Várias mulheres acusaram o escritor Neil Gaiman de agressão sexual numa reportagem que é tema de capa da revista New York Magazine. No ano passado, já cinco mulheres tinham acusado o renomado autor britânico, de 64 anos, de agressão sexual e má conduta sexual.
A reportagem desta segunda-feira dá conta de oito mulheres diferentes — quatro delas já tinham vindo a público no podcast Master: the Allegations Against Neil Gaiman, do projeto de jornalismo independente Tortoise, o primeiro meio a reportar sobre as denúncias contra o escritor, em julho de 2024 — a acusarem o escritor. A BBC escreve que em janeiro de 2023 houve uma queixa na polícia a acusá-lo de agressão sexual, mas que “a investigação acabou por ser arquivada”.
As alegações recuam até 1986, mas também incluem casos ocorridos em 2022 e envolvem mulheres com idades entre os 22 e os 55 anos. “Todas elas estavam na faixa dos 20 anos quando conheceram Gaiman. A mais nova tinha 18 anos. Duas delas trabalhavam para o escritor. Cinco eram fãs”, lê-se no artigo publicado pela revista norte-americana. Quase todos os episódios terão acontecido quando o autor já tinha mais de 40 anos e vivia entre os Estados Unidos, o Reino Unido e a Nova Zelândia. A New York Magazine teve acesso aos diários das alegadas vítimas, mensagens de texto trocados com amigos, mensagens de texto trocadas entre as mulheres e o escritor e documentos obtidos junto da polícia.
A reportagem descreve em pormenor as experiências de quatro mulheres que afirmam que o autor de Deuses Americanos tinha “problemas de limites” e que as “controlava para obter intimidade”. Uma delas, Scarlett Pavlovich, tinha 22 anos quando conheceu a ex-mulher de Gaiman, Amanda Palmer, na Nova Zelândia, com quem travou amizade. Foi num dia em que Palmer pediu a Pavlovich para tomar conta do filho de cinco anos que esta tem com o escritor que a jovem o conheceu, recorda. Foi nessa ocasião que o autor britânico a terá agredido sexualmente numa banheira no jardim, alega. Gaiman recusou prestar declarações à revista, limitando-se a negar a acusação.
As primeiras alegações contra o escritor surgiram em julho, no podcast Master: the Allegations Against Neil Gaiman, que ouviu duas mulheres que acusam Gaiman de agressão sexual. Pouco depois, uma terceira mulher também acusou o escritor no podcast Am I Broken: Survivor Stories, sobre vítimas de abuso. Outras duas mulheres acabaram por relatar experiências semelhantes com o escritor num episódio seguinte do podcast Master, revelando que tinham até assinado acordos de confidencialidade. Em todos estes momentos, Gaiman negou veementemente quaisquer alegações de sexo não consensual.
Os representantes de Gaiman disseram então que “degradação sexual, escravatura, dominação, sadismo e masoquismo podem não ser do agrado de todos, mas entre adultos que consentem, o BDSM é legal”. De acordo com o artigo da New York Magazine, todas as alegadas vítimas assumem que, a dada altura, concederam em chamar ao escritor “mestre” (como este desejava) e mantiveram comunicação com ele, mas que não consentiram uma série de “atividades específicas” antes de estas acontecerem. A reportagem dá também conta que as mulheres ouvidas “não sabiam da existência umas das outras até terem ouvido o podcast” e que, desde então, formaram um grupo de WhatsApp e tornaram-se próximas. “Tem sido como conhecer sobreviventes do mesmo culto”, diz uma das alegadas vítimas. “É impossível compreender, a menos que se tenha estado lá”.
Autor de mais de uma dezena de livros, Neil Gaiman tornou-se uma figura de culto com a publicação, em co-autoria com Dave McKean, da novela gráfica Sandman. Algumas das suas obras, sobretudo no género do fantástico, foram adaptadas ao cinema e à televisão com grande sucesso — como a série da Netflix Sandman. Em Portugal, nos últimos anos, os romances — obras consagradas e bestsellers — têm sido publicado pela Editorial Presença.
“A multidão literária que teve muito a dizer sobre Harvey Weinstein antes de ele ser condenado tem estado estranhamente silenciosa na sua reação às múltiplas acusações contra Neil Gaiman, feitas por jovens mulheres que nunca se conheceram, mas que — tal como no caso de Weinstein — contam histórias muito semelhantes”, acusou a escritora também britânica J. K. Rowling esta segunda-feira, na rede social X.
The literary crowd that had a hell of a lot to say about Harvey Weinstein before he was convicted has been strangely muted in its response to multiple accusations against Neil Gaiman from young women who'd never met, yet – as with Weinstein – tell remarkably similar stories.
— J.K. Rowling (@jk_rowling) January 13, 2025
Apesar de as primeiras alegações contra o escritor terem surgido no verão, o caso tem tido pouca tração mediática. No entanto, em setembro, a Disney decidiu interromper a produção de um filme baseado num livro do escritor, que é embaixador da Boa Vontade do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). A segunda temporada de Sandman, da Netflix, ainda não tem data de estreia.