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O Chega votou a favor de duas listas da CDU para as Assembleias de Freguesia de Amora e de Corroios, o que permitiu aos comunistas liderarem aquele órgão autárquico nas duas freguesias do município do Seixal. A recém-criada comissão autárquica nacional admite que houve um “erro de comunicação”, já que a sugestão nestes casos é a abstenção e não o voto a favor, mas recusa a ideia de coligação ou até de um acordo pós-eleitoral. Se não houve conversa, a situação é ainda mais insólita: o Chega votou favoravelmente na lista da CDU espontaneamente e sem exigir nada em troca. Além disso, prepara-se para viabilizar, pela abstenção, a presidência da CDU na Assembleia Municipal, que poderia evitar.

Bruno Nunes, um dos coordenadores autárquicos do Chega e vereador em Loures, assegura que esta situação não altera em nada as exigências do partido para entendimentos e esclarece que o Chega não negoceia à esquerda. “Não aceitamos pelouros, não nos sentamos com o PCP, não há conversas com a CDU”, assegura ao Observador, enquanto admite que a comissão não deu qualquer ordem para este sentido de voto.

Os membros da Assembleia de Freguesia do Chega votaram sem indicação superior, mas o coordenador explica que a intenção foi “legitimar o voto do povo”, principalmente quando do outro lado estava uma “geringonça [PS/PSD] que queria bloquear a governação”. Trata-se, diz, de uma “atitude democrática”, em que o Chega deu “legitimidade a quem ganhou e deve governar”.

Em comunicado, o Chega explica que justifica o sentido de voto nas duas Assembleias de Freguesia como “um episódio verdadeiramente excecional, um parêntesis aberto e fechado”. “Não pode ser lido como uma mudança de posição. Existe uma única versão do Chega. O partido não tem uma versão nacional e outra para consumo nas autarquias”, insiste em comunicado, uma mensagem passada por diversas vezes por André Ventura após as eleições.

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O presidente do partido também fez questão de deixar claro que o Chega seria “implacável a nível disciplinar” com todos os que atuassem “à revelia da direção”, estando mesmo em cima da mesa a expulsão do partido. Neste caso, tanto a comissão autárquica como a direção do partido não concordam com votos nos comunistas, e os autarcas vão ser chamados para explicarem a situação e para serem responsabilizados, apesar de ainda não estar decidido se haverá ou não punições.

Ainda sobre as freguesias do Seixal, o coordenador explica até que o resultado seria o mesmo sem o voto do Chega, tal como deverá acontecer esta terça-feira na Assembleia Municipal, em que o partido anunciou a abstenção.

Este voto do Chega também acabará por dar a presidência da AM à CDU, já que leva a um empate que obriga a uma votação uninominal, o que, à partida, acabará por se traduzir numa vitória comunista. “Caso o Chega votasse contra a assembleia cairia nas mão do PS/PSD, uma coligação negativa”, explica Bruno Nunes.

Em comunicado oficial, o Chega refere que há um “jogo sujo de bastidores” levado a cabo pelo PS e pelo PSD e que, por todo o país, o partido tem tido autarcas “aliciados a votarem a favor de outros partidos à revelia das diretivas do Chega”.

“O parasitismo de Estado, personificado pelo PS, é o maior mal a erradicar no panorama político nacional. E o PSD mostra uma sede crescente de se juntar a este polvo de inúmeros tentáculos, numa ânsia de reproduzir o Bloco Central”, pode ler-se no mesmo comunicado.