Uma vida sexual que decorria com “normalidade” e sem “exigências especiais”. Foi desta forma que a ex-mulher de Joël Le Scouarnec — o homem de 75 anos acusado de abusar sexualmente de 299 crianças em ambiente hospitalar em França — descreveu a intimidade do casal.
Marie-France Le Scouarnec separou-se há vários anos do médico e, esta terça-feira, depôs em tribunal no segundo dia do julgamento do maior caso de pedofilia de sempre no país. O acusado que se senta no banco dos réus é o homem com quem viveu durante anos a fio e com quem teve três filhos. A mulher revelou que a relação dos dois se “deteriorou em 1997”, porque o cirurgião olhava para ela somente “como uma empregada”. Dizia que “cozinhava bem e que cuidava bem das crianças”, afirmou a ex-mulher, que lembrou a ausência constante do marido por causa do trabalho.
Foi nos hospitais em que trabalhou que o ex-cirurgião terá cometido a maioria dos crimes contra crianças e jovens. Aproveitaria os períodos em que os menores ainda estavam anestesiados, por conta dos procedimentos médicos a que eram sujeitos, para cometer grande parte dos abusos.
Em 2020, quando o médico foi julgado pelos crimes de violação e abuso sexual das duas sobrinhas, de uma vizinha e de outra menina com quem contactou em meio hospitalar, a sua ex-mulher já tinha negado ter tido conhecimento de comportamentos pedófilos do então marido. Alega que só soube do que se passava no momento em que ele foi preso, em 2017, depois de decorrerem buscas na sua casa que revelaram que acumulou ao longo dos anos mais de 300 mil fotografias de abusos sexuais a menores e vários cadernos com relatos dos seus atos. Por essa altura, o casal já estava separado há muito tempo e é esse o argumento que Marie-France tem utilizado nos últimos anos para defender que não encobriu o ex-marido.
Foi entretanto tornada pública uma carta escrita à mão e assinada por Marie-France Le Scouarnec, enviada a amigos que estavam prestes a denunciar o homem sete anos antes da primeira queixa contra o ex-marido, na qual pede aos destinatários que tivessem “a bondade de proteger” o seu filho, o único que não conhecia “o passado do seu pai”.
No banco das testemunhas esteve, além dos familiares mais próximos do antigo médico acusado de centenas de crimes de pedofilia, o especialista que acompanhou a primeira detenção de Le Scouarnec quando este estava no centro de detenção de Saintes (Charente-Maritime), no final de 2018, e que traçou o seu perfil psicológico.
Recordou que o homem que analisou “nunca se sente desconfortável” e “não demonstra irritação”. “Ele expressa-se sempre de forma breve, espontânea e com vocabulário apropriado “, afirmou, comparando a sua abordagem às entrevistas psicológicas com aquela que se faz a um “jogo de xadrez”.
Filho mais novo de Joël Le Scouarnec diz que pai era “calculista”, mas recorda “momentos felizes” da infância
O testemunho do filho mais novo do ex-cirurgião, de 37 anos, começou com a partilha do seu estado de espírito. “Sinto raiva e muitas emoções negativas, mas estou aberto a responder todas as perguntas possíveis”, afirmou, citado pela France Info.
Descreveu o pai como “um homem inteligente, um pouco frio, que se interessava por muitas coisas”. Também disse que ele era “um pouco calculista” e que tinha “uma personalidade forte”. Apesar disso, o filho descreveu uma “infância completamente feliz” e assumiu mesmo que gostaria de manter a imagem que tem do homem que o educou: “um pai presente que me educou e com quem vivi momentos felizes na minha infância.”
O homem de 37 anos foi questionado diretamente sobre se acha que pode ter sofrido abusos sexuais por parte do pai, mas negou essa possibilidade, realçando que não tem quaisquer marcas psicológicas de eventuais abusos.
“Não tenho nada de que me queixar em termos de problemas [mentais] ou de dependências”, respondeu o filho do principal arguido, que diz nunca ter sequer consultado um psicólogo, antes ou depois das revelação dos atos do pai. “Acho que, a dada altura, sim, vou consultar alguém”, disse, referindo-se à pressão que sente devido à ampla cobertura mediática do caso.
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O mesmo filho, que não foi identificado em tribunal, respondeu também à questão que muitos fazem. Como é que não sabia da condenação do pai, em 2005, por visualização de pornografia infantil? “Além de ter sido protegido, não sei bem qual poderá ter sido a razão”, respondeu, garantindo que a ocultação deste facto acabou por não só não o proteger como prejudicá-lo na mesma.
“Este homem é realmente diferente do meu pai. Queria agradecer ao meu pai por tudo o que fez por mim”, afirma o filho do cirurgião, que admite não ir visitá-lo, para se proteger. “Tento saber o menos possível para guardar o que resta dele, da nossa infância”, acrescenta, depois de a audiência ter sido interrompida momentaneamente.
Estas últimas afirmações suscitaram uma intervenção de Joël Le Scouarnec, que se dirigiu diretamente ao filho. “Talvez não nos vamos voltar a ver. Mas tenho de te dizer que te amo e peço o teu perdão”, disse o arguido, que não obteve uma resposta verbal do filho, apenas um ligeiro aceno com a cabeça.
Filho mais velho abusado pelo avô
Durante o julgamento, também o filho mais velho de Joël Le Scouarnec testemunhou e assegurou que nunca sofreu quaisquer abusos sexuais por parte do pai — tal como confirmaram os irmãos —, mas contou que tinha sido vítima do avô e que o pai tinha conhecimento.
“Houve exibições, toques, sexo oral. Deve ter acontecido umas dez vezes entre os 5 e os 9-10 anos, na oficina do meu avô, no quarto, na cozinha, enquanto via TV, no colo dele”, contou, realçando que tem as “imagens na cabeça” e que estas nunca desaparecerão.
O jornal francês Le Figaro recorda que, num anterior julgamento, em 2020, o ex-cirurgião assegurou que nunca tinha abusado sexualmente dos filhos, disse até que tal coisa “nunca” lhe “passou pela cabeça”. Mas tal como o filho agora confirmou, o homem tinha conhecimento dos abusos do pai, avô da criança.