A região de Lisboa e Vale do Tejo continua sem capacidade para atrair especialistas em Medicina Geral e Familiar, os chamados médicos de família. No último concurso, cujos resultados finais foram conhecidos esta sexta-feira, foram colocados 113 clínicos em Lisboa e Vale do Tejo, o que significa que 81% das vagas ficaram por ocupar naquela que é, com larga diferença, a região do país mais carenciada destes clínicos — com 1,1 milhões de utentes sem médico (dois terços do total nacional).

A percentagem de vagas ocupadas em LVT é muito diferente da da região Norte, por exemplo, em que a quase totalidade dos lugares foi ocupada (o que acontece com frequência).

No total, com 978 vagas a concurso, só 314 médicos foram colocados (32% do total). Na região de Lisboa, apenas 19% dos lugares foram ocupados. No Alentejo e no Algarve, os resultados foram ainda piores: apenas 16% das vagas foram preenchidas (o que equivale a 14 médicos colocados no Algarve e cinco no Alentejo). No Centro, a taxa de colocação foi de 44% (73 médicos). No Norte, vão começar a exercer 109 médicos, que preencheram, quase na totalidade, os lugares disponíveis.

Em comunicado, a Direção Executiva do SNS congratula-se com os resultados. Diz que se “trata do segundo maior número de médicos de família, desde sempre, contratados para o SNS por concurso” e sublinha que estas contratações vão permitir atribuir médico a 500 mil pessoas. Ainda assim, não estando em causa um ganho líquido (não são contabilizadas as saídas para o privado e aposentações, que continuam num nível elevado), os 314 especialistas contratados neste concurso só irão dar resposta a menos de um terço dos utentes sem médico — os dados de abril indicam que há quase 1,7 milhões de pessoas sem clínico atribuído. E se olharmos para a região de Lisboa, os 200 mil utentes que vão passar a ter médico são menos de um quinto do total de utentes a descoberto (1,1 milhões).

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Número de utentes sem médico de família volta a aumentar, são quase 1,7 milhões. “Nada tem sido feito para inverter o rumo”, acusam médicos

Perante a colocação dos 314 médicos, 36 dos quais que estavam fora do SNS, Fernando Araújo salientou, à Lusa, que esses resultados “claramente superam as expectativas” (que passavam pela contratação de 200 a 250 médicos) e que este foi o concurso “mais rápido que foi aberto desde sempre”, cerca de três meses mais cedo do que nos últimos anos.

FNAM diz que concurso foi “um desastre”

Já para a Federação Nacional dos Médicos, o concurso foi “um desastre no Centro e Sul do país”. O sindicato sublinha, em comunicado, que o procedimento concursal ficou “muito aquém das expectativas”.

“A FNAM olha para o desfecho deste concurso com preocupação extrema, que demonstra, mais uma vez, que os médicos estão cansados da falta de condições de trabalho no Serviço Nacional de Saúde, neste caso nos Cuidados de Saúde Primários, sobretudo no Centro e Sul do país”, alerta a FNAM.

O sindicato, liderado pela oncologista Joana Bordalo e Sá, acusa o Ministério da Saúde de ser o responsável pelos resultados, uma vez que “insiste em adiar as negociações em curso, naquilo que é crucial para fixar médicos no SNS”. A FNAM relembra que “tem apresentado propostas concretas, no sentido de se firmar um acordo com grelhas salariais justas, condições de trabalho dignas e medidas que apoiem a parentalidade dos médicos”.