O mau tempo adiou a estreia, o dia extra de espera gerou tudo menos maior ansiedade. Apesar de estar ainda a fazer a estreia no quadro principal do Open da Austrália, depois de se ter tornado apenas o décimo tenista português a entrar em Grand Slams, Jaime Faria teve uma exibição de sonho frente ao russo Pavel Kotov. Sem medos, a jogar o melhor que sabe, a soltar desde cedo o seu jogo com um duplo 6-1 a abrir que deixou o adversário sem capacidade de reação, a tomar conta do court fazendo imperar a ideia que trazia para o jogo. Aos 21 anos, mais parecia um daqueles tenistas batidos que entram num Major para passar a ronda inicial sem sobressaltos e começar a ver logo mais à frente. No entanto, e se Nuno Borges poderia ambicionar a mais tendo em conta que defendia os pontos de uma ida à quarta ronda em 2024, aqui o cenário era outro.

Ganhou com um ás, fez a máscara de Gyökeres, festejou com a equipa: Jaime Faria cresceu entre museus mas também quer mostrar a sua arte

Depois de vencer o norte-americano Nishesh Basavareddy perdendo o primeiro set, naquele que foi o teste inicial tendo o antigo número 1 mundial Andy Murray como treinador, Novak Djokovic marcou presença na segunda ronda para defrontar o português vindo do qualifying, que ganhou pela primeira vez dois torneios do circuito challenge no ano passado entre a estreia por Portugal na Taça Davis. Melhor cenário para Jaime Faria aparecer seria complicado, tendo em conta que enfrentava o jogador com mais Grand Slams de sempre e com mais triunfos no Open da Austrália. Onde uns podiam ver crise, o 125.º do ranking mundial ATP percebia estar uma oportunidade, ainda para mais podendo jogar na mítica Rod Laver Arena em Melbourne.

“Foi uma boa estreia. Entrei bem nos primeiros dois sets. No terceiro ele complicou-me um bocadinho a vida, começou a servir melhor, logo aí o jogo ficou mais taco a taco, não consegui fazer o break logo no início mas consegui fechar no final do terceiro set. Agora segue-se o jogo com o Djokovic, de madrugada em Portugal e Às 14h daqui. Vai estar calor, vai ser um bom encontro, num estádio em que é um sonho poder jogar, ainda por cima contra o melhor de todos os tempos. Agora vai ser uma noite atribulada mas vou tentar descansar ao máximo”, salientou o jovem jogador nacional à Lusa depois do triunfo frente a Pavel Kotov.

Em paralelo, e depois de ter festejado o triunfo mais uma vez a fazer a máscara de Viktor Gyökeres, Jaime Faria, sportinguista confesso, fez uma comparação sobre o que estava em causa e revelou ter recebido uma mensagem do avançado sueco depois de ter passado a fase de qualificação. “Tenho de encarar isto como uma grande oportunidade e uma grande experiência. É mais ou menos como quando o Sporting vai jogar a Anfield ou ao Bernabéu. É assim que tenho de encarar, sou underdog mas é possível”, contou ao Raquetc. “Recebi uma mensagem dele [Gyökeres] quando passei a fase de qualificação,. Mandou-me e por isso é que entrei assim, 6-1 e 6-1. Foi de rompante por causa dele Desejou-me as melhores das sortes e disse que ia estar a acompanhar e que esperava que ganhasse muitos jogos na Austrália”, disse à Renascença.

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Apesar de haver essa possibilidade real de ambos os portugueses estarem a jogar à mesma hora, era em Jaime Faria que recaíam a maior parte das atenções, sempre com aquela esperança de que a edição histórica ainda tivesse mais um capítulo. “O Jaime tem feito uma excelente campanha. É o momento de ele desfrutar destes dois dias, em que vai preparar da melhor maneira este encontro, junto da sua equipa. Eles têm feito um excelente trabalho, não só esta semana, como na época passada e o Jaime tem vindo a evoluir muitíssimo. Acho que ele deve estar focado. Contra o Djokovic não tem nada a perder”, referira João Sousa, melhor português de sempre que agora é diretor de comunicação dos jogadores do ATP Tour, à Lusa.

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E para tornar tudo ainda mais perfeito, até o comentador da ESPN ajudava à “festa”: John McEnroe, antigo número 1 mundial norte-americano que Jaime Faria viu jogar no Algarve quando decidiu que queria fazer uma experiência no ténis. “É muito bom porque queremos fazer parte desses grandes momentos, é para isso que olhamos e tentamos imaginar-nos”, contou o português à página oficial da ATP, recordando o encontro de Djokovic nas meias-finais de 2011 em que bateu Roger Federer após salvar dois match points. Nesse ano, o sérvio ganhou pela primeira vez em Melbourne. Agora, chegava com dez títulos no Happy Open, tendo pelo meio a polémica edição em que foi repatriado do país por não estar vacinado contra a Covid-19.

Não foi o Djokovic de outros tempos apesar do muito apoio com bandeiras sérvias nas bancadas, também não foi a pior versão do antigo número 1 em Melbourne. Um pouco à semelhança do que aconteceu logo na primeira ronda, foi o suficiente para ganhar e garantir a passagem à fase seguinte frente a um Jaime Faria que acabou a não fazer a célebre máscara de Gyökeres mas mereceu os elogios que ouviu no final.

Depois de ter começado com um jogo de serviço do sérvio em branco e com um triunfo no seu primeiro jogo de serviço, o português beneficiou de um ponto de break não concretizado na terceira partida e viu depois Djokovic fazer o 3-1, num momento que acabou por definir o primeiro set que terminou com 6-1. No parcial seguinte, a história mudou: apesar de ter sofrido um break logo a abrir, Faria quebrou duas vezes o serviço ao antigo número 1 mundial, desaproveitou um set point no 12.º jogo com o sérvio a servir mas ganhou de seguida o tie break por 7-4, fechando com um amorti que ficou como um dos momentos do jogo.

Voltava tudo à estaca zero, com Djokovic a ter de puxar pela sua melhor versão para conseguir a passagem à terceira eliminatória do Open da Austrália. Sem pontos de break durante quase todo o terceiro set, tudo ficou decidido com a quebra do serviço no sexto jogo que permitiu ao sérvio fechar com 6-3 antes de entrar com mais um break no quarto set que decidiu quase em definitivo um parcial que fecharia com 6-2 ao fim de três horas e um minuto de jogo. Imperou a lei do mais forte, entre os elogios de Djokovic no final.

“Nas sábias palavras do senhor Daniil Medvedev, se a geração futura jogar desta forma terá tudo. Dinheiro, raparigas, casino… Ele [Faria] estava a jogar ténis intensamente no final do segundo set e no início do terceiro, tive de aguentar. Praticamente, serviu dois primeiros serviços em toda a partida. Um sujeito grande e muito jovem, com 21 anos. Aquilo que lhe disse no final na rede é que o futuro será risonho e que ele deve continuar”, comentou após o encontro Novak Djokovic, que perdeu pela primeira vez um set frente a um jogador português mas passou à terceira ronda, onde irá defrontar o checo Tomas Machac, 26.º do ranking que na última época teve uma grande vitória frente ao sérvio nas meias do Open de Genebra.