência no Médio Oriente, e Baradar não pode ser dissociada de lguma ironia, uma vez que, há oito anos, o líder talibã foi detido numa operação conjunta entre a CIA e o Paquistão.

Baradar acabaria por ser libertado em 2018 e foi o principal negociador talibã nas conversações entre os Estados Unidos e os islamistas, que resultaram no acordo, assinado pela Administração Trump e concretizado por Biden, para a retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão. Desde então, reuniu-se presencialmente com vários líderes mundiais, desde o secretário de Estado norte-americano durante a Administração Trump, Mike Pompeo, até com o ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi.

A reunião com de Baradar com William J. Burns é o encontro ao mais alto nível entre a liderança talibã e os Estados Unidos desde que os extremistas islâmicos assumiram o controlo do Afeganistão.