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Numa altura em que a cimeira do clima de Glasgow entrou numa fase essencialmente técnica, com as negociações à porta fechada a intensificarem-se e os delegados dos 197 países a acelerarem o processo de entendimento com vista ao documento final da COP26, a organização britânica da conferência recorreu a um método eficaz para voltar a animar o evento no espaço público: levou Barack Obama a Glasgow.

O ex-presidente norte-americano, considerado um dos principais arquitetos do Acordo de Paris (assinado em 2015 na COP21, na capital francesa), foi recebido em euforia na cidade escocesa onde cerca de 40 mil delegados de todo o mundo estão reunidos para tentar chegar a consensos sobre como aumentar a ambição dos compromissos assumidos em 2015.

Nascido no Havai, Obama apresentou-se como “um miúdo da ilha“, justamente, num painel sobre a ameaça que a subida do nível médio das águas do mar coloca aos pequenos países insulares — as nações que mais rapidamente vão sofrer com as alterações climáticas, apesar de se contarem entre as que menos contribuem para o aquecimento global.

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Um deles é o Tuvalu, uma minúscula nação de 11 mil habitantes, composta por nove ilhas situadas no meio do Oceano Pacífico — que tem várias zonas em risco real de submersão completa. Aliás, foi do Tuvalu que veio uma das imagens mais marcantes desta cimeira: o ministro da Justiça, Comunicações e Negócios Estrangeiros do país, Simon Kofe, gravou na semana passada um discurso para ser emitido na cimeira, à beira-mar, com água pelos joelhos. O discurso chegou esta semana à COP26 com uma mensagem poderosa: a água está a avançar sobre o Tuvalu e o país pode mesmo perder uma grande parte do seu território nas próximas décadas.

Já em junho de 2019, o secretário-geral da ONU, António Guterres, tinha sido assim fotografado no Tuvalu para a capa da revista Time, numa edição dedicada à luta contra as alterações climáticas.

Em Glasgow, perante centenas de delegados oriundos de todas as partes do mundo, Barack Obama disse estar orgulhoso do seu percurso de trabalho na luta contra as alterações climáticas e, sobretudo, da articulação que sempre manteve com os pequenos países insulares, “que são os mais vulneráveis ao clima em mudança, mesmo que tenham feito menos do que as maiores nações para causar a crise climática“.

O ex-presidente norte-americano, que foi um dos líderes políticos fundamentais para a negociação do Acordo de Paris, afirmou ainda que a participação dos pequenos países insulares nas discussões foi fundamental para que o acordo fosse alcançado. Porém, Obama deixou um alerta: “Não fizemos o suficiente e as nossas ilhas estão mais ameaçadas do que nunca.”

Todos nós temos um papel, todos nós temos um trabalho a fazer e sacrifícios a fazer“, disse Obama, acrescentando: “Aqueles de nós que vivem em grandes países ricos têm uma responsabilidade adicional de garantir que trabalhamos, ajudamos e assistimos aqueles que são menos responsáveis e menos capazes, mas mais vulneráveis a esta crise.”

Mas a intervenção central de Barack Obama estava guardada para um discurso feito no salão principal da conferência. Lá, Obama criticou a China e a Rússia pela ausência da cimeira, apoiou os jovens ativistas, elogiou Greta Thunberg, assumiu que a era de Trump levou a uma estagnação dos progressos feitos no âmbito da ação climática e reiterou aquilo que Joe Biden tinha dito no primeiro dia da cimeira: os Estados Unidos estão de regresso e querem liderar o mundo na transição climática. Como resumiu a BBC, os EUA estão pela primeira vez em quatro anos a dizer aquilo que os ativistas pelo clima querem ouvir. Por quanto tempo isto será suficiente, ainda falta saber.

No que toca ao clima, o tempo está verdadeiramente a acabar“, vaticinou Obama, perante uma sala cheia — o primeiro grande banho de multidão da COP26, que os meios de comunicação ingleses comparam apenas com o discurso de Greta Thunberg na COP25, em Madrid. Salientando que desde 2015 já foram feitos “progressos significativos”, Obama assumiu que, “coletiva e individualmente, é que ainda estamos aquém”, uma vez que “não fizemos nem de perto nem de longe o suficiente para lidar com esta crise”.

Obama assumiu que “algum do progresso estagnou” durante os anos de Donald Trump em Washington, mas garantiu que, com Joe Biden na Casa Branca, “os EUA estão de volta” à ação climática “e preparados para assumir um papel de liderança”.

Obama não encerrou o discurso apoteótico sem uma referência aos jovens, que classificou como “a energia mais importante” do movimento de defesa do clima. “O mundo está cheio de Gretas”, afirmou, aplaudindo a jovem sueca por ter inspirado milhares de jovens por todo o mundo a lutarem contra as alterações climáticas. Considerando que “não é suficiente pregar aos convertidos”, Obama admitiu que “os protestos são necessários para chamar a atenção” para o problema e pediu aos delegados que ouçam mais os jovens. “Não podemos apenas gritar com eles, dizer que são ignorantes ou tweetar contra eles.”

A todos os jovens que aí estão, bem como a todos os que se consideram jovens de espírito: quero que continuem furiosos. Quero que continuem frustrados. Mas desafiem essa fúria e usem essa frustração. Continuem a exigir mais e mais, porque é isso que é preciso para que estejamos à altura deste desafio”, terminou Obama, recebendo uma grande ovação da sala cheia.

Barack Obama também usou o seu discurso central na COP26 para criticar a China e a Rússia pela ausência de “sentido de urgência” na luta climática, materializada na ausência dos seus presidentes da cimeira (uma crítica que já havia sido feita por Joe Biden na COP26). Um ataque mal recebido pela China, que lamenta estar a ser retratada na opinião pública como um país pouco ativo na luta contra as alterações climáticas.

“Têm sido feitas muitas críticas à atitude da China nos meios de comunicação social, mas muitas delas baseiam-se na incompreensão ou em mal-entendidos”, disse ao jornal The Guardian um dos conselheiros da delegação chinesa, Wang Yi, explicando que a China, que é o maior poluidor do mundo, está a fazer mais para combater as alterações climáticas do que aquilo que tem passado para a opinião pública. Wang deu dois exemplos: até 2025, a China deverá atingir o pico do consumo de carvão; até 2030, o país vai implementar uma capacidade de produção de energia eólica e solar superior à totalidade do sistema elétrico atual dos EUA.

Documento final começa a ganhar forma

Esta segunda-feira, soube-se também que o documento final da COP26, o acordo que deverá ser assinado pelos 197 países participantes, está a ganhar forma. A ONU já publicou um esboço inicial com os tópicos (elencados de um modo bastante vago, como a adaptação, o financiamento, a mitigação e a implementação de medidas, mas sem dados concretos) que deverão constar da redação final do acordo, mas a reação não foi positiva. A Greenpeace, uma das maiores associações ambientalistas do mundo, reagiu dizendo que o documento é “excepcionalmente fraco” e que não augura um bom acordo final.

Também nesta segunda-feira, o antigo secretário-geral da ONU Ban Ki-Moon dirigiu-se aos participantes na COP26 para lhes dizer que o mundo não aceitará mais “promessas vazias” da parte dos líderes políticos. “Temos falhado ao mundo e temos falhado às comunidades mais vulneráveis que vivem na linha da frente“, afirmou. “Os jovens acusam-nos de não agir com a urgência que a crise climática exige. Temos de lhes assegurar que compreendemos que não podemos fazer mais promessas vazias.”

O que é certo é que a presidência britânica pretende que o acordo final esteja pronto até sexta-feira. Esta segunda-feira, o presidente da COP26, Alok Sharma, afirmou que iria intensificar os contactos políticos com o objetivo de desbloquear algumas negociações técnicas e assegurar que a conferência encerra, como planeado, na sexta-feira. Para a noite desta segunda-feira, estão previstos alguns contactos informais do próprio Sharma com o objetivo de assegurar que alguns dos textos principais ficam fechados até terça-feira. A partir desta segunda-feira, Portugal está representado no processo negocial por uma delegação liderada pelo ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes.