Mais tarde do que o habitual, a comunicação diária de Venâncio Mondlane não trouxe o anúncio da “Ponta de Lança”, a “reta, a batalha final” no processo de contestação dos resultados eleitorais que dão a Presidência de Moçambique a Daniel Chapo, da Frelimo, o partido no poder há 49 anos.
Invocando “milhares de mensagens e e-mails” a pedir uma trégua nos protestos, para “enterrar os mortos” e “identificar corpos que estão a encher as morgues”, o candidato independente — que, a partir do estrangeiro, tem mobilizado há mais de dois meses as ruas de Moçambique, que explodiram em manifestações e repressão policial violenta — adiou para dia 2 de janeiro a tal fase derradeira deste processo.
Para já, os próximos dias serão para unir os moçambicanos. “Na primeira etapa das manifestações, havia um espírito de irmandadade, cantávamos o hino nacional de mãos dadas, tocavam-se as panelas, os vizinhos juntavam-se, o patriotismo estava a crescer, não havia distinção entre os moçambicanos”, lembrou.
Mas, assinala, “agora o partido que está a gerir o país está a dividir os moçambicanos”. Mondlane acusa, uma vez mais, a Frelimo de criar um clima de medo e terror para impedir as pessoas de exercerem o seu direito à manifestação. “Foi tudo provado, foram atacar as empresas, as fábricas, os armazéns de empresários nacionais para depois criar uma história de que as pessoas que se estavam a manifestar estavam a assaltar os armazéns e a destruir projetos de anos de certos empresários e pessoas. O regime soltou presos, quando saíram da cadeia já tinham catanas, esses presos já andavam nos bairros, o [regime] foi queimar uma aldeia a dizer que há manifestantes“, denunciou.
E esta segunda-feira, “dizendo que está a recuperar reclusos, leva jovens para cadeias da máxima segurança”, onde, adianta Mondlane, são “torturados”. “Há relatos, há vídeos, onde dizem para eles correrem e depois são regados com balas”, continua. E “há pessoas que são enterradas vivas porque dizem que com balas não morrem”, acrescentou, possivelmente a referir-se aos chamados naparama, que acreditam que depois de se sujeitarem a uma magia são imunes às balas.
Responsabilizando uma vez mais a Frelimo por “assassinar e sequestrar moçambicanos”, aludiu a imagens que têm circulado esta semana da baixa de Maputo onde se veem homens com coletes refletores a golpear pessoas sem abrigo. “São pessoas, sem teto, meninos da rua que estão a ser agredidos e torturados porque dizem que são reclusos — moçambicanos estão-se a matar uns aos outros porque desconfiam que são reclusos ou ‘homens catana’“.
No entanto, garante Mondlane, “o moçambicano já se apercebeu que é um jogo de quem não quer sair do poder, todo este esquema é para criar ambiente de terror e medo para não exercerem o seu direito de se manifestar. Para criar a ideia de que as manifestações estão ligadas ao vandalismo, ao terror, empresários acham que são os manifestantes que destruíram o seu negócio, quando o governo usou a polícia para assassinar e aterrorizar a sua própria população”.
Uma coisa é certa: “Andamos todos com medo, amedrontados, ou é a polícia que vem sequestrar o nosso filho que dizem que é recluso ou então são as pessoas que dizem que estão a fazer patrulha com elementos da policia que torturam pessoas na rua”.
Por isso, para tentar acabar com esta divisão, para “fugir a este terror”, Mondlane convoca novas manifestações: “No dia 31, às 23h45, vamos voltar a ser o povo que tinha amor uns pelos outros,vamos cantar o hino nacional até à viragem do ano”, pediu. Desafiou também as “mamãs a cozinharem nas ruas, nos bairros”.
Na tarde em que os quatro partidos da oposição se voltaram a reunir com o Presidente Filipe Nyusi, Mondlane fez questão de dizer que sempre esteve aberto ao diálogo. Porém, “até hoje nem o Presidente nem a Frelimo se mostraram disponíveis para o diálogo, mesmo em instituições internacionais que se ofereceram para intermediar”.
Algum tempo depois, chegava a resposta de Nyusi: não afasta o apoio estrangeiro mas diz que as soluções terão de ser encontradas pelos moçambicanos.