“Quero pedir desculpa, porque com esta forte constipação é-me difícil falar. Foi por isso que pedi ao meu irmão para ler a catequese. Ele vai lê-la melhor do que eu.” O breve pedido de desculpas (aqui aos 12:10) na audiência geral semanal de 5 de fevereiro foi o primeiro sinal de que algo não estava bem. Francisco, ofegante, leu apenas um breve resumo da intervenção que tinha preparado para aquela quarta-feira — e o texto integral foi lido por um outro sacerdote.
São bem conhecidos os problemas de saúde do Papa Francisco, de 88 anos, especialmente no que diz respeito às questões respiratórias. Na juventude, sofreu uma grave infeção que o obrigou a ser operado e a retirar uma parte do pulmão direito; desde a eleição como Papa, já tinha estado internado três vezes, uma delas com uma bronquite; e já há vários anos que é comum ver Francisco a surgir nos eventos públicos de cadeira de rodas.
Porém, aquela constipação era mais do que isso: era já um sinal da infeção respiratória que obrigou o Papa Francisco a ser hospitalizado pela quarta vez, com um quadro clínico descrito pelo Vaticano como “complexo” e que, entretanto, evoluiu para uma pneumonia. Como conta o jornal italiano Corriere della Sera, aquele foi o primeiro dia de uma longa batalha dos médicos do Vaticano, que durante vários dias tentaram, sem sucesso, convencer o Papa a ir ao hospital. Francisco resistiu até à última — afirmando que a sua prioridade era continuar o trabalho pastoral.
Um dia depois daquele episódio, o Vaticano levantou a ponta do véu com um primeiro comunicado: “Devido a uma bronquite que o afeta por estes dias, e de modo a continuar a sua atividade, na sexta-feira dia 7 e no sábado dia 8 de fevereiro, as audiências do Papa Francisco terão lugar na Casa de Santa Marta.” Diagnosticado com uma bronquite, o Papa não sairia da sua residência para se deslocar até ao Palácio Apostólico, onde habitualmente decorrem as audiências.
Segundo o Corriere della Sera, aquela decisão já terá sido produto de uma negociação entre os médicos e o Papa: Francisco não aceitaria ficar de cama, mas estava disponível para admitir realizar as suas cerca de 10 audiências diárias na Casa de Santa Marta.
Duas horas ao frio
A reclusão, porém, durou pouco tempo. No domingo, dia 9 de fevereiro, o Papa Francisco saiu da Casa de Santa Marta para presidir à missa na Praça de São Pedro. Durante cerca de duas horas, num dia frio e ventoso, Francisco esteve numa missa a céu aberto, ponto alto do Jubileu das Forças Armadas, de Polícia e de Segurança — um evento integrado no calendário do Ano Jubilar de 2025.
Mas, novamente, as dificuldades respiratórias voltaram a afetar o Papa, visivelmente cansado e ofegante durante toda a missa. Depois de ler os primeiros três parágrafos da homilia que tinha preparado, voltou a ter de interromper a sua intervenção (aqui aos 28:37): “E agora peço desculpa e peço ao Mestre [das Celebrações Litúrgicas] que continue a leitura, devido a dificuldades na respiração.” O arcebispo Diego Ravelli assegurou a leitura do texto do Papa enquanto Francisco continuava com visíveis dificuldades respiratórias.
No primeiro parágrafo da homilia, que ainda leu, Francisco comentou o episódio bíblico do Sermão da Montanha com uma frase em que o mesmo jornal italiano não hesitou em ver um paralelismo com a persistência do próprio Papa: “Jesus não está preocupado em dar uma imagem de si mesmo às multidões, em executar uma tarefa, em seguir um cronograma; pelo contrário, coloca sempre em primeiro lugar o encontro com os outros.”
Especialmente devido ao Ano Jubilar, a agenda do Papa Francisco está especialmente sobrecarregada — e o chefe da Igreja Católica, mesmo doente, não quis abrandar. No dia seguinte, segunda-feira, só mesmo no limite é que foi cancelada a ida do Papa a Cinecittà, num evento associado ao Jubileu dos Artistas e do Mundo da Cultura. Nesse mesmo dia, Francisco manteve as suas audiências privadas. Segundo o Corriere della Sera, quando recebeu o reitor da grande mesquita de Paris, Chems-eddine Hafiz, terá desabafado sobre a sua impaciência perante a reclusão em Santa Marta: “Estou doente, tenho bronquite, vivo aqui e não posso sair.”
O mesmo jornal revela que, por esta altura, o Papa Francisco já tinha finalmente aceitado ir, discretamente, ao hospital Agostino Gemelli, o hospital romano onde existe uma ala privada inteiramente dedicada aos cuidados de saúde do Papa reinante. Francisco foi ao hospital para uma curta visita, em que realizou exames, mas voltou ao Vaticano.
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A 12 de fevereiro, quarta-feira, realizou-se novamente a audiência geral semanal. E, pela terceira vez numa semana, o Papa Francisco teve de interromper a leitura da sua intervenção por causa das dificuldades respiratórias. Desta vez, leu apenas a primeira linha do discurso, antes de pedir desculpa (aqui aos 12:50): “Com a minha bronquite, não consigo ler. Espero conseguir da próxima vez.”
Por esta altura, explica o Corriere della Sera, os médicos do Vaticano insistiam cada vez mais para que Francisco recebesse tratamento hospitalar. O argumento na residência do Papa era o de que a terapêutica seria inútil se o líder da Igreja Católica continuasse a sair. “Eles querem levar-me para o hospital, mas eu estou melhor e preferia ser tratado em casa”, terá respondido o Papa na sexta-feira, dia em que finalmente o Vaticano anunciou que Francisco tinha sido transportado para o hospital — mas só depois de concluir as audiências programadas para essa manhã.
Como consequência da hospitalização, a agenda do Papa Francisco foi cancelada, pelo menos, até ao próximo domingo: a missa do Jubileu dos Artistas e do Mundo da Cultura foi presidida pelo cardeal português José Tolentino Mendonça; a audiência desta quarta-feira foi cancelada e a missa do próximo domingo, integrada no Jubileu dos Diáconos, será presidida pelo arcebispo Rino Fisichella.
Comunicado do Vaticano refere “pneumonia”
Depois da hospitalização, o estado de saúde do Papa Francisco foi atualizado, já que entretanto foi diagnosticado com uma “infeção polimicrobiana das vias respiratórias”. O Vaticano chegou a classificar o estado de saúde do Papa como “complexo”, antes de emitir um novo comunicado menos alarmista, garantindo que o Papa estava estável. Esta terça-feira, o Vaticano confirmou que Francisco tinha repousado numa noite “tranquila”, tomado o pequeno-almoço e lido os jornais, como habitualmente.
Contudo, já ao final do dia de terça-feira, o Vaticano voltou a divulgar um boletim clínico do Papa, com mais detalhes, revelando que Francisco sofre de uma pneumonia bilateral. “Os exames laboratoriais, a radiografia do tórax e o estado clínico do Santo Padre continuam a apresentar um quadro complexo”, anunciou o Vaticano.
“A infeção polimicrobiana, que surgiu num contexto de bronquiectasia e bronquite asmática, e que exigiu o uso de antibioterapia com cortisona, torna o tratamento terapêutico mais complexo”, lê-se no comunicado. “A TAC torácica de controlo a que o Santo Padre se submeteu esta tarde, prescrita pela equipa de saúde do Vaticano e pela equipa médica da Fundação Policlínica ‘A. Gemelli’, mostrou o aparecimento de uma pneumonia bilateral que exigiu uma nova terapia medicamentosa.”
A nota revela ainda que, “no entanto, o Papa Francisco está de bom humor”. O Vaticano acrescenta: “Esta manhã recebeu a Eucaristia e, durante o dia, alternou o repouso com a oração e a leitura de textos. Agradece a proximidade que sente neste momento e pede, com um coração agradecido, que continuemos a rezar por ele.”
Apesar da hospitalização, há uma coisa que o Papa Francisco não deixou de fazer todos os dias: telefonar ao padre Gabriel Romanelli, o pároco da única paróquia católica da Faixa de Gaza. O telefonema diário de Francisco tem sido um hábito há meses — e, de acordo com o próprio Romanelli, o Papa tem continuado a contactá-lo todos os dias.