Troca por troca. O Presidente norte-americano, Donald Trump, promete manter o apoio militar e financeiro à Ucrânia, sob uma condição: que a Ucrânia ceda as suas reservas de terras-raras, um conjunto de metais que estão espalhados em território ucraniano. Em reação, o Chefe de Estado ucraniano, Volodymyr Zelensky, mostrou-se disponível para negociar com o homólogo dos Estados Unidos da América (EUA).
“Se estamos a falar sobre fazer um acordo, então vamos fazer um acordo, estamos aqui para isso”, afirmou Volodymyr Zelenksy numa entrevista à Reuters. O Presidente ucraniano, que tem tentado cair nas boas graças do seu homólogo norte-americano, até considera justo que os EUA obtenham acesso às reservas de terras-raras. “Os americanos foram os que ajudaram mais e, por isso, os americanos devem ser aqueles que mais ganham”, salientou o líder ucraniano.
Como exemplo, o Presidente da Ucrânia referiu que a região de Dnipro é “bastante rica” em metais e que, por isso, é necessário “parar Putin” e “proteger” as reservas. A extração de terras-raras será, assim, um dos pontos fundamentais no plano de paz elaborado pela administração Trump. Sem surpresa, a Rússia já deixou críticas e assinalou que se trata de uma “proposta comercial”. “É melhor, claro, não providenciar assistência de todo e contribuir para o fim do conflito”, lamentou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov.
A hipótese de ter algo material a ganhar com a guerra na Ucrânia agrada a Donald Trump. “Eu quero ter a segurança das terras-raras. E eu quero essa segurança e eles estão dispostos a garanti-la”, realçou o Presidente norte-americano. A intenção do líder norte-americano não é propriamente geopolítica — é mais económica — e também visa diminuir a dependência da China. O que são, então, estas terras-raras?
Terras-raras: 17 metais, alguns na Ucrânia, outro nem tanto
As terras-raras são um conjunto de 17 metais — lantânio, cério, praseodímio, neodímio, promécio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, escândio, túlio, itérbio, lutécio e ítrio — que possuem propriedades magnéticas e elétricas. Atualmente, são usadas nas indústrias de ponta e de alta tecnologia — são, por exemplo, fundamentais no fabrico de telemóveis, televisões, lâmpadas ou mesmo mísseis.
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Apesar do nome, não significa que os metais sejam necessariamente raros, ainda que haja uns mais comuns do que outros. Como explica o Serviço Geológico norte-americano, as “terras-raras são relativamente abundantes”. No entanto, a extração costuma ser custosa e acarreta altos custos ambientais para os ecossistemas.
O grande produtor destes metais é a China, que extrai, segundo refere o think tank Center for Strategic and International Studies, cerca de 60% destas terras-raras, refinando cerca de 90%. Pequim tem, por isso, uma posição dominante na exportação destes metais — e será isso que Donald Trump quererá combater. Em clima de competição, o Presidente norte-americano já reiterou que quer colocar as indústrias norte-americana na dianteira e reduzir a dependência da China.
Em declarações à CNN Internacional, o consultor ucraniano Adam Mycyk sublinha que os depósitos ucranianos de terras-raras são “globalmente significativos”. “Oferecem diversificação de produtores dominantes como a China. Manter esses recursos sob controlo ucraniano é crucial para manter a soberania económica”, frisou.
As terras-raras na Ucrânia
Neste momento, a Ucrânia não tem ativa qualquer extração mineira de terras-raras, ainda que, mesmo antes das declarações de Donald Trump, o Presidente ucraniano já tivesse seduzido os aliados com esta proposta no seu plano para a vitória.
Citada pela Deutsche Welle, Olena Kramarenko, vice-ministra ucraniana da Proteção Ambiental, sublinhou que Kiev está a trabalhar para “tornar públicos” os dados sobre os metais. “Estamos a elaborar medidas regulatórias e legais”, disse a governante, acrescentando que a finalidade consiste em “integrar a Ucrânia na estratégia europeia de extração de recursos”.
Porém, existe um problema: a parte da Ucrânia atualmente ocupada pela Rússia concentra, segundo adiantou Volodymyr Zelensky à Reuters, cerca de metade — serão cerca de 40% — das reservas de terras-raras, em particular na província de Zaporíjia e Donetsk. Mas isso não impede o Presidente ucraniano de usar este trunfo para que o apoio norte-americano não termine.