Carla Castro, ex-candidata à liderança da Iniciativa Liberal, abandona o cargo de vice-presidente da bancada do partido no Parlamento, um lugar que manteve após perder a liderança para Rui Rocha. A deputada liberal justifica a decisão com o facto de não estar a ser tida em conta na “participação estratégica, comunicação e gestão”, sugerindo que não se mantém num cargo sem poder exercer as funções que esse lugar exige. O líder da bancada liberal já reagiu para acusar a sua deputada de ter tido uma atitude “lesiva” para o partido.

“Aceitei a continuidade do mandato após a Convenção, até pela unidade que defendia e defendo. Entendo que os cargos devem ter efetivo exercício dos mesmos (neste caso participação na estratégia, comunicação e gestão) e não sendo o que está a acontecer, e não estando na política por cargos, apresentei a minha demissão”, esclareceu a deputada numa nota no Twitter.

Apesar de  abandonar o cargo na bancada da IL, Carla Castro insiste que é “muito importante” que exista “união” dentro do partido — já após a Convenção em que Rui Rocha venceu tinha feito questão de garantir que estava disponível para ajudar, mas acaba por sair por não se sentir integrada.

“Reitero que é muito importante a união e é nisso que temos de nos centrar: há promessas eleitorais para ajudar a cumprir, um partido para crescer e uma enorme necessidade de ajudar a tornar Portugal mais liberal: contam comigo e não obsta a nada no orgulho e honra em trabalhar, todos os dias, colaborativamente, em prol dos compromissos para um Portugal mais liberal”, afirmou.

Líder da bancada da IL acusa Carla Castro de tomar atitude “lesiva” para o partido

Num comunicado assinado pelo presidente da bancada parlamentar da IL, Rodrigo Saraiva, é lamentado “o momento e a forma” com que Carla Castro decidiu apresentar a sua demissão, acusando-a se não ter “prévia e institucionalmente manifestado qualquer desconforto com as situações agora invocadas” — a justificação dada pela deputada para a saída da vice-presidência. Mais do que isso, é sublinhado o facto de Carla Castro ter sido avisada de que a “intenção” de deixar a vice-presidência da bancada seria “claramente lesiva dos interesses do grupo parlamentar e do partido”.

O líder do grupo parlamentar explica que Carla Castro anunciou a intenção no dia 4 de maio, esta quinta-feira, e que comunicou a decisão na reunião de deputados onde “os fundamentos invocados foram liminarmente refutados pelos restantes deputados presentes”.

Foi convidada a “ponderar” pelo facto de estar prevista para setembro a “reorganização de todas as funções do grupo parlamentar e das funções que os deputados exercem”. Mas não só. O grupo parlamentar, segundo o comunicado, explicou à deputada liberal o “potencial impacto externo” da decisão, “nomeadamente num momento em que o partido e o grupo parlamentar tinham estado sob forte pressão pública nas horas precedentes” devido à presença de um youtuber na Assembleia da República a convite do partido que insultou António Costa — e que levou os liberais a pedirem desculpa.

O líder parlamentar esclarece ainda que a deputada Carla Castro foi “informada das consequências e da leitura política que uma atitude desta natureza, no momento em que estava a ser tomada, poderia ter para o grupo parlamentar e para o partido”. A intenção manteve-se, sem que Carla Castro atendesse “aos alertas que foram formulados, sobretudo tendo em conta o contexto político que se vive”.

“Agradeço à deputada Carla Castro o contributo que deu no período em que exerceu as funções de vice-presidente do grupo parlamentar, não podendo em todo o caso deixar de lamentar o momento e a forma com que decidiu apresentar a sua demissão, sem que prévia e institucionalmente tivesse manifestado qualquer desconforto com as situações agora invocadas”, conclui o comunicado.

Durante a reunião terá ainda sido solicitado à deputada que esclarecesse se estenderia a sua decisão a outros cargos que exerce, nomeadamente no Conselho de Administração da Assembleia da República, e Carla Castro terá revelado a intenção de apenas sair da vice-presidência da bancada.

Ala conservadora da IL abandona partido. Posição sobre identidade de género foi a gota de água

Após a saída de João Cotrim Figueiredo e o anúncio quase imediato de que Rui Rocha era a escolha da corrente da liderança para uma candidatura, Carla Castro resolveu avançar com uma alternativa, o que, após a derrota, a deixou fragilizada contra uma bancada que está alinhada com a direção. Ainda assim, a deputada manteve o lugar de vice-presidente da bancada que já tinha antes das eleições internas.

Durante o processo interno, Carla Castro foi várias vezes criticada por dirigentes do partido, nomeadamente pelo próprio João Cotrim Figueiredo, que na altura ainda era presidente cessante da IL e que a acusou de falta de hombridade numa entrevista ao Observador. “Apetecia-me perguntar quando é que Carla Castro começou a achar que eu tinha uma gestão autocrática. Devia ter tido a hombridade de me dizer o que pensava. Não gostei e fiquei desagradado”, disse na altura.

Apesar do clima tenso que se viveu durante a campanha eleitoral interna, no final da Convenção eletiva os dois lados mostraram estar alinhados na ideia de que era necessária união dentro do partido e de que seguiriam a trabalhar juntos no dia seguinte. A decisão da liberal anunciada no Twitter mostra agora que não se sente envolvida, recusando manter-se no cargo sem cumprir as respetivas funções.