Or Levy, Eli Sharabi e Ohad ben Ami. Hamas cumpriu com a promessa de libertar mais estes três reféns neste sábado. Apesar do sucesso da troca – que envolveu também a libertação de dezenas de prisioneiros por Israel – o grupo palestiniano foi duramente criticado, quer pelo estado dos prisioneiros, quer pelo aparato da cerimónia em que mostraram os três homens.

As primeiras imagens divulgadas pelas Forças de Defesa de Israel (IDF) mostravam o reencontro de Or Levy com a sua família. O caminhar vagaroso do homem com nacionalidade portuguesa confirmava o cenário antevisto na cerimónia do Hamas: os 491 dias de cativeiro castigaram muito o corpo do refém capturado a 7 de outubro, no mesmo dia em que a sua mulher foi morta.

Tal como Or, também Eli e Ohad estavam praticamente irreconhecíveis, mesmo para quem ao longo de mais de 16 meses viu a cara dos familiares em panfletos, na esperança deste reencontro. A filha de Ohad ben Ami admite que “mal reconheceu” o próprio pai.

“És muito bonito e eu amo-te muito. Tive saudades”, ouviu ben Ami da mulher, segundo o Haaretz. Mas, sendo tão notório, o debilitado estado físico dos reféns dominou os comentários sobre esta troca e deixou em estado de alerta os familiares das pessoas que ainda estão em cativeiro em Gaza.

A reação dos líderes israelitas não se fez tardar, com dedos apontados ao Hamas pela condições desumanas que dão aos reféns. O Presidente israelita, Isaac Herzog, diz que as imagens da libertação representam um “crime contra a humanidade”.

O mundo inteiro tem de olhar diretamente para Ohad, Or e Eli — que regressam após 491 dias de inferno, famintos, magros e com dores — a serem explorados num espetáculo cínico e cruel por assassinos cruéis”, escreveu Herzog no Twitter.

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, foi mais longe e prometeu responder ao grupo palestiniano. “O governo de Israel abraça os três regressados. (…) As imagens chocantes que vimos hoje não vão ficar sem resposta”, diz um comunicado do gabinete de Netanyahu.

Devido às duras condições dos três reféns e às repetidas violações pelos grupos terroristas do Hamas, o primeiro-ministro deu ordens para que Israel não ignore isto e tome as medidas necessárias”, acrescentou.

Netanyahu sob pressão ainda maior para fazer regressar outros reféns

Apesar da posição dura contra o Hamas, Netanyahu não se livrou de ser muito criticado por vários israelitas que continuam com o coração nas mãos à espera do regresso de familiares que permanecem em cativeiro em Gaza.

“O choque das imagens difíceis deve levar a apenas um movimento – salvar vidas”, lê-se a carta do movimento de Familiares de Reféns e Desaparecidos, citado pelo jornal Haaretz.

“As fotos de Eli, Ohad e Or contam a história da qual tínhamos tanto medo: os reféns em Gaza estão a ser mantidos em condições desumanas, sem comida, sem cuidados médicos, a morrer lentamente. São as fotos que estamos a ver – e sabemos que a realidade é ainda mais difícil”, escreveram, citados pelo Haaretz.

“As imagens de Or, Ohad e Eli são semelhantes às que o mundo não via desde o Holocausto. Exigimos que Netanyahu oriente imediatamente a equipa de negociação israelita a iniciar negociações intensivas para finalizar a libertação de todos os reféns restantes”, escreveu no X Ruby Chen, cujo corpo do filho  – morto a 7 de outubro pelo Hamas – permanece em Gaza.

Também o Ministério da Saúde de Israel revelou que os três reféns libertados pelo Hamas se encontram em más condições de saúde, sofrendo de desnutrição grave. Os três reféns terão perdido muito peso durante os 491 dias que passaram em cativeiro e já estão a ser acompanhados pelos médicos.

Hamas diz que libertação foi “civilizada”

Além das críticas à condição física dos reféns, tem sido denunciada a forma como o Hamas expôs ao público os reféns no momento da libertação.

O Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) pediu que as próximas trocas de prisioneiros detidos em Israel e de reféns mantidos em Gaza decorra de forma “digna e privada”. “O CICV está cada vez mais preocupado com as condições em que decorrem estas operações”, disseram num comunicado citado pela Lusa.

Apesar das críticas, o Hamas garantiu que a libertação de três reféns foi feita “de forma civilizada e de acordo com as éticas do povo palestiniano”. “[O Hamas] mantém-se comprometido em implementar todos os aspetos do acordo de cessar-fogo”, disse o porta-voz do Hamas à BBC.

Hazem Qassem acusou Israel de demorar na implementação da ajuda humanitária acordada no cessar-fogo. Segundo o porta-voz, os israelitas não levaram máquinas para limpar os escombros, não enviaram ajuda para a área da saúde e não iniciaram reparos nos hospitais.