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As carrinhas carregadas de livros vão chegando aos jardins do Palácio de Cristal. Em várias bancas já se começou a desempacotar as caixas, a catalogar os livros e a distribuí-los pelas prateleiras e mesas. A Feira do Livro do Porto começa esta sexta-feira, este ano com uma homenagem ao escritor Júlio Dinis. E regressa também a esperança de que o evento consiga dar algum oxigénio ao setor livreiro. “Esperamos que, pelo menos, corra tão bem como no ano passado. O ano passado foi um balão enorme de oxigénio para nós e possibilitou-nos aguentar melhor esta pandemia”, refere Francisco Reis, responsável da Poetria, enquanto vai acertando os detalhes finais da sua banca.

A livraria está presente desde o início da Feira do Livro e tem enfrentado algumas dificuldades durante a pandemia. “Estivemos quase seis meses fechados e não é, de todo, fácil para uma livraria como a nossa, com a particularidade e especificidade que nós temos, sendo especializados em poesia e teatro, conseguir aguentar estas situações. A Feira do Livro foi a nossa salvação no ano passado, além de termos também tido algum apoio por parte do Ministério da Cultura”, explica o responsável.

Com o avanço do processo de vacinação e a fase de desconfinamento, Francisco Reis acredita que “já se respira mais segurança”, mas sem “nunca deixar de acautelar todas as medidas de proteção individual e pensando sempre no bem comum”. “Estamos prontos para receber todos os nossos amigos e clientes”, garante.

Este ano, a Feira do Livro tem 124 pavilhões, com 78 entidades — entre editoras, livrarias e alfarrabistas. Para muitos, o evento é uma forma de escoar o stock, mas também uma montra que permite chegar a mais clientes. “Nós, como somos uma livraria independente e mais pequena, notamos que as pessoas que vêm aqui não são as mesmas pessoas que frequentam a livraria, até porque o tipo de livros que compram é diferente”, explica ao Observador Luís Matos, da livraria Flâneur.

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Para esta livraria, que representa diferentes editoras, no ano passado “não se sabia bem o que ia acontecer”, mas as expectativas foram superadas. Este ano, o caminho é o mesmo: “Assumimos que as pessoas quererão também voltar a sair e a habituarem-se a ir outra vez a eventos, especialmente assim num jardim ao ar livre. Esperamos igualmente uma boa afluência”.

A expectativa da segurança, das vendas e de um reencontro com os livros

Entre as 145 atividades planeadas — com o regresso dos concertos de bolso, do Porta-Jazz ao Relento e do programa de animação no recinto –, a edição deste ano da Feira do Livro vai evocar o médico e escritor portuense Júlio Dinis, a partir do mote Herborizar, numa altura em que se assinalam 150 anos da sua morte. “É um escritor do Porto, muito querido na cidade e é um extraordinário vulto de personalidade, muito singular da vida cultural em Portugal do seu tempo. Costumo dizer que ele é o mais conhecido dos autores esquecidos em Portugal”, sublinha Nuno Faria, diretor artístico do Museu da Cidade e responsável pela programação da Feira do Livro.

Um dos momentos da programação será a reabertura do antigo Museu Romântico como a Extensão do Romantismo do Museu da Cidade, onde estará “o herbário que Júlio Dinis compôs na ilha da Madeira, nos dois últimos anos de vida, quando ali fez três viagens para se curar da tuberculose de que padecia e de que veio a morrer em 1871, com 31 anos”. O espaço recebe a exposição “Quando a Terra voltar a brilhar verde para ti”, de entrada gratuita.

Já sobre as expectativas para esta edição da Feira do Livro, Nuno Faria revela que o foco não está tanto nos números, mas que “o número de visitantes será elevado, como é sempre”. A segurança continua a ser prioridade, mas sem esquecer o verdadeiro ambiente do evento: “Vamos fazer como fizemos no ano passado, com toda a segurança, respeitando as normas vigentes, mas tudo fazendo para que os visitantes não percam o conforto que é estar neste espaço, o encontro com os livreiros e com os artistas”. A lotação máxima foi reduzida para mil pessoas em simultâneo no recinto, sendo obrigatório o uso de máscara. Há álcool-gel em cada canto do evento e circuitos definidos de entrada e de saída.

A expectativa é que tenhamos uma feira muito concorrida e que seja também um sucesso em termos de vendas e que as pessoas, no fundo, se possam reencontrar com os livros, que todos percebemos que continuam a ser de enorme importância nas nossas vidas, como vimos no confinamento — os números indicam que se leu muito durante este período. Temos a expectativa de que as pessoas venham, se sintam seguras e que o reencontro com os autores e entre nós seja alegre e seja muito participado, acrescenta Nuno Faria.

Das Quintas de Leitura que reúnem “gente inquieta” aos duetos de poetas

Outro destaque na programação são as já tradicionais Quintas de Leitura, no auditório do Super Bock Arena – Pavilhão Rosa Mota. Segundo João Gesta, o responsável desta programação, a ideia é “reunir gente inquieta” durante 1h15 de leituras e acompanhados de música. “Baseados na morte muito jovem do Júlio Dinis, pensámos em fazer uma sessão que reunisse poetas portugueses, não vivos, que, de algum modo, se tivessem despedido muito cedo também da vida ou vozes muito inquietas”, explica. Haverá poemas sobre amor, solidão, a morte, “mas também poetas que em alturas muito distantes das nossas assumiram a sua homossexualidade”.

João Gesta é também responsável pelo segmento “Tem a sua força o raio da palavra”, na Concha Acústica, um segmento que vai ter quatro autores (Germano Silva, João Habitualmente, Álvaro Laborinho Lúcio e Dulce Maria Cardoso) a contar todo o tipo de histórias. “Num período tão difícil pelo qual estamos a passar, são precisos abraços, afetos e são precisas pessoas que nos contem histórias”, refere ao Observador.

Voltando à poesia, a edição deste ano da Feira do Livro do Porto terá também duetos de poetas. “Jonas Mekas disse que as civilizações começam a colapsar quando os políticos deixam de ouvir o que os poetas têm a dizer. É esta ideia de que a civilização colapsa quando se deixa de ouvir a palavra que, no fundo, é tida como a do louco, da exceção, daquele que está fora do mundo — e que se calhar não está fora do mundo, é um sensor do mundo. Achamos que era urgente ouvir o que é que aqueles que, na nossa língua e na nossa proximidade, estão nessa relação com o mundo nos têm a dizer. E tornar isso quase num espaço de ágora pública, ou seja: o que é que podemos realmente aprender ou não na conversa entre dois poetas?“, explica Marta Bernardes, responsável pela programação deste segmento.

Para os mais novos, há também a programação infanto-juvenil, que conta com oficinas, conversas, espetáculos para bebés e para famílias. Uma “verdadeira programação, como se faz para os adultos”, sublinha Marta Bernardes. Os eventos são articulados com o programa principal e sempre em torno dos temas que advém da homenagem e releitura de Júlio Dinis, como é o caso do “Herbarium”, um espetáculo que decorre na sala infanto-juvenil da Biblioteca Almeida Garrett

A Feira do Livro começa esta sexta-feira e termina no dia 12 de setembro. A programação completa pode ser consultada online.

Jardins do Palácio de Cristal. De segunda a quarta-feira, das 12h30 às 21h, quinta e sexta-feira das 12h30 às 23h, sábado das 11h às 23h e domingo das 11h às 21h