Vítor Machado diz ter sido o “112 do Bloco de Esquerda” durante vários anos, com funções dentro do partido que variavam entre trabalhos de técnico de som até guiar os deputados quando estes se deslocavam por todo o país. À revista Sábado diz que esteve dois anos a receber “pouco mais de 700 euros” de uma avença e recorda que o seu ordenado era composto por mais 400 euros em notas.
Uma outra pessoa recebia uma avença da Assembleia Municipal de Lisboa (AML), mas “não aparecia por lá”, e então entregava-lhe esta quantia em dinheiro vivo, depois de efetuar os devidos descontos, contou à revista.
Em 2009, acabou por entrar para os quadros do BE e aí se manteve durante seis anos, nas tais alegadas funções de “faz-tudo”. Segundo descreve a Sábado, em janeiro de 2015, o antigo funcionário recebeu a notícia de que iria deixar de ter um lugar efetivo porque o partido estava a enfrentar dificuldades financeiras.
Foi-lhe proposto um lugar na assessoria do BE na AML. Vítor Machado percebeu, pouco depois, que tinha estado envolvido numa troca direta de postos de trabalho. “Ao mesmo tempo, uma pessoa que estava na AML, a Filipa Gonçalves, que estava grávida, passou para os quadros do partido. Foi uma troca comigo. Ela tinha uns 29 anos, eu tinha 51″, assegurou.
O ex-funcionário diz ter falado com Catarina Martins, então líder do partido, para lhe perguntar porque é que tinha sido ele o escolhido para sair dos quadros perante a incerteza financeira. “Respondeu-me que não tinham dinheiro e que eu tinha de passar para a AML, que fora uma decisão da comissão política”, recorda.
Para isso, Vítor Machado diz que foi instruído a acionar o subsídio de desemprego no dia a seguir à saída oficial do partido e a suspendê-lo três semanas depois, quando entrasse na AML.
Mais uma vez, viu-se na posição de o seu ordenado surgir na forma de avença, e desta vez, o seu valor era 300 euros inferior ao que ganhava há vários anos enquanto efetivo. Mas o Bloco disse ter maneira de o compensar. “Num restaurante, ou num supermercado, pedia a fatura com o NIF do BE e depois apresentava-a no partido e recebia”, descreveu. Acabou por deixar de alinhar nesse esquema de pagamento através de faturas porque o seu contabilista o alertou para o facto de estar a ser prejudicado a título individual.
“Queriam dar-me uma indemnização de 10 mil euros, mas tinha de passar recibo e pagar impostos sobre isso”
Recebeu através de avença, até 2016, quando o BE o chamou para uma reunião em que, recorda, estavam presentes tanto Joana Mortágua como Fabian Figueiredo, atuais deputados do Bloco à Assembleia da República. A ideia era dispensá-lo.
“Em compensação pelos 10 anos de partido queriam dar-me uma indemnização de 10 mil euros. Mas eu tinha de passar um recibo verde, ou seja, ia pagar impostos sobre isso. Levantei-me e fui-me embora”, descreveu, lembrando que se sentiu humilhado e que só quando lhe propuseram o valor de 12 mil euros para compensar os impostos que teria de pagar é que aceitou.
Considera que teria direito a uma indemnização maior se não tivesse sido removido dos quadros pouco antes de ser convidado a sair e confessou ainda à Sábado que, atualmente, ainda está sem emprego e que passa “muitas dificuldades.”
Esta quinta-feira, em declarações aos jornalistas na Assembleia da República, Mariana Mortágua referiu-se ao caso de Vítor Machado enquanto uma “situação passada há 10 anos”. “Tanto quanto sei as divergências entre esse antigo funcionário e o Bloco de Esquerda são conhecidas e até saíram na imprensa há alguns anos”, recordou. O Nascer do Sol tinha avançado a notícia em 2022.
O Observador procurou esclarecimentos adicionais junto da partido, mas até ao momento não obteve resposta.