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A Presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, admitiu pela primeira vez em público que há militares norte-americanos presentes na ilha a colaborar no treino de tropas para defender o pequeno país em caso de ataque da China, numa altura em que a tensão entre Pequim e Taipei atinge níveis históricos e está a colocar em causa os laços diplomáticos entre a China e os Estados Unidos da América.

Numa entrevista à CNN, Tsai confirmou que Taiwan tem “uma grande cooperação com os EUA com o objetivo de aumentar” a “capacidade de defesa” do país, mas advertiu que a presença de militares norte-americanos no território “não é tão numerosa como as pessoas pensam“.

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A ilha Formosa, que até ao final da Segunda Guerra Mundial estava sob jurisdição japonesa, foi anexada pela República da China em 1945, antes de o país mergulhar na guerra civil. Com a vitória no conflito em 1949, o Partido Comunista Chinês fundou a República Popular da China — enquanto o Partido Nacionalista Chinês buscou refúgio na ilha de Taiwan, transferindo temporariamente para Taipei a capital chinesa.

Durante algum tempo, Taiwan continuou a ser reconhecido internacionalmente como o governo legítimo da China, mas durante os anos que se seguiram a comunidade internacional começou gradualmente a mudar o reconhecimento diplomático para Pequim, que nunca controlou de facto a ilha Formosa, mas que mantém até hoje a chamada “política da China única” — considerando que todo o território de Taiwan nunca deixou de pertencer à República Popular da China e que, por isso, qualquer país que o reconheça como independente não pode manter relações diplomáticas com Pequim.

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No caso norte-americano, foi em 1979 que Washington passou a reconhecer Pequim como a capital chinesa em detrimento de Taipei — e nesse ano o último grupo oficial de soldados norte-americanos deixou a ilha.

Porém, desde essa altura que a presença de tropas dos EUA em Taiwan tem sido debatida e alvo de especulações, como lembra a CNN. No ano passado, as Forças Armadas dos EUA chegaram a divulgar um curto vídeo que mostrava soldados norte-americanos em Taiwan, mas o vídeo foi apagado — e o ministro da Defesa de Taiwan, que chegou a admitir a presença de forças americanas na ilha, acabou a desmentir-se a si próprio em entrevistas.

Agora, Tsai tornou-se a primeira Presidente do país a admitir publicamente a presença de soldados norte-americanos em Taiwan.

No início de outubro, a China intensificou a pressão militar sobre Taiwan, enviando aviões de guerra para sobrevoar o território. Os Estados Unidos pronunciaram-se apelando a Pequim que parasse a pressão sobre Taipei — e o próprio Joe Biden assumiu-se pronto a defender o pequeno país. Com a tensão a intensificar-se entre China e Taiwan, a comunidade internacional teme que as ameaças possam dar lugar a um conflito armado que resulte na anexação efetiva da ilha.

Quando os regimes autoritários demonstram tendências expansionistas, os países democratas devem unir-se e fazer-lhes frente“, considerou Tsai Ing-wen à CNN. “Aqui está esta ilha de 23 milhões de pessoas a esforçar-se a cada dia para se proteger e para proteger a nossa democracia, e para garantir que os nossos cidadãos têm o tipo de liberdade que merecem. Se falharmos, isso significa que aqueles que acreditam nestes valores vão duvidar de que estes são os valores pelos quais devem lutar.”

A Presidente de Taiwan mostrou-se ainda disponível para mais diálogo com o Presidente chinês, Xi Jinping. “Encorajo-o a ter mais diálogo com o governo e o povo de Taiwan e perceber melhor como é a situação em Taiwan”, disse. “Temos dito repetidamente queremos um diálogo com a China e esta é a melhor maneira de evitar mal entendidos na gestão das relações.”