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“Meros mortais não viajam num comboio assim”. Com estas palavras o russo Mikhail Korotkov, um entusiasta de Trainspotting, descrevia o comboio blindado de luxo que transporta o Presidente Vladimir Putin nas suas viagens a alta velocidade pelo território nacional.

O comboio TEP70BS-239 de Putin foi, durante anos, a obsessão de Korotkov, o primeiro entusiasta que se pensa ter publicado, em 2018, uma fotografia da locomotiva. “Não é um comboio normal (…). Atrás das cortinas cerradas das janelas deste comboio está a escuridão e a decadência“, escreveu na altura ao partilhar as imagens que captara em Valdai, na região de Novgorod, das carruagens pensadas para transportar a “pessoa mais terrível do país”.

“Estava tão focado no meu passatempo. Tentei obter imagens realmente raras”, disse Korotkov, de 31 anos, numa entrevista ao Washginton Post, na qual recordou a sua paixão pelo comboio presidencial secreto.

O amor por locomotivas começou na infância, mas ganhou uma nova proporção nos tempos da faculdade, quando criou o blogue “Railway Life” [em português, “Vida Ferroviária”], um trabalho “meticuloso” ao qual se entregou de corpo e alma. O comboio de Vladimir Putin tornou-se a sua musa, a joia da coroa da sua coleção de fotografias.

Ao serviço do líder russo desde 2014/2015, o comboio secreto começou a ser frequentemente usado pelo Presidente quando o país começou a preparar a invasão da Ucrânia, segundo apurou o Dossier Center. Numa investigação publicada em fevereiro, o grupo, que acompanha as atividades criminais de indivíduos ligados ao Kremlin, revelou que Putin terá passado a usá-lo constantemente por volta de agosto ou setembro de 2021, quando se começou a detetar movimentações das tropas russas perto da fronteira com a Ucrânia.

O comboio especial de Putin é visualmente “quase indistinguível” dos restantes da Russian Railways, com a mesma cor cinzenta e as faixas vermelhas, refere ainda o Dossier Center. No entanto, há diferenças. Desde já, as carruagens são blindadas para garantir a segurança do líder russo. Além disso, esta locomotiva tem a máxima prioridade, o que significa que os horários dos restantes comboios são ajustados para que este possa seguir a alta velocidade e sem paragens.

Segundo a agência bielorrussa Nexta, no interior do comboio, onde segue sempre uma escolta pessoal, o líder russo tem acesso a um quarto e um escritório privado. Mas não foi o nível de conforto que levou Putin a trocar o tradicional avião privado pela ferrovia russa. Ao contrário do avião, que pode ser facilmente rastreado, o comboio opera com discrição, um desafio que espicaçou a curiosidade de um trainspotter como Korotkov.

“Não pensava nas consequências”

Acompanhar o percurso do comboio era um verdadeiro desafio. O analista financeiro, que também dava aulas em part-time, deixava tudo para trás e, de câmara na mão, seguia no seu encalço sempre que recebia dicas de outros entusiastas da comunidade de Trainspotting. Trabalhava com discrição, tentado não chamar demasiada atenção para o facto de estar tão interessado no comboio presidencial. Mas os seus cuidados serviram de pouco e acabou por atrair os olhares dos serviços secretos russos, revelou ao jornal norte-americano.

Para mim o desafio era tão grande que não estava a pensar nas consequências”, admitiu.

Korotkov percebeu que era tempo de parar quando começou a reparar em mensagens estranhas publicadas nos comentários da sua conta de Youtube: transcrições integrais de conversas telefónicas privadas que mantinha com um amigo. Assumindo que estava a ser vigiado pelo Serviço Federal de Segurança (FSB), intrepetou-o como o primeiro e o único aviso. “Quando vi estas conversas nos meus comentários foi assustador”, recordou.”Pensei na minha segurança pessoal, e a partir desse momento percebi que tudo o que tinha publicado na Internet podia ser usado contra mim”.

Foi o começo do fim. Em 2022 o seu país começava uma guerra na Ucrânia que viria apertar a segurança em torno do Presidente Putin e aumentar a repressão do Kremlin. Foi por isso que, em março desse ano, temendo que as publicações sobre o comboio presidencial levassem a acusações de sabotagem ou terrorismo, tomou a decisão de apagar o blogue sobre os comboios.

A guerra na Ucrânia foi a gota de água. Suspeitando continuar na mira dos serviços secretos e desiludido com o ataque da Rússia ao país vizinho, Korotkov resolveu partir do país. A decisão, que chegou a ponderar quando Moscovo anexou a península da Crimeia, em 2014, foi tomada numa questão de dias depois de ser anunciada a mobilização parcial para reforçar as tropas russas a combater no território ucraniano. Era a “única solução”.

“Começou do zero” no Sri Lanka, onde realiza cursos de formação em Tecnologias de Informação para uma empresa russa. Enquanto o conflito continuar e nada mudar na Rússia não pensa regressar, disse ao Washignton Post. Para já, voltou a sua atenção para os aviões, mas continua a seguir os trainspotters russos.