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“Vou estar particularmente empenhado em ganhar São Domingos de Rana. Eu mereço, nesta última vez que concorro, ter a grande alegria de ganhar esta freguesia”, disse Carlos Carreiras no final da intervenção da apresentação da recandidatura. O autarca de Cascais concorre para um terceiro mandato depois de duas maiorias absolutas, mas entre as quatro freguesias do concelho, uma continua a vestir as cores do Partido Socialista. Noutros municípios de norte a sul continuam a existir alguns “enclaves” que vão resistindo às maiorias dos executivos municipais, uns por questões históricas, outros resultado de uniões de freguesias que alteraram as forças partidárias e outros por más apostas nas equipas candidatas.

Em Cascais, onde a coligação PSD/CDS tem desde 2013 seis em onze vereadores, há uma freguesia que continua entregue ao PS e a Fernanda Gonçalves, que parte também para um terceiro mandato em que “embora confiante” diz ao Observador que “não sendo da mesma cor política a gestão diária torna-se mais complicada”, apontando a “falta de delegação de competências, numa freguesia que é uma das mais populosas do país e que tem que andar de mão estendida”. A autarca queixa-se de que a Câmara de Cascais “faz o que quer, quando quer e depois coloca as culpas na junta”, acrescentando que “mais uma vez todas as obras estão a ser feitas no último ano do mandato”.

Do lado do PSD/CDS a aposta faz-se mais uma vez em Fernando Ferreira Marques, que em 2017 conquistou 7290 votos – perdendo para a Assembleia de Freguesia pouco mais de mil votos face ao que a coligação recebeu para a Câmara Municipal. Carlos Carreiras prometeu na intervenção de apresentação da candidatura “dedicar mais tempo a São Domingos de Rana”, quase como apostando nesta freguesia como último desejo deste período autárquico. A atual presidente e recandidata socialista, Fernanda Gonçalves mostra-se pouco confiante em grandes alterações de forças na autarquia mas confessa que “claro que preferia o PS a governar, não sendo possível, que o PSD e o CDS não tenham maioria absoluta para não fazerem apenas o que querem”.

Gondomar, união de freguesias alterou correlação de forças

Em Gondomar, o socialista Marco Martins foi o responsável em 2013 por recuperar um concelho que era social-democrata há 20 anos e com um nome de peso como presidente: Valentim Loureiro. Ainda assim, Marco Martins e o PS local têm também “um assunto por resolver”: a União de Freguesias de Fânzeres e São Pedro da Cova, que é liderada pela CDU e por Pedro Miguel Vieira, a única em sete freguesias a ter outra cor diferente do executivo municipal. Neste caso, a junção da freguesia de Fânzeres a São Pedro da Cova alterou a correlação de forças, com a CDU a manter o peso quase hegemónico que tem em São Pedro da Cova desde há 40 anos.

Marco Martins, presidente da camara municipal de Gondomar à chegada para a cerimónia de assinatura do memorando de entendimento entre os municípios do Porto e Gondomar e a Águas do Douro e Paiva, 02 de julho 2021, em Gondomar. ESTELA SILVA/LUSA

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Ainda assim, o recandidato do PS acredita que “este ano essa inversão eleitoral vai ser possível”. Também na intervenção de apresentação da candidatura, que contou com a presença de António Costa, as palmas foram mais audíveis quando Marco Martins disse que “este ano queremos também ganhar Fânzeres e São Pedro da Cova”, mas ao Observador reconhece que “a CDU faz desta freguesia um cavalo de batalha”– daí essa luta ser mais complicada para o PS, queixando-se ainda de “falta de colaboração do executivo da junta”.

O atual presidente e recandidato, Pedro Miguel Vieira, acredita que “a população continua com a CDU apesar da ofensiva do PS, que quer todo o concelho pintado de cor de rosa”, ainda que “o trabalho de mais de 40 anos da CDU em São Pedro da Cova seja reconhecido pelos fregueses, que sabem que existe um trabalho muito próximo e que leva até a que eleitores de outros partidos não comunistas acabem por votar em nós”, garante o autarca desta união de freguesias do concelho de Gondomar. Pedro Miguel Vieira explica ainda que “a autarquia procura sempre isolar um bocado o trabalho da Junta de Freguesia e criar alguns entraves, o que é injusto, porque as populações votam em partidos para as freguesias como para a câmara. Não há subalternos”, frisa o recandidato.

Sintra: freguesias mais rurais continuam nas mãos da direita

Em Sintra, Basílio Horta – apoiado pelo Partido Socialista –, também procura um terceiro mandato depois de em 2013 ter sucedido a Fernando Seara. Com maioria absoluta desde 2017, a implementação está mais difícil nalgumas freguesias em especial da zona interior do concelho, tidas como mais tradicionais. A candidatura de Basílio Horta sabe que “a zona urbana é naturalmente mais PS e a zona rural é mais conservadora”, mas também diz que “se há oito anos tivemos maus resultados nas freguesias, as coisas têm melhorado substancialmente”.

Na União de Freguesias de São João das Lampas e Terrugem, o PS ficou a pouco mais de mil votos de superar o PSD e o CDS, mas em Colares, onde a diferença foi de 300 votos há a expectativa de de “possa existir uma mudança”. O atual presidente e novamente candidato pela coligação Vamos Curar Sintra é Pedro Filipe.

O “médico da TV” que quer “curar Sintra” não tira a “tranquilidade absoluta” a Basílio Horta

Em Sintra, onde Ricardo Baptista Leite tem procurado debater com Basílio Horta, mas onde o frente-a-frente nunca chegou a acontecer, porque o atual presidente só aceitaria um debate com todos e não um “mano-a-mano”. Mesmo sem debates, Basílio Horta mostra-se confiante num “aumento da votação” e garante estar “de consciência tranquila” sobre o que fez nos últimos quatro anos. Dentro da campanha socialista há quem considera que “o estilo adotado pelo candidato do PSD/CDS, mais pessoalizado no presidente” possa cair mal junto do eleitorado mais conservador e ajudar a mudar algumas das freguesias que ainda não estão pintadas de rosa.

Porto: Rui Moreira apoia candidato do PS

O autarca independente tem a maioria das juntas de freguesia do seu lado, mas apesar disso há ainda dois territórios que tem por conquistar – Paranhos (PSD) e Campanhã (PS) –, embora um, à partida fique mais ou menos resolvido nestas autárquicas. Na freguesia de Campanhã, Rui Moreira não apresentou nenhum candidato porque vai apoiar o autarca do Partido Socialista, Ernesto Santos, que venceu em 2017. Este apoio provocou já um conjunto de polémicas durante esta campanha eleitoral.

Ao que avançou o jornal Público, a cinco dias das eleições, quatro dos cinco eleitos pelo movimento de Rui Moreira renunciaram ao cargo na Assembleia de Freguesia de Campanhã. Carlos Gagliardini Graça diz ao Publico que “sendo militante do CDS não passa pela cabeça apoiar ativa ou passivamente uma lista liderada pelo PS”, acreditando que o trabalho feito ao longo dos últimos anos ia até proporcionar “uma iminente e previsível mudança na gestão e no executivo da junta de freguesia”, depois de há quatro anos o candidato de Rui Moreira ter conseguido roubar a maioria absoluta ao PS na freguesia.

Candidato do PS que aparece no jornal de Rui Moreira não sabia da publicação. Movimento não foi a votos para apoiar Ernesto Santos

Ora, sem a concorrência do movimento de Rui Moreira, Ernesto Santos só avançou por saber que ia escapar a um combate eleitoral difícil. Rui Moreira diz até que “o presidente da Junta de Freguesia de Campanhã tem sido um parceiro essencial” para a estratégia local. Ainda assim, apesar dessa relação próxima, Ernesto Santos foi colocado no jornal de campanha o que gerou mais incómodo no PS do que no próprio candidato, como disse ao Observador , apesar de garantir que “não esqueço nem quero esquecer que é ao PS que pertenço”. O caso acabou com uma queixa na Comissão Nacional de Eleições.

Oeiras: único “enclave” muda para as mãos de Isaltino Morais

Em Oeiras, Isaltino Morais é rei e senhor, reconquistando a Câmara Municipal há quatro anos com mais de 34 mil votos e ficando com seis dos onze mandatos disponíveis no executivo municipal, superando o movimento que tinha criado anteriormente e que em 2013 era liderado por Paulo Vistas, seu sucessor e que não aceitou o seu regresso em 2017. Ainda assim, há um território que ficou pintado de outra cor. Porto Salvo, liderado por Dinis Antunes pertenceu até junho deste ano ao Partido Socialista mas depois das eleições deste domingo pode continuar a ser liderado pelo mesmo presidente, mas já de outra cor. Confuso?

Dinis Antunes concorreu em em 2013 e foi reeleito em 2017 presidente da Junta de Freguesia de Porto Salvo com o apoio do Partido Socialista, mas este ano vai concorrer a um terceiro e último mandato com o apoio do movimento Inovar Oeiras de Volta, tendo visto a confiança política dos socialistas ser-lhe retirada em junho deste ano. No texto de candidatura, Dinis Antunes diz que “este último mandato distinguiu-se muito do primeiro, pela razão mais importante: o apoio e inteira disponibilidade do presidente do município em fazer acontecer em Porto Salvo”, acrescentando que teve com Isaltino “uma relação leal, de respeito e trabalho, para o bem das pessoas e das famílias”. Dinis Antunes diz ainda que esta candidatura agora apoiada por Isaltino Morais é “assegurar que não sou político em proveito próprio, é sim, assumir a vontade de fazer ainda mais”. O PS tem outro entendimento.

Numa freguesia em que Isaltino já tinha conquistado mais votos para a autarquia, a mudança de Dinis Antunes para o movimento do atual presidente e recandidato levará ao que tudo indica a uma derrota do PS. Interpelado pelo Observador, o candidato à Câmara de Oeiras pelo PS, Fernando Curto, diz que “em Oeiras todos querem ser das listas do Isaltino, ou porque se oferecem ou porque são comprados”, acrescentando que “uma candidatura pressupõe convicções, respeito e hombridade, valores que esse senhor não teve e também não teve consideração por todos os que votaram nele” adiantando que “o PS tem uma candidata que é a Alice Parada e acreditamos na vitória na freguesia de Porto Salvo”.

Um pouco por todo o país existem ainda outros “enclaves” que se pintam de uma cor diferente da do titular da Câmara Municipal e quase todos são unânimes em reconhecer as dificuldades em trabalhar com autarcas de outras forças partidárias. Nas eleições deste domingo são muitos os presidentes de câmara recandidatos – em especial os que partem para um último mandato –, que jogam tudo na conquista das freguesias que ficaram por ganhar em eleições anteriores.