O PS está a apostar tudo na ideia de um primeiro-ministro que “foge do apuramento da verdade como o diabo foge da cruz”, como descreve o próprio líder Pedro Nuno Santos quando diz que o chefe de Governo prefere uma moção de confiança a sujeitar-se à comissão parlamentar de inquérito sobre o caso Spinumviva. Mas a tese está a ir mais além e já há comparações com Donald Trump.
Este sábado à noite, numa entrevista à CNN Portugal, a líder parlamentar do PS e candidata do partido à Câmara de Lisboa, disse mesmo que “há uma coisa que está a acontecer que é a doutrina Trump”. E explicou: “É a ideia que todas as irregularidades e ilegalidades — e estou a falar em abstrato de Trump — possam ser lavadas pelas eleições se aquela pessoa se sujeitar a eleições e ganhar. Não é verdade: uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”.
Donald Trump é o primeiro presidente norte-americano a ser condenado num processo criminal, após ter sido condenado, sem punições, por pagamentos ilegais para comprar o silêncio da atriz pornográfica ‘Stormy Daniels’, com quem terá mantido uma relação extraconjugal. Na altura, à saída do tribunal, Trump contestou a decisão judicial e disse que “o verdadeiro veredito será a 5 de novembro e será dado pelo povo”, referindo-se à data da eleição presidencial nos EUA.
E no início deste ano, um relatório do procurador especial Jack Smith, indicava que Donald Trump teria sido condenado pela alegada tentativa de anular o resultado eleitoral de 2020 caso não tivesse vencido as eleições de novembro passado. “A perspetiva do Departamento [de Justiça] de que a Constituição proíbe a continuação da acusação e de um processo judicial contra um Presidente é categórica e não se baseia na gravidade dos crimes imputados, na força das provas do Governo ou nos méritos da acusação, que o gabinete apoia plenamente”, sublinhava então o procurador americano. No relatório constava que “se não fosse a eleição do senhor Trump e o seu regresso iminente à presidência, o gabinete considera que as provas admissíveis eram suficientes para obter e sustentar uma condenação em julgamento.”
Relatório de procurador especial indica que Trump seria condenado se não tivesse sido eleito
Quanto ao Governo português, a líder parlamentar do PS repetiu o desafio que o líder tinha deixado na noite anterior para que o Governo retire a moção de confiança, fazendo a ligação direta entre a iniciativa do Governo e o inquérito parlamentar pedido pelo PS. É, considerou, uma “fuga para a frente do Governo, que prefere criar instabilidade num contexto internacional tão difícil e a sujeitar-se a um instrumento legal e parlamentar que é a comissão de inquérito”.
Já na sexta-feira, na rede social X, a deputada e membro da direção do PS Isabel Moreira tinha falado desta mesma situação e com uma comparação no mesmo sentido. Acusava Montenegro de “sujeitar o Regime a uma campanha de lama” e de querer “introduzir o trumpismo em Portugal. O povo a legitimar a ilegalidade e falta de ética. E à sua volta vergam-se. Que absurdo, que horror de indiferença à democracia”, escreveu.
Pior do que saber que não pode ser PM, é sujeitar o Regime a uma campanha de lama que fará. @LMontenegropm quer introduzir o trumpismo em portugal. O povo a legitimar a ilegalidade e falta de ética. E à sua volta vergam-se. Que absurdo, que horror de indiferença à democracia.
— Isabel Moreira (@IsabelLMMoreira) March 7, 2025
Também Pedro Adão e Silva considera “preocupante” que o Governo e aqueles que o apoiam estejam “convencidos de que não há problema nenhum”, falando de uma “cultura política de normalização” de “promiscuidades”. Na SIC-Notícias, na quinta-feira passada, o socialista juntou essa ideia à de um Governo a querer eleições para “limpar a situação”, que diz ser “à la Trump”. “São duas ideias muito perigosas. A ideia de que devemos judicializar e depois a ideia de que o voto limpa tudo”, defendeu o ex-ministro que está contra a antecipação de eleições.
Este sábado, à entrada para a apresentação da candidatura de Alexandra Leitão, o líder socialista atirou a Montenegro também sobre a falta de disponibilidade para ser sujeito a uma comissão de inquérito, mas sem referências aos EUA. “Tudo vale para evitar o inquérito, nomeadamente a Comissão Parlamentar de Inquérito e o esclarecimento. Já não basta dar respostas”, disse numa altura em que se aguardam esclarecimentos prometido pelo primeiro-ministro. Mas agora, para Pedro Nuno, “é preciso conseguir convencer-nos a todos de que nós não tivemos, o que já é cada vez mais difícil, não tivemos um primeiro-ministro avençado durante quase um ano.” Recorde-se que os socialistas têm a intenção de manter o inquérito parlamentar potestativo — como anunciaram na semana passada — mesmo numa próxima legislatura, caso esta seja interrompida por dissolução do Parlamento após o chumbo da moção de confiança que o Governo leva a votos na terça-feira.