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Era 1944, o penúltimo ano da II Guerra Mundial. Um soldado norte-americano entrou numa casa em Itália e quase que disparou quando viu que algo debaixo de um cesto se mexeu (um soldado alemão?) Mas hesitou, e ainda bem, porque podia ter matado três crianças italianas que tinham sido escondidas pela mãe quando viu que militares estariam a chegar.

“Crianças, crianças, crianças!”, gritou a mãe quando se apercebeu do que poderia estar prestes a acontecer, colocando-se de imediato à frente da metralhadora, e os filhos saíram do esconderijo. O soldado abraçou-os, aliviado por não ter disparado, e agora pôde voltar a fazê-lo. Na segunda-feira, Martin Adler realizou o seu sonho e encontrou-se com os irmãos, agora com 79, 82 e 83 anos, pela primeira vez desde a guerra. Martin tem 97 e nem a idade avançada nem a saúde já debilitada o impediram de viajar de Florida, EUA, até Itália.

A chave para o reencontro foi a fotografia que ele tirou com as crianças, sorridente com o desfecho, e que guardou durante estes 77 anos. Naquele dia, tinha apenas 20 anos. Após Martin pedir para imortalizar o momento, as crianças tiveram, primeiro, de vestir “as suas melhores roupas de domingo”, assim quis a mãe. Quem conta a história ao pormenor é a filha do veterano, no Facebook.

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Rachelle Adler Donley recorreu às redes sociais em julho para pedir donativos para a viagem do pai à Europa, já que este precisa de cuidados de saúde constantes e as despesas são muitas, explicou. Neste momento, com mais de 6.000 euros angariados, o veterano pôde voltar à vila de Monterenzio, no norte italiano, e a ver a casa onde entrara em 1944.

Após aterrar no aeroporto de Bolonha, onde Bruno, Mafalda e Giuliana o esperavam, Martin ofereceu-lhes tabletes de chocolate — assim como o fez em 1944. E Giuliana, a irmã mais nova, lembra-se desse gesto: “Comemos tanto daquele chocolate”, contou à agência Associated Press.

Mas voltando à parte em que a família Adler descobriu paradeiro da família italiana. Durante a quarentena, causada pela pandemia de Covid-19, Rachelle decidiu tentar encontrar o rasto das crianças da fotografia, usando as vantagens que as redes sociais trouxeram.

Após passar por grupos de veteranos, a imagem chegou a um jornalista italiano, autor de alguns livros sobre a II Guerra, que foi capaz de reconhecer o sítio onde foi captada e a imagem acabou publicada num jornal local — a identidade das crianças foi depois descoberta, e o veterano ficou a saber que os irmãos vivem a poucos quilómetros da casa onde estavam escondidos naquele dia.

A história encantou tanto o jornalista Matteo Incerti que este acabou mesmo por lançar um livro, em junho, a contar a história de Martin, tendo como capa a fotografia, já esverdeada com o passar do tempo. O ex-combatente ainda hoje treme quando se lembra que esteve apenas a segundos de atirar contra as crianças, diz a filha.

A II Guerra decorreu entre 1939 e 1945 e Itália (Eixo) e Estados Unidos (Aliados) lutavam em frentes opostas. Naquela altura, os militares nazis (Eixo) recuavam para o norte italiano, onde os EUA se defendiam.