Lembro-me de ser criança, no início do milénio, e de lhe pegar num livro. Devo tê-lo apanhado numa biblioteca como poderia ter apanhado outro. Não sei agora qual era, que as décadas passaram, mas lembro-me de estar sentada na cama a usá-lo para exercícios. Usava outros também, os óbvios: Camões, Bocage, Pessoa, Júlio Dinis. Em cada um, alguma coisa diferente me encantava; todos juntos compunham uma visão panorâmica, e o que eu encarava como a técnica toda que eu tinha de aprender. Em Teresa Horta, encantavam-me o traço cirúrgico, a delicadeza omnipresente. Como, nessa fase, a escrita passa por inspiração a partir de outra técnica ou mesmo imitação, Maria Teresa Horta incluiu-se no meu vasto leque de professores que os escritores costumam ter.
Nessa altura, o seu nome era para mim um igual a tantos – um nome que assinava um livro, sem história, sem rosto. Por isso, o que as suas páginas me davam valia pelo que lá estava e nada mais, e o que eu valorizava era a candura escorreita, o manejo elegante da língua como quem pega nas rédeas de um cavalo. A leitura sabia-me a isso: pegava numa palavra e as seguintes deslizavam, e nesse movimento vinha uma frase, um movimento, uma ideia – um mundo. O trabalho feito com as mãos era um trabalho de artesã, as frases estavam limadas até à depuração, e ao fim de cada linha assistia-se à formulação de uma coisa pura. Cada poema era uma bola de sabão perfeita – beleza clara a cintilar, imprópria para ser tocada por mãos sujas.
Só mais tarde, já não sei quão tarde, viria a saber que o nome que assinava os livros era um que a ditadura tentara apagar da vida pública. Não foi só por isso – pelo combate a esse intuito – que sobreviveu. Foi porque a autora fez uma literatura cheia de técnica e de vida. Neste pós-morte, acredito que serão várias as referências a uma ideia de literatura de resistência. Parece-me errado, e sobretudo parece-me pouco. A escrita durante o Estado Novo, à partida, tinha de ser manca: os censores gostavam de cortar pernas aos textos, e volta e meia também batiam nas pernas dos autores. A propósito de Minha Senhora de Mim, publicado em 1971, Maria Teresa Horta relataria episódios de violência na rua, assim como telefonemas a insultá-la. Tudo isso pela escrita e pela publicação de poemas que hoje seriam visto como inócuos, sendo que o hoje, claro, já conta com o passado que nos trouxe até aqui, com as barreiras que caíram, com os edifícios que foram entretanto erguidos. É esse caminho que marca a diferença, mais do que a inevitável passagem do tempo – e é esse caminho, claro, que veste de inocuidade o que um dia fez mossa.
▲ A capa de "Minha Senhora de Mim", de Maria Teresa Horta, livro publicado em 1971 pela Dom Quixote
No livro, que tem 59 poemas, a autora, usando a forma poética das cantigas de amigo medievais, subverte-as. Regra geral, essas cantigas eram escritas por homens, mas a voz era feminina, e o tema era quase sempre o mesmo: a solidão, a ausência do amigo, a devastação de uma mulher sem um homem ao lado. Enfim, no subtexto, estava a ideia de um pescoço sem cabeça. No livro de Maria Teresa Horta, a voz continua a ser feminina, mas, ao invés de aceitar a submissão, submete, através do imperativo constante. E com isto, touché, que grande novidade, as mulheres aparecem não só como sujeitos poéticos mas também como pessoas inteiras – alguém que existe em vida própria.
Diga-se o óbvio: 1971 dista de 2025. Atenta ao mundo, e jornalista, certamente Maria Teresa Horta conseguiria adivinhar a recepção do livro naquele Portugal tacanho, naquela mentalidade fechada, naquela forma de ver o mundo que destinava a produção simbólica aos homens e a cozinha às mulheres, em parte pelo óbvio pendor erótico. Mas dizia eu que seria pouco e parco encarar a escrita de Horta como escrita de resistência, palavra tantas vezes associada a quem confronta um poder instituído. Além disso, implicaria apenas a resposta a uma agência, ao invés do movimento de agir, de propor. E Maria Teresa Horta, ao invés de resistir, avançava; mais do que empunhar uma bandeira contra os passos do conservadorismo, mais do que querer guardar o que tinha e se recusava a perder, andava em frente e propunha uma vida. Não deixava a agenda do debate sobre a vida nas mãos de outros, respondendo-lhes – criava o seu.
O seu nome, no cenário da ditadura e do pós-ditadura, implica um avanço rumo aos direitos humanos e a condições de partida semelhantes, independentemente dos sexos, e desengane-se quem achar que o simbolismo vale pouco. No caso, o simbolismo valeu-nos uma herança literária que nos dá muito sobre a história de um regime. Em vez de resistir ao patriarcado que, na prática, lhe tiraria a caneta das mãos (e muitos foram os comentários sobre a mulher que dirigira um cineclube, sobre a mulher que escrevia o verso tal, sobre a mulher que criava a ideia tal), a autora desafiava-o. No que escrevia, as mulheres eram donas de si, procuravam a independência, não se sujeitavam às mãos dos homens. É também costume falar-se em denúncia via literatura nos casos em que a política se imiscui a sério na produção cultural. Mais uma vez, Maria Teresa Horta ia além disso: reclamava um lugar social para as mulheres ao invés de descrever o que ocupavam na altura e, no que toca às questões da sexualidade, não apenas contestava a ideia de Virgem Maria associada a todo um sexo como punha as mulheres no centro da relação sexual.
Enfim, não espanta que gente como César Moreira Baptista, censor literário e sub-secretário de Estado da Presidência do Conselho, tenha tentado activamente boicotar a sua carreira literária. O que tem mais graça é que, incapaz de o conseguir, não tenha conseguido entender que, a longo prazo, a censura é coisa para dar fogo. Aliás, logo após a censura de Minha Senhora de Mim, e dada a confusão que dali viera, surgiu a ideia de Novas Cartas Portuguesas (1972): se um livro escrito por uma mulher resultava naquilo, que seria de um escrito por três? E assim se juntaram textos de Teresa Horta, Isabel Barreno e Velho da Costa: as três Marias.
▲ A capa da edição comemoratiava dos 50 anos de "Novas Cartas Portuguesas", de Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa
Já muito foi escrito sobre este volume incomparável na história literária em língua portuguesa, e muito mais se escreverá agora. Em primeiro lugar, salta à vista o óbvio: o livro, composto por vários pequenos textos, de vários géneros, desafia as noções de autoria, uma vez que as autoras, editadas por Natália Correia (a autora mais censurada pela PIDE), nunca divulgaram quem escreveu o quê. Em segundo, talvez salte à vista o mosaico que o livro compõe: com várias mãos, três cabeças, três formas de encarar os textos, faz um retrato abrangente não do papel da mulher no Estado Novo, como se dirá, mas sobre a vida no Estado Novo. É que fazer a divisão estrita por sexos transforma o assunto em nicho, mas Novas Cartas Portuguesas só diz sobre a vida das mulheres porque diz sobre a ordem de um país, da mentalidade de um povo e do seu governo.
Além disso, ao dizer sobre a vida e o papel das mulheres, também conta o dos homens. Com tudo isto pesado, a literatura desafiava não só os cânones literários (pondo a produção simbólica em mãos em que o Estado Novo não a queria, escrevendo sem assinar, criando novos sujeitos literários), como afrontava uma ordem social. É literatura que faz mais do que contar a vida: conta-a exigindo um lugar no mundo, recusando a sombra, a sala de estar, a lassidão, a ordem simbólica das estruturas da sociedade patriarcal.
São estas questões sociais que dão vida a Maria Teresa Horta no pós-morte. A literatura inerentemente política, de confrontação directa, terá sempre a esperança média de vida de um panfleto: cumpre um papel imediato, mas implica sempre o simplismo da troca de ideias. Uma criação literária com vida própria faz outra coisa: cria um sistema paralelo, uma realidade autónoma. Ora, partindo da vida, Maria Teresa Horta fez essa realidade autónoma, e depois do 25 de Abril continuou a fazê-lo, transformando-se numa das autoras mais ricas da viragem do século, com uma obra literária longa, densa, múltipla, sendo um caso singular na produção literária lusófona.
Enfim, passaram os anos, passou a ditadura. Hoje, parece-me que Maria Teresa Horta ainda tem muito a dizer ao mundo. Sempre que se fala de “escritoras mulheres” ou de “literatura feminina”, desqualifica-se o trabalho que é feito com as mãos, não com o útero. Sempre que se faz de uma tema um “tema feminino”, desqualifica-se uma autora – e com essa vão todas atrás. É que tudo isto acontece: Goethe escreve Werther e temos um livro sobre amor; uma autora faz coisa parecida e a recepção é clara, implacável, enviesada: de repente, o que ali está é visto como um livro sobre o amor feminino ou a experiência feminina.
Da literatura escrita por mulheres espera-se o mesmo que da literatura escrita por homens: técnica, ritmo, capacidade de manipular o leitor, a criação de um mundo paralelo. A coetaneidade inclui ainda os seus problemas também na própria produção: personagens masculinas descritas pela roupa, pela profissão, pelas ideias, pelos actos; personagens femininas descritas pelo corpo. E se é fácil olhar para isto como um problema político (o tratamento diferente consoante os sexos) e de tentar resolvê-lo no âmbito das lutas feministas, parece-me que o problema é de ordem artística: fazê-lo implica um olhar curto, e a curteza de vista implica sempre um valor literário diminuto. Enquanto leitores, parece-me que a exigência deve ser sempre a amplitude.
Nasci em 1990. A ditadura, em grande parte da minha vida, foi o símbolo da fome das minhas avós. Na minha infância, vi a vida do Estado Novo sempre ao longe, quase como memória familiar, mas nunca minha, implicando fome, pobreza, analfabetismo. E já na infância eu fazia o caminho que descrevi no início deste texto, e estudava e disciplinava-me para um dia poder ser escritora. Nessa altura, não me passava pela cabeça um mundo em que a minha relação com os meus livros tivesse factores externos aos da relação das minhas mãos com os meus textos. Em tudo o que é tocável na minha vida, excluo a escrita: vejo-a sempre como a redoma em que faço o que quero dos meus dedos, em que me é impensável aceitar cedências, em que não limo nem castro nem mutilo. E não conheço nenhum escritor que aceite estar de mãos atadas. Maria Teresa Horta, num mundo que era cordas, andou sempre com as suas livres, amplas, a agarrar numa caneta, a bater num teclado. O seu legado talvez seja mesmo esse: a escrita faz o milagre de criar vidas ao invés de lhe responder, e quando cede morre logo.