Abdul Bashir, acusado pelo Ministério Público de 11 crimes, começou a ser ouvido esta quinta-feira. O afegão — acusado da morte de duas mulheres com uma no Centro Ismaili em março de 2023 — esteve presente em tribunal e, inicialmente, alegou estar demasiado medicado, não tendo condições para prestar esclarecimentos, segundo o Correio da Manhã. Ao longo da manhã, o arguido decidiu falar, alegando que agiu depois de uma das mulheres o ter esfaqueado primeiro. O advogado de uma das vítimas anunciou que irá pedir a pena máxima caso se prove que Bashir não é inimputável.

A primeira sessão do julgamento do homem que matou duas mulheres com uma arma branca a 28 de março de 2023 teve início pelas 9h30 desta quinta-feira no Juízo Central Criminal de Lisboa, no Campus de Justiça, e previa-se que terminasse pelas 14h. Bashir é acusado de dois crimes de homicídio grave, seis de homicídio agravado na forma tentada, dois de resistência e coação sobre funcionário e um de posse de arma proibida.

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Esta manhã, depois de se sentar no banco dos réus, o afegão começou a explicar como e onde esfaqueou as duas mulheres. Ao ouvir as suas declarações, o tradutor que o acompanha desde o interrogatório (e que tinha sido nomeado pelo tribunal) começou a chorar. De acordo com a CNN, o homem, que conhecia e trabalhava com as vítimas, terá tapado a cara com as mãos e chorado sem controlo. Por esse motivo, a sessão foi interrompida durante 10 minutos.

Quando o julgamento foi retomado, o afegão afirmou ter agido depois de uma das mulheres presentes no Centro Ismaili o ter esfaqueado. O arguido disse ainda que várias pessoas desse local tinham um plano para o matar. Por esse motivo, Bashir agarrou na faca que transportava com intenção de se defender e porque sentiu a sua vida em perigo. Relatou que, desde janeiro de 2023, começou a transportar consigo uma faca de cozinha porque sentia que a sua vida e a da família estavam em perigo, acrescentando, no entanto, que já desde 2021 seria alvo de ameaças de morte.

Após ter sido detido em março do ano passado, o afegão ficou sujeito a medida de coação de internamento preventivo no hospital psiquiátrico prisional de Caxias por sofrer de doença mental. “O arguido padecia, à altura dos factos, e ainda padece de anomalia psíquica, desde logo um quadro psiquiátrico de esquizofrenia e de uma perturbação da personalidade mista, designadamente perturbação de personalidade narcisista e perturbação de personalidade antissocial, pelo que foi requerida a declaração da inimputabilidade”, indicava à época a nota do Departamento Central de Investigação e Ação Penal divulgada em março deste ano e citada pela agência Lusa.

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Bashir queria ser baleado e morto pela polícia

Segundo a explicação dada pelo arguido esta quinta-feira enquanto estava no banco dos réus, havia uma conspiração montada pela família Aga Khan para o matar e as duas mulheres faziam igualmente parte desse plano, bem como o presidente do conselho do Centro Ismaili e o representante político da família Aga Khan.

Depois de relatar todo o percurso que fez desde que saiu do seu país natal, o Afeganistão, e chegou a Portugal, o arguido contou que a sua relação com o Centro Ismaili tinha a ver com o facto de esta instituição estar a acompanhar o seu processo ao abrigo da recolocação de refugiados.

Disse que a pessoa com quem tinha mais contacto era a assistente social, Mariana, uma das vítimas mortais, e admitiu que tanto com ela como com a outra vítima, Farana, trocou “mensagens amorosas”, negando que alguma vez esta última lhe tenha pedido para parar. O arguido contou que também trocou mensagens com a “princesa Aga Khan” e que quando a família Aga Khan descobriu começou a ameaçá-lo, razão pela qual passou a andar sempre com uma faca de cozinha consigo, que transportava numa mochila.

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Referiu que tanto Mariana como Farana o incomodavam muito e falavam com ele “muito agressivamente”, e que essa agressividade o levou a acreditar que tinham uma arma e que iriam atacá-lo. Reafirmou por várias vezes que havia um plano para o matar, motivado também pelo facto de a família Aga Khan ter descoberto que os filhos do arguido “não eram muçulmanos verdadeiros”. Disse também que queriam matá-lo para lhe tirar os órgãos e afirmou que no hospital lhe retiraram um rim e um testículo.

Bashir contou ainda que no dia do crime, depois de ter esfaqueado as duas mulheres, saiu do gabinete e esfaqueou “duas ou três vezes” Diogo, o professor de português, quando este tentou sair da sala onde estava a dar aulas. De acordo com o arguido, também o professor o havia anteriormente ameaçado “várias vezes”, tendo dito “mais ou menos 20 dias antes do crime” que ia comprar uma pistola e que o iria matar. Segundo o afegão, a sua intenção ser baleado e morto pela polícia.

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Bashir “tem plena consciência do que fez”, diz advogado

Em declarações aos jornalistas no final da primeira parte da sessão de julgamento, o advogado de uma das vítimas, Miguel Matias, apontou que se trata de um processo complicado do ponto de vista humano e pela dificuldade em aferir os motivos pelos quais o arguido matou duas pessoas e feriu outras seis no dia 28 de março de 2023.

Para o advogado, Abdul Bashir “tem plena consciência do que fez, embora não esteja arrependido porque arranja sempre outros argumentos” e disse que irá confrontar os peritos para confirmar a declaração de inimputabilidade, pedida pelo Ministério Público.

“Se se vier a verificar a prova, se este indivíduo não for declarado inimputável, atendendo aos crimes que estão em causa, naturalmente que a pena de 25 anos de cadeia será correta”, afirmou Miguel Matias, acrescentando que acredita que será também essa a intenção do Ministério Público.

Atualizado às 17h12