No passado, as moléculas criadas pela indústria farmacêutica para tratar doenças pulmonares eram aplicadas em doses baixas, através de inaladores clássicos. Mas a evolução para moléculas “mais eficientes, inclusivamente moléculas biológicas”, fez com que as doses por doente tenham aumentado, o que tornou necessário criar dispositivos de aplicação “mais adequados”.

A explicação de João Ventura Fernandes — diretor de negócios de inalação da Hovione, empresa portuguesa especializada na área da ciência da saúde, com sede em Loures (Lisboa) — foi apresentada no episódio de 2 de março do programa O Regresso da Indústria, da Rádio Observador. Segundo este responsável, foi a “constatação daquela necessidade” que levou a Hovione a procurar colaborar com uma empresa tecnológica no desenvolvimento de um “dispositivo focado na administração dos novos compostos” para doenças pulmonares.

A tecnológica em questão é a WeADD, sediada na Marinha Grande (Leiria) e especializada em inovação, desenvolvimento e engenharia de produto e soluções inteligentes. Em conjunto, as duas organizações chegaram a um inalador especial cujo funcionamento se assemelha à lógica do tambor de uma arma de fogo: pequenos contentores — neste caso, oito — que giram à boca de uma saída comum. A dose total está dividida pelos múltiplos compartimentos.

Também convidado do programa, Daniel Caramelo, cofundador e diretor de design da WeADD, explicou que este dispositivo é um “objeto muito simples” com “facilidades ergonómicas e de contenção do produto dispensado”. “Cabe na palma da mão”, sublinhou. “Permitiu até fazer uma inovação ao nível da produção e do enchimento do fármaco na Hovione”, com as moléculas sob a forma de pó a serem colocadas no dispositivo já montado.

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Uma lógica de “inovação colaborativa”

“Imaginemos uma chaminé, por baixo da qual há um revólver. Ao alinharmos essa chaminé com o contentor, faz com que haja uma passagem de ar, de forma a que seja inalado esse pó. Alinhando os contentores um a um com a chaminé, que é uma janela de inalação, vai-se dispensando as oito doses em oito vezes”, resumiu Daniel Caramelo.

“O objeto permite uma dose muito elevada através de múltiplas inalações, [graças a] esta divisão por oito manobras de inalação.”, acrescentou João Ventura Fernandes. “O ser humano não consegue inalar mais do que uma determinada quantidade, caso contrário, existem reações adversas.”

O desenvolvimento do novo inalador começou em 2018, numa lógica de “inovação colaborativa”, o que permite encurtar prazos, notou João Ventura Fernandes. À fase de conceção seguiu-se o desenho detalhado e ainda uma fase caracterizada pela “melhoria progressiva em vários ciclos”. Decorreram cerca de três anos.

O produto é conhecido pela designação em inglês “8Shot Dry Powder Inhaler” (DPI). Está agora numa fase-piloto, já em produção de pequena escala, e a Hovione tem estado em contacto com “parceiros farmacêuticos” que estejam a desenvolver novas moléculas para doenças respiratórias. A administração de fármacos por via pulmonar, referiu o representante da Hovione, é a “via mais eficiente para tratar doenças que afetam cerca de 300 milhões de pessoas no mundo inteiro”, como a asma ou a DPOC (doença pulmonar obstrutiva crónica).

O Regresso da Indústria é uma série de programas que resulta de uma parceria entre a Rádio Observador e a COTEC Portugal – Associação Empresarial para a Inovação, num projecto co-financiado pelo COMPETE 2020, Portugal 2020 e União Europeia, através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional. Cada episódio é transmitido de 15 em 15 dias, às quartas-feiras, na Rádio Observador (nas frequências 93.7 e 98.7 em Lisboa, 98.4 no Porto e 88.1 em Aveiro) e pode depois ser escutado como podcast. Também às quartas-feiras é publicado quinzenalmente um artigo no Observador com o essencial do programa da semana anterior.