A Polícia Judiciária (PJ) está a investigar suspeitas de ódio racial nos ataques a imigrantes no Porto. A investigação passou para a alçada da PJ porque os crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência, nos quais se inserem os atos de ódio racial e xenofobia que terão, alegadamente, ocorrido nas zonas do Bonfim, do Campo 24 de Agosto e da Batalha, são da sua competência exclusiva.

O Observador apurou junto de fontes da PSP que as autoridades suspeitam do envolvimento do grupo de extrema-direita 1143 nos ataques. Este grupo foi formado em 2003 e ficou conhecido mediatamente por ser associado ao neonazi Mário Machado.

Na freguesia do Bonfim, existirá, desde há algum tempo, tensão entre este grupo e a comunidade imigrante de origem asiática, que aí tem alguma representação. Uma das vítimas agredidas queixou-se à PSP de que os agressores proferiram insultos racistas e xenófobos enquanto o agrediam, sendo essa prova testemunha a base da investigação pelo crime de discriminação e incitamento ao ódio

Por outro lado, estão a ser igualmente investigados indícios de que uma série de furtos na freguesia do Bonfim poderão ter ligação aos três ataques a imigrantes acima referidos. Várias fontes de diferentes autoridades referiram ao Observador que os comerciantes da zona se queixam de furtos regulares e suspeitam da comunidade imigrante, aparecendo os ataques como uma espécie de resposta. Contudo, esse indícios ainda carecem de confirmação e serão também uma da linhas de investigação da PJ.

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Detido agrediu imigrante com bastão e foi apanhado em flagrante delito

Na sequência dos ataques, uma pessoa foi detida pelas autoridades após ser apanhada em flagrante delito a agredir um imigrante com um bastão. O suspeito ficou em prisão preventiva por ordem judicial, avançou à agência Lusa uma fonte oficial da PSP. Outras cinco pessoas foram identificadas por suspeitas de ligação aos crimes.

O Serviço de Informação de Segurança (SIS), ao contrário do que tem sido avançado, não está envolvido na investigação, uma vez que a lei impede que participe em investigação criminais. O trabalho do SIS limita-se à recolha de informações em termos preventivos.

Grupo munido de bastões e facas agride imigrantes argelinos no Porto

Os ataques, que ocorreram esta sexta-feira à noite no Porto, foram condenados por Marcelo Rebelo de Sousa e pelo Governo. O Presidente da República sublinhou a “veemente condenação da violência racial e da xenofobia, práticas sem lugar na sociedade portuguesa”, enquanto Luís Montenegro reafirmou “tolerância zero ao ódio e violência xenófoba”.

Presidente da República e Governo condenam ataques racistas. As reações às agressões de imigrantes argelinos no Porto

Autarca do Bonfim diz que ataques são “um atentado contra a liberdade”

João Ricardo Aguiar, presidente da Junta de Freguesia do Bonfim, condena os ataques e diz que não existe “justificação possível” para as agressões. “Ninguém pode estar na sua casa e ser invadido e agredido. É um atentado contra a liberdade, contra tudo o que ainda agora festejámos nos 50 anos do 25 de Abril”, afirma, em declarações à Rádio Observador.

O autarca assume que existem alguns grupos — que dizem ser “organizados” — que “têm contribuído para alguma insegurança com pequenos delitos, assaltos” na região. Mas admite que não consegue chegar a uma conclusão quanto ao que terá levado aos ataques: “A nossa freguesia é multicultural, nunca tivemos qualquer tipo de situação constrangedora, sempre houve uma boa convivência com tudo e com todos”.

Nos últimos tempos, segundo João Ricardo Aguiar, as forças de segurança têm destacado elementos para fazer patrulhamento na região do Bonfim, mas os moradores consideram que é “insuficiente”.

“Os comerciantes dizem-me: a polícia aparece fica tudo muito tranquilo, a polícia vira costas e passado uns minutos começam os desacatos entre os próprios grupos”, descreve o autarca, acrescentando que a presença mais assídua das autoridades “foi um fator dissuasor”. Isto, considera, é uma “prova dada de que se existir mais patrulhamento” será possível “mitigar toda esta situação” de crimes.

Ainda assim, reconhece que a falta de efetivos não é um problema exclusivo do Bonfim, mas sim “transversal, nacional”.