As ações do grupo EDP registaram fortes perdas na abertura do mercado em reação aos maus resultados da EDP Renováveis, mas também ao anúncio de que o grupo iria travar os investimentos em nova potência renovável até 2026.
“Não vimos qualquer justificação fundamental para o que vimos esta manhã. Foi uma reação exagerada”, afirmou o presidente executivo do grupo durante uma conferência com os analistas, onde Miguel Stilwell de Andrade assumiu a necessidade de ser mais esclarecedor e dar mais informação do que os comunicados feitos ao mercado sobre os resultados anuais da EDP e da EDP Renováveis e sobre as perspetivas para os próximos dois anos.
EDP lucra 801 milhões em 2024, trava investimentos e vai compensar mais os acionistas
A EDP Renováveis, que até ao ano passado era a estrela do grupo, chegou a perder mais de 15% do seu valor, contaminando a casa-mãe que chegou a cair 7% (a EDP controla 71,3% da Renováveis). Ao longo da manhã a dimensão das quedas foi travando, mas o fecho ainda foi muito negativo com a EDPR a perder 11,5% e a EDP a desvalorizar 4,4%. Num só dia a capitalização bolsista do grupo encolheu 1,7 mil milhões de euros, dos quais mais de 1,1 mil milhões dizem respeito à EDP Renováveis.
Questionado sobre porque foi tão negativa a reação dos mercados, o presidente executivo Miguel Stilwell de Andrade respondeu: “Honestamente, não consigo perceber porque há uma reação tão negativa. Claramente não nos explicámos bem”. Assumindo que foi adotada uma “postura mais conservadora” em relação à EDP Renováveis, que será o principal alvo da redução de 22% do investimento anunciada para os anos 2025 e 2026, o CEO afirmou que a gestão não quis assumir “grandes compromissos” num contexto de maior volatilidade e incerteza para o setor das renováveis.
Miguel Stilwell de Andrade reconhece que os resultados da EDP Renováveis foram maus — a empresa registou prejuízos de 556 milhões de euros em 2024 por causa da suspensão dos investimentos na Colômbia, mas também por antecipar já o efeito negativo das ordens de Donald Trump para travar os apoios ao setor nos Estados Unidos. Mas considera também ser “inegável que a EDP teve bons resultados”, com lucros de 801 milhões de euros, uma quebra de 16% face a 2023 que é explicada pelo prejuízo da EDPR já que o resultado recorrente ultrapassou o objetivo.
A EDP anunciou esta quarta-feira uma antecipação para 2025 da subida do dividendo e um programa de recompra de ações no valor de 100 milhões de euros, mas isso não evitou a forte penalização dos títulos do grupo em bolsa esta manhã.
Questionado pelos analistas sobre a opção de fazer a recompra com ações da EDP em vez da EDP Renováveis, uma vez que será esta subsidiária a cortar investimento, o que liberta mais capacidade financeira, Stilwell de Andrade disse que as duas opções foram avaliadas e admitiu que a gestão pode reavaliar essa opção. Ou seja, não afastou um programa de recompra de ações da EDP Renováveis ou mais antecipação de dividendos.
O grupo EDP anunciou que vai investir menos 22% nos próximos dois anos, prevendo um forte travão ao aumento de nova capacidade renovável para 2 gigawatts em 2025 e 1,5 gigawatts em 2026. Em 2024, a potência solar e eólica da EDP tinha crescido em 4 gigawatts. Também a rotação de ativos renováveis vai ser reduzida.
“Não temos qualquer dúvida de que a transição energética vai acontecer e de que vão surgir boas oportunidades para as quais estamos bem posicionados. Mas tempos volatilidade levam-nos a ser mais prudentes.” E a ser “mais seletivos” nos projetos de investimento, de modo a garantir retorno, mas as boas oportunidades continuam a existir, realçou ainda o presidente executivo da EDP que apontou os mercados mais maduros e estáveis como alvos.
EDP Renováveis perde 556 milhões em 2024, com efeito Trump já a penalizar resultados
Num mundo mais incerto para as renováveis, o mercado ibérico e o negócio de redes (sobretudo em Portugal e no Brasil) ganham um peso acrescido nos números da EDP. No caso das redes de distribuição está previsto um reforço significativo do investimento em Portugal para modernizar equipamentos com a idade média de mais de 40 anos e acomodar nova produção, mas também a espera subida do consumo. O avanço desses investimentos traria mais ganhos à EDP num setor que é regulado, mas depende do retorno e a EDP aguarda que as autoridades se pronunciem sobre a proposta de 1,5 mil milhões de euros até 2030.
Num contexto de investimento, o presidente executivo voltou a atacar a contribuição extraordinária sobre o setor energético que classifica de “autêntico contrasenso”, na medida em que quando mais se investe, mais se paga. A CESE incide sobre os ativos e foi criada em 2014 como uma taxa extraordinária que se tem repetido todos os anos. As empresas têm contestado a sua liquidação, mas há decisões contraditórias nos tribunais administrativos. A EDP aguarda pela pronúncia do Tribunal Constitucional.
A empresa vai rever as metas do plano de negócios a médio e longo prazo. Para já, os objetivos financeiros da casa-mãe para EBITDA e resultados mantêm-se, ainda que com um mix diferente. Mais contributo das redes, que pesam já 43%, do negócio de produção e comercialização na Península Ibérica e do Brasil. E menos da EDP Renováveis e dos Estados Unidos.
Atualizado às 17h00 com fecho das cotações.