Terminou na noite deste domingo, 9 de março, a 64ª edição da ModaLisboa, que tinha como tema o “Capital”. A semana de moda ficou marcada pelas coleções office core, as performances e debates off location e dias tempestuosos, no clima e na atualidade. Dentro do Pátio da Galé, houve regressos — como o de Alves/Gonçalves, pela primeira vez apenas sob o comando de José Manuel Gonçalves, ou ainda o de Nuno Baltazar, que não lançava uma nova coleção há duas temporadas. Também houve filas e salas de desfiles lotadas de figuras públicas, como as dos populares Luís Carvalho e Gonçalo Peixoto. Coleções apresentadas como performances, como foi o caso de Constança Entrudo. E também quem anunciasse um hiato, como fez Luís Buchinho depois de apresentar a coleção que marca os seus 35 anos de carreira na moda. Em modo de balanço, Eduarda Abbondanza analisa os destaques da mais recente ModaLisboa, o cenário da moda nacional, incentiva as novas gerações, e assume o desejo de ter uma loja física permanente onde possa vender as peças dos designers e levar a moda de autor ao público.
Qual o balanço que faz desta edição?
A edição correu muitíssimo bem. Foi das edições que correram melhor, correu mesmo muito bem. Posso destacar o nosso arranque no MUDE com as fast talks, com a sessão de cinema, com as masterclasses e etc e que foi um dia muito importante para nós. Depois no segundo dia, no Centro de Arte Moderna na Gulbenkian, com a Constança e os diálogos entre os artistas e os nossos criativos. E depois o Sangue Novo. E agora estamos na corrida dos desfiles. Acho que houve imensa chuva lá fora, mas aqui foi um mundo diferente do que foi lá fora. Não só da chuva, também das notícias menos boas, tivemos quatro dias muito intensos. Muito criativos e de muita harmonia entre toda a gente.
Que ações a ModaLisboa poderia desenvolver para aproximar os criadores do público?
Ter uma loja fixa, multimarcas de criadores. E então já não tínhamos que fazer a Pop Up. Podia ter outro nome, mas de alguma maneira connosco, porque temos uma experiência grande na área. Mas para fazer isso é preciso um investidor porque a loja tem que ser num sítio muito central. E seria bom para nós ter um parceiro de investimento e de gestão também. Não é só o dinheiro, é conjuntamente pensar o projeto, para ele ser rentável. Uma loja é para vender, dar dinheiro. E já houve conversas com vários. Vamos ver. Estamos abertos a isso, a alguns players, vamos ver.
E um projeto de venda online?
Eles (os criadores) todos têm vendas online. Eu só vou fazer uma coisa necessária, aquilo que já funciona não é preciso.
E os criadores têm stock suficiente para alimentar uma loja física?
Uns sim, outros não, um mais rotativo, outros mais de coleção. Mas não é esse o problema.
Uma imagem da performance instalação de Constança Entrudo, no CAM, esta sexta-feira
Porque é que a ModaLisboa não tem mais formatos de loja pop up, como o que realizou recentemente, no Locke de Santa Joana?
É difícil porque uma Pop Up é tempo curto e tem que estar num sítio bom. De fácil acessibilidade e central na cidade. E neste momento a cidade está toda ocupada, e quando não está ocupada é tudo muito caro. E nós fazemos a Pop Up mesmo para aproximar as coleções dos criadores ao público, não é um negócio para nós. E como tal, quando conseguimos fazer, fazemos. Mas há outros agentes que também fazem Pop Ups entretanto. Que sejam mais a fazer e nós fazemos sempre que precisamos.
Constança Entrudo apresentou uma coleção em modo performance. Considera que o modelo do desfile possa migrar para as apresentações mais artísticas?
Depende dos criadores. Há criadores cujo trabalho, o storytelling é na passarelle. Depois há outros criadores em que o storytelling é feito de outras maneiras. Porque precisam de mais tempo, são mais contemplativos, e porque eles preferem outras linguagens. É uma exploração de outras linguagens dentro da própria moda. A moda tem tudo isso no seu seio e todas essas possibilidades nós tentamos na medida do possível atender. Não conseguimos pôr sempre todos em off location mas vamos rodando, vamos fazendo rotatividade e vamos oferecendo off locations a esses que precisam de outro olhar e de outro tempo.
Os vencedores do Sangue Novo destacaram a importância da ModaLisboa como ponte entre os criadores e a indústria para que pudessem conseguir financiamento…
E materiais para trabalharem e essa proximidade também através dos estágios.
É difícil conseguir as parcerias?
É difícil, mas cada parceria que nós conseguimos é um passo dado. Com os sapatos também, e etc. Estamos sempre a tentar fechar mais parcerias.
Os vencedores do concurso Sangue Novo foram conhecidos na sexta-feira
Luís Buchinho mencionou que poderia não lançar novas coleções. Já Gonçalo Peixoto assume o apelo comercial e fica cada vez mais popular entre o público jovem. Como vê esses contrastes entre os criadores da ModaLisboa?
A ModaLisboa já existe há 30 anos e tem consigo criadores que vêm quase desde o princípio. Mas teve sempre um olhar para as novas gerações, sempre. Porque a moda é uma constante renovação e não podes ficar fechada num calendário, tens que ir respondendo às novas gerações. Eu acho que se nós falarmos com os criadores, todos eles têm perspetivas diferentes das coisas. O Luís Buchinho não sei… A questão da pandemia foi difícil para a moda no mundo inteiro, e cá também foi, e provavelmente há designers que descobriram outras maneiras de fazer outras coisas que não passa sempre por apresentar coleções. O Luís Buchinho é um criativo, já editou livros e etc. Só quando chegar a próxima edição é vou ter a certeza se ele faz ou não, porque pode estar uma estação fora, como esteve o Nuno Baltazar, que voltou com uma coleção fortíssima.
Depois de uma pausa, Nuno Baltazar regressou à ModaLisboa nesta edição
Mas ainda assim, o Nuno Baltazar é muito crítico do cenário atual da moda em Portugal.
Sim. Mas ele teve uma estação sem apresentar e agora voltou, e voltou com uma coleção incrível. Portanto, os tempos são diferentes, as pessoas precisam também de se adaptar aos novos tempos e as vezes têm de fazer pausas. De introspeção, olhar, ver e avançar seja para que lado for.
Quem é que gostaria de ver na plateia da ModaLisboa e que ainda está por vir?
Não sei responder a essa pergunta. Porque a ModaLisboa é uma rotatividade de pessoas ao longo desses quatro dias imensa.
Nunca sentiu falta de ninguém?
Não sou pessoa de sentir falta, eu sou uma pessoa muito agradecida a quem está.
E destaca alguma presença?
A presença que vem desde sempre: Lili Caneças. Está connosco desde o princípio. E portanto eu sou mais agradecida e relaciono-me mais com as presenças do que com as ausências. As ausências não as noto tanto.