O ex-diretor da morgue da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard, em Boston, e outras seis pessoas estão a ser acusadas de roubo e venda de restos humanos, doados à instituição para fins educativos e de investigação. O grupo fazia parte de uma rede nacional de compra e venda deste pedaços retirados de cádaveres.
Cedric Lodge, de 55 anos, terá aproveitado a sua posição na direção da morgue para desmembrar os cadáveres e vender as partes dos corpos — como cabeças, cérebros, pele e ossos — sem o conhecimento ou autorização de Harvard, avançou a BBC.
Viver com a morte: “Eu não aguento estar aqui”. 85 horas no Santa Maria, parte IV
Durante quatro anos, de 2018 a 2022, o ex-diretor costumava transportar os restos mortais para casa, em New Hampshire, onde em conjunto com a sua mulher, Denise, de 63 anos, organizava a venda para Katrina Maclean e Joshua Taylor, também constituídos arguidos. O restante material era vendido online, através das redes sociais, ou por chamadas telefónicas.
“Por vezes, Cedric Lodge permitia que Maclean e Taylor entrassem na morgue da Harvard Medical School e examinassem os cadáveres para depois escolherem o que comprar. Em algumas ocasiões, Taylor transportava os restos mortais roubados de volta para a Pensilvânia. Noutras, os Lodges enviavam os restos mortais roubados para Taylor e para outros compradores fora do Estado”, pode ler-se na declaração do Ministério Público dos EUA.
Katrina Maclean é proprietária da loja Kat’s Creepy Creations, em Massachusetts, onde transforma bonecas em personagens de terror, cobertas de sangue. De acordo com a BBC, não é claro se as partes dos cadáveres eram utilizadas nos produtos. No entanto, a acusação alega que os restos humanos eram armazenados na loja.
Governo vai apresentar propostas legislativas para combater tráfico humano no desporto
Em outubro de 2020, Maclean comprou por 600 dólares (cerca de 550 euros) dois rostos dissecados a Cedric. Foram depois vendidos a um homem na Pensilvânia para serem transformados em cabedal.
Já Taylor, ao longo de quatro anos, fez 39 pagamentos a Denise no valor total de mais de 37.000 dólares (cerca de 33.888 euros). Um dos pagamentos, feito através do PayPal, seguiu com a descrição “cabeça número 7”. Os quatro arguidos estão acusados de conspiração e transporte entre Estados de bens roubados.
No âmbito da investigação, mais três pessoas foram acusadas: Mathew Lampi, de 52 anos, do Minnesota, Jeremy Pauley, de 41 anos, da Pensilvânia, e uma sétima pessoa, Candace Chapman Scott, que tinha sido anteriormente acusada de roubar e vender partes de corpos de uma morgue em Little Rock, no Arkansas, onde trabalhava.
Político nigeriano acusado de tráfico de órgãos para arranjar rim para a filha com problema renal
Em Harvard, os cadáveres são doados de forma voluntária para serem depois utilizados para fins educativos, de ensino ou de investigação. Quando já não são necessários, são cremados e as cinzas são devolvidas à família do dador ou enterradas num cemitério.
Num comunicado dirigido à comunidade de Harvard, a faculdade de medicina condenou o crime, classificando-o como “moralmente repreensivo”. De acordo com o site, Cedric Lodge foi despedido a 6 de maio.
“Estamos chocados por saber que algo tão perturbador pode acontecer no nosso campus — uma comunidade dedicada a curar e a servir os outros”, escreveram, acrescentando: “Os incidentes relatados são uma traição à Harvard Medical School e, o mais importante, a cada um dos indivíduos que de forma altruísta escolheram doar seus corpos para promover a educação e a pesquisa médica”.